“Rica” prenda!

Sabe-se a minha opinião sobre a festa brava, não entendo que em nome da tradição se continue a molestar um animal (corrijo: um ser vivo), e até estou a usar um verbo relativamente “meigo” para que a prosa não se radicalize, mas confesso que do espectáculo há muitos elementos que me agradam, porque vistosos e exaltantes.

Começo pelo touro, cheio de garbo e valentia. Vê-los no pasto é uma beleza, apetece-me sempre parar o carro e pôr-me a fotografá-los, até que o faço por vezes vezes e já corri risco de ser corrido à cornada. Depois o cavalo, esse artista em simbiose perfeita com quem é na sela, mercê do trabalho de anos. Gosto da música que se solta volta e meia, quando a lida agrada, sei do que recordo do tempo em que a RTP transmitia, semanalmente, as corridas, era eu um rapazelho inconsciente. João Núncio, José Mestre Baptista, Luís Miguel da Veiga, David Ribeiro Teles … foram nomes que me ficaram na memória, verdadeiros ídolos do toureio a cavalo de então. Voltemos ao pasodoble, que é dele que estou a falar, alegre, empolgante, vitorioso e castiço. Antigo de séculos, também frequentemente dançado, mas não há mais de três quartéis, com os homens desenhando figuras como se toureiros fossem na pista. E que dizer dos trajes? Casacas e “traje de luces”, verdadeiras obras-primas da alfaiataria, bordadas a ouro e minúcia. Dos segundos hei-de falar noutra ocasião, em texto à parte, que é a casaca que me foi dada pelo cavaleiro Rui Fernandes que me levou hoje a escrevinhar. Não consigo precisar o ano, não foi certamente há muito, Rui Fernandes foi ao “Você na Tv” algumas vezes para falar dos cartéis de que fazia parte e numa delas, talvez no seguimento de uma conversa sobre os seus trajes de tourear, confessado o meu apreço pela boniteza das casacas, ofertou-me uma das suas, imponentemente negra, de veludo, bordada a ouro. Dá-lhe o negro o mistério, o “ouro” o poder. Já não a usava, explicou-me, tinha-vestido uma única vez e logo teve uma colhida. Sabendo-se das superstições de quem lida com touros, não é de estranhar que a casaca tenha sido posta de parte. Tenho-a agora no monte, lá faz todo o sentido, que Monforte é terra de ganadeiros, cavaleiros, (Paulo Caetano, que é amizade de que não abdico, João Moura e respectivos descendentes) e aficionados (ironia das ironias, vivo com um há vinte anos!). E gosto de a mirar com tempo, pela elegância e solenidade do corte e da cor e pelo esplendor dos detalhes. Agora só me falta o “traje de luces!”.

1 comentário a ““Rica” prenda!

  1. Leonor

    Eu também não entendo como alguém pode sequer aplaudir os luxos dum toureiro, a beleza dum cavalo treinado com sofrimento também, a beleza duma música que pode ser ouvida em casa e nao para aplaudir uma selvajaria é Bonito. Não basta dizer que não entende Manuel Luís Goucha nem deveria ter escrito tal texto assim…..não entende mas parece que gosta!

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *