Aquivos por Autor: admin

Quando a música toca os céus!

Branca e alcantilada assim é Marvão, um verdadeiro tesouro na serra de São Mamede, guardado há séculos pelas muralhas que se sabem anteriores à conquista de Afonso, nosso primeiro rei. Não havia Christoph Poppen de por ela se apaixonar quando por ali passou de bicicleta com a família no Verão de 2010. “Nunca ouvira falar daquele lugar nem ninguém mo indicara. Foi amor à primeira vista! Ficámos todos num estado de felicidade e maravilhamento” – é o próprio quem o diz.

Um ano depois já estava a comprar casa na vila e não descansou enquanto não juntou a sua arte maior, a da música e regência de orquestra, à beleza única daquele local. A ideia do Festival Internacional de Música Clássica surgiu-lhe em 2013 e ano após ano é cada vez mais exigente o programa apresentado. Começou ontem a sua quinta edição e até ao próximo dia 29 serão quarenta os concertos a realizar-se não só em Marvão como em Portalegre, Santo António das Areias, Galegos, Escusa, Quinta dos Olhos d’Água, no complexo arqueológico romano de Ammaia, e ainda no vizinho município espanhol de Valência de Alcântara, onde actuam a Orquestra Estatal de Atenas, a Filarmonia das Beiras e o Coro Gulbenkian, num total de trezentos músicos de vinte nacionalidades incluindo a nossa e com número recorde de participantes. Melhor mesmo é consultar o programa e em andando por estas paragens alentejanas é não perder o que se nos oferece.

Ontem a abertura do Festival no Pátio do seu castelo medievo foi mágica, só podia! Pelo local, pela hora azul que é quando o dia se entrega nos braços da noite e pela música de Dvoräk (compositor checo do século XIX) executada pela Orquestra Estatal de Atenas. E eu estava lá!

Depois digam que não há oferta cultural na província!

www.marvaomusic.com

 

Um passeio na barragem do Maranhão

Um passeio na barragem do Maranhão!

Deram-se ao trabalho de procurar a herdade para numa das porteiras pendurar um convite, elegantemente dirigido aos dois, não sem um textinho incluso que os apresentasse: ”Somos o Ricardo Moutinho e a Inês Meneses, ambos de 25 anos. Chegámos à Vila de Avis, rendidos à beleza natural do Alto Alentejo, decididos a recomeçar da estaca zero rumo ao futuro que idealizámos: mais sustentável”.

Os próprios assumem que tiveram uma ideia com riscos: compraram um barco movido a energia solar fabricado em Portugal pela Sunconcept, e construído a partir de cascos em fibra de vidro, e puseram-se a fazer passeios três vezes ao dia na barragem do Maranhão, para quem quiser embarcar.

Foi o que fizemos e em boa hora, que se é inspirador testemunharmos o empreendedorismo de dois jovens que investiram numa vida diferente, trocando a cidade maior por Figueira e Barros, uma freguesia quase perdida no Alentejo Alto, a tarde não poderia ter sido mais agradável. Pela simpatia do Ricardo e da Inês e pelos encantos de um lago artificial com mais de 40 quilómetros, obra dos anos cinquenta com vista à rega da terra ardente, muito usado nos estágios das equipas de canoagem nacionais e internacionais, sobretudo do norte da Europa. Entre inconfidências soubemos que o nosso campeão, Fernando Pimenta, anda por cá!

Entre hora e meia a duas horas deslizamos sobre as águas, sem ruído de motor nem cheiro a gasolina, apenas o som dos risos, das informações que os nossos anfitriões partilharam do quanto já absorveram sobre a barragem e a região de Avis, e do “silêncio”. Não há outro como este! Ainda nos mimam com produtos da terra, fruta da estação, queijinho de meia cura, compota gulosa e vinho branco fresquinho!

Queremos repetir e há-de ser em Setembro quando voltar ao remanso por mais semana e meia, mas desta vez ao cair da tarde que é quando prometem um pôr-do-sol inesquecível.

Saudades de Lisboa? – pergunto-lhes, já adivinhando a resposta: “quando lá vamos, passados três dias queremos é regressar!”

Como eu os compreendo!

Contactos para que não perca um passeio memorável:
ALÉM TEJO
ECO BOAT TOURS
Clube Náutico Avis
918 146 835
geral.alemtejo@gmail.com

O Rui na tela!

“Adoro os seus vestidos!” – para começo de conversa não podia ser melhor. Logo soltei uma sonora gargalhada e expliquei que vestido é feminino e homem usa fato. Renaud é francês e apesar de viver em Portugal há uma vintena de anos por vezes o seu pensamento ainda o atraiçoa. Faz sentido o engano, se pensarmos que na sua língua “veste” é casaco. Queria dizer-me que gosta das cores que muitas vezes uso, logo ele, homem das cores e dos pincéis, os mesmos com que acaricia os cavalos que nascem nas suas telas.

Apresente-se o artista porque senão o leitor não percebe peva: Renaud Hadef nasceu na década de sessenta em Compiègne, à beira rio Oise, na região Altos de França. Cedo começou a montar, criança mesmo com quatro anos, uma vez que cresceu no “Haras du Pin”, a Versalhes dos cavalos, fundado por Luís XIV, e onde o seu pai era mestre ferrador seguindo já uma tradição de família. “Crescer rodeado de cavalos é um verdadeiro presente da Vida!” – é o próprio a dizê-lo e assim se explica a sua paixão pelos equídeos. Mais tarde descobre que a Arte é o seu caminho e que muitos quereria percorrer por esse mundo fora. Pintor autodidacta, viajante e aventureiro correu “Ceca e Meca” sempre acompanhado de um bloco de papel e da sua caixa de tintas, até ao dia em que aportando ao sul do país, em Pêra se aquietou junto ao mar e aí instalou o seu atelier.

Chegados aqui vai o leitor, certamente, querer saber como conhecemos o artista. Pois bem, é sabido que cá em casa temos idêntica paixão pelos cavalos sendo que muitos dos conhecimentos do Rui estão directamente relacionados com esse mundo, nalguns casos estamos mesmo a falar de amigos comuns e que muito estimamos. E depois gostamos de pintura entre outras artes.

Há uns dois meses o Renaud perguntou ao Rui através do Facebook se podia usar uma fotografia que havia sido publicada no seu mural, tirada pela fotógrafa Lena Saugen, para uma produção da Teresa Burton (uma e outra apaixonadas pelo cavalo Lusitano). Em conversas posteriores o Rui percebeu que a ideia do Renaud era desenvolver na tela o tema da feérica “Féria de Sevilla”, cara aos dois, incluindo-o na ação. E foi assim que nasceu a obra que chegou agora ao monte.

Gostei de ter ajudado a engradar a tela, se bem que a ajuda se tenha resumido a segurar na estrutura de madeira malhetada (sem uso de pregos), primorosamente feita por um verdadeiro mestre marceneiro lá dos Algarves (como é importante investir nestes ofícios artesanais. Hoje em dia um bom carpinteiro, marceneiro, serralheiro … ganha o que quiser! Um país não se faz apenas com doutores!). Assentada, esticada, bem presa (é o próprio Renaud quem o diz: “o pintor tem qualquer coisa de alfaiate”) e por fim pendurada, tenho agora a Feira de Abril a dominar a sala das comidas. No traço algo naïve, e por isso pouco usual na obra de Renaud, descubro a luz e a cor da “Féria”, ocasião única em que na cidade se celebra o facto de se estar vivo e já me imagino de caseta em caseta cantando, bailando e tapeando. Enquanto montadas, de charrete ou “a penantes” sevilhanas de todas as idades desfilam sensualidade e graça nos seus vestidos de folhos e muita festa, ao mesmo tempo que se inquietam: ”que es el garboso en el caballo gris?”.

Agora é que ninguém o atura!

www.renaudhartiste.com

Na Catedral de Jerez

O que me levou a Jerez de la Frontera foi uma gala de Arte Equestre, protagonizada pela Real Escola da Andaluzia e pela Escola Portuguesa, e dela dar-lhe-ei conta em breve, mas não podia deixar de ver a Catedral da cidade, amante que sou destas Casas de Deus, pelo que de Belo exibem. O templo consagrado ao Senhor Salvador, e elevado à dignidade catedralícia em 1980 por decisão de João Paulo II, impressiona a muitos metros de distância pela exuberância das suas fachadas barrocas, e três são, ricamente trabalhadas na pedra. Todo o edifício é aliás em pedra, originária da serra de São Cristóvão, à excepção das cúpulas das naves laterais. Levou tempo a sua construção (séculos XVII e XVIII) e em grande parte foi custeada pelos reis de Espanha, Carlos II, Luís I e Carlos III, a partir das receitas obtidas pelo vinho da região, e até por dois papas, Inocêncio XIII e Benedito XIII.

Pena tenho por não ser permitido fotografar o tesouro da Catedral, tantas as obras de arte que deslumbram o nosso olhar, desde “A virgem menina meditando” de Francisco Zurbaran, genial pintor do barroco espanhol, que volta e meia figura nas maiores exposições de arte internacionais, a uma custódia processional, trabalhada em prata maciça com mais de dois metros de altura. Mas uma foto tirei “à socapa”, com o telemóvel para não dar tanto nas vistas, de Santo António, para aqui pecador confessar a minha ira, que se até entendo que os italianos o digam de Pádua porque ali viveu, pregou como Doutor da Igreja, se deu o seu passamento, estando sepultado onde hoje é a Basílica a si consagrada, já sinto fornicoques quando os espanhóis fazem o mesmo (segundo a inscrição exibida ao lado da imagem). É que António é de Lisboa e até o Papa o diz! E mesmo que o não dissesse! Sabêmo-lo Fernando e nascido bem pertinho da Sé!

Quem casa quer casa!

Lembram-se dos dois pares de gansos que comprámos, há uns dois meses, no mercado dos sábados em Estremoz? Pois, lá andam felizes na barragem se bem que volta e meia tema por eles, que há javalis pelas redondezas a ver pelas tigelas em barro com comida que lhes deixamos nas margens e aparecem depois longe do local onde foram colocadas e sem semente que seja.

Também por isso decidimos mandar fazer uma jangada com espaço suficiente para lhe botarmos uma casota (tínhamos uma onde a “Azeitona” ficava, para se familiarizar com as ovelhas quando voltavam ao redil e que já não é necessária, uma vez que agora a herdade já é toda dela), os recipientes para a paparoca e onde podem estar em segurança. Presa no meio da barragem a jangada aguarda agora os emplumados habitantes. Vai levar algum tempo até que se habituem a tal flutuante aventesma.

Instalá-la foi divertido para começo de tarde, sendo que a tarefa ficou a cargo do Rui ajudado pelo Miguel, um funcionário da empresa a quem encomendamos sempre os trabalhos de carpintaria e que se tem mostrado exemplar naquilo que faz. Já este que escreve ficou a fotografar tudo para agora lhe contar como foi.

Esperam-se nos próximos tempos os devidos acasalamentos, que “apartamento” já têm e que a seu tempo estas águas venham a ganhar novos moradores.
E assim vai a vida cá no campo!

https://mpratesefilhos.pt/carpintaria

No palácio da Duquesa de Alba

“Olha a noiva maiiii liiiinda!” – o que nos ríamos, em pleno programa, sempre que a Cristina brincava com o facto de Cayetana, a aristocrata duquesa de Alba, se ir casar, pela terceira vez, na altura já com mais de oitenta anos. Era figura que admirávamos pelo que dela sabíamos de insubmissão e independência (“… desde pequena que sempre tive uma grande auto-confiança… Não posso dizer se fui bonita – não sou eu que tenho de o afirmar – mas sei que sou atraente, interessante, diferente. Posso parecer excessiva, mas a falsa modéstia aborrece-me” em “Eu, Cayetana”) e várias vezes manifestámos, nos nossos incontroláveis delírios em directo, a vontade de irmos bater-lhe à porta para que ela nos recebesse, como se nos fosse ligar alguma.

Agora, quatro anos depois do seu falecimento, qualquer um pode franquear as pesadas portas do seu palácio em Sevilha, uma vez aberto ao público, se bem que não registe grande afluência, talvez por estar fora do chamado percurso turístico (tanto melhor, confesso, que detesto visitar, o que quer que seja, com atropelos, tempo contado e guias debitando apenas o que lhes interessa), mas partindo da Catedral contei dez minutos por becos e ruelas.

Dos três palácios mais importantes da Casa de Alba, o mais imponente será o de Madrid, o Palácio Lira, soube que abre ao público uma vez por semana, o maior palácio privado de toda Espanha. Ali nasceu Cayetana em 1926 mas seria sobretudo em Las Dueñas que viveria os últimos anos, nele acabando por falecer, por sua vontade, a 20 de Novembro de 2014. Gostava particularmente desta casa e sobretudo de Sevilha, da exuberância da sua luz e das suas tradições. Como a compreendo: Sevilha tem feitiço!

A casa desenvolve-se à volta de um pátio de honra, segundo a tradição mourisca e sobre ele abrem-se os mais diversos cómodos do rés-do-chão, os únicos visíveis ao olhar do público, já que todo o primeiro andar se mantém residência privada. Se o próprio pátio exibe azulejos e cerâmica de Triana e tapeçarias flamengas dos séculos XVII e XVIII, muitas são as peças valiosas que recheiam a capela, a biblioteca e os salões. De realçar na biblioteca, onde edições raras vestem as estantes, um autógrafo de Dali lado a lado com um desenho seu de Quixote de Cervantes. Aliás, ao longo dos anos, o Palácio de Las Dueñas tem albergado visitantes reais e ilustres, como Alfonso XIII, Jorge VI de Inglaterra, Eugénia de Montijo (mulher de Napoleão III), Eduardo VIII, Rainier do Mónaco, Grace Kelly (sendo porém a duquesa de Alba a aristocrata com mais títulos do Mundo, mais de quarenta), Mário Vargas Llosa, Montserrat Caballé…
Entre muitas curiosidades que o palácio, igualmente, exibe é de notar a sala cujas paredes estão forradas de cartazes tauromáquicos e outros relativos à mítica feira anual. Arte (a própria pintava), touros e flamenco eram grandes paixões de Cayetana, todas elas também ligadas à “sua” Sevilha: “Não me canso de agradecer a Sevilha, a cidade mais maravilhosa do mundo, pela qual me apaixonei no momento em que a conheci, sentimento que cresce a cada dia que passa. Muitas vezes sinto a nostalgia das suas ruas, dos seus jardins, dos seus recantos, mas esse é estado de alma que passa quando o Inverno dá lugar à exuberância da Primavera e devolve a cidade aos sevilhanos para a viverem em momentos únicos e intensos como o da sua Semana mágica e Santa”.

Olha Cristina, como ela teria gostado de nos conhecer! Já te estou a ver
a bailar, a bailar… olé!

 

 

África e suas paixões

Não me canso de voltar a Évora e sempre pelas mesmas razões: a beleza do seu património e a simpatia dos de lá. Já muito conheço entre museus, igrejas, espaços verdes e floridos e até restaurantes, já que ali também se cumpre, com galhardia, o património culinário alentejano, mas muito haverá ainda para eu descobrir em próximas idas.

Desta regressei uma vez mais ao Palácio Cadaval, berço e propriedade da família dos Duques de Cadaval, há mais de seiscentos anos, já que por vontade de Diana do Cadaval, a actual duquesa, a casa aberta aos da cidade e aos que vêm de fora, tem conseguido ser um muito interessante e activo polo de dinamização cultural.

O actual convite que se mantém até finais de Setembro, prolongada que é a iniciativa por mais um mês além do anunciado, dada a sua importância e êxito alcançados, tem a ver com o que o Palácio exibe de pintura e fotografias africanas. São paixões de um continente, para muitos “o futuro do mundo”, aqui por vezes a romper com os critérios do que se entende como arte. Os artistas, dos melhores do continente subsariano, que as agora garridas paredes do palácio exibem, mostram orgulhosamente, independentemente da sua contemporaneidade, de onde vêm, da terra da luz, das crenças, das superstições, terra feitiçeira e misteriosa, mas cada obra traz-nos igualmente mundos interiores, sonhos, vivências e formações académicas ou de rua. São as verdades, ou utopias, de cada um em pinceladas de cor.

À pintura, à fotografia, junta-se a música, expressão visceral de um povo que nela se liberta e assim temos o festival completo.

Alexandra do Cadaval, irmã de Diana, é a filha mais nova de Jaime Álvares Pereira de Melo, 10 duque de Cadaval, e de sua segunda mulher Claudine (a encantadora e divertida Claudine, que tantas histórias tem para nos contar) e assume uma vez mais a direcção do festival, este ano particularmente na sequência de todo um trabalho que tem desenvolvido em África, no âmbito humanitário e cultural.

Apaixonada que é pela preservação cultural de pequenas comunidades, fez-se ao Mundo “abandonando” aquilo que seria uma vida de garantido conforto.

“Tentamos preservar o património cultural imaterial e intervimos no campo humanitário quando as comunidades estão muito fragilizadas. Acho que é a minha vocação. Não foi uma escolha. É um caminho que me vem do coração” – É a própria quem o diz!

E é com o coração que volta sempre à casa, berço da família, para partilhar com os outros o que só a Arte nos pode dar. Enquanto (per)durar a fruição, aquelas obras também são minhas!

www.palaciocadaval.com

Até finais de Setembro!

Quem precisa de quem?

Com o aparecimento das redes sociais não há dúvida que os papéis se inverteram. Hoje são as pessoas conhecidas e estimadas por centenas ou milhares de fãs que, através das suas plataformas digitais, fazem a sua própria notícia, dando a conhecer o que bem entendem da sua vida profissional e/ou pessoal e são as revistas e jornais (os que se interessam por essas figuras, evidentemente) que andam a reboque do que é partilhado nos respectivos Facebook, Instagram, blogues, entre outros produtos digitais, alimentando assim páginas inteiras das suas publicações em papel, e notícias nas suas próprias plataformas.
Hoje mais do que nunca impõe-se a questão: “quem precisa de quem?”.
Falo por mim: se o meu mural no Facebook (Manuel Luis Goucha – TVI) é, acima de tudo, uma verdadeira ferramenta de trabalho de apoio ao programa que apresento diariamente na TVI, para divulgação de conteúdos e tomada de conhecimento de muitos assuntos passíveis de serem levados à antena, este meu blogue existe porque gosto de escrever e de partilhar opiniões sobre o que aprecio, o que vejo, o que sinto, o que faz sentido na minha vida. Por isso a maior parte das minhas publicações terá a ver com viagens, espectáculos, livros, exposições, casas com história, memórias … entre muitos outros estados de encantamento, nele cabendo também as receitas cá de casa ou a descoberta de um bom vinho, entre outros prazeres mais prosaicos mas que igualmente fazem o que homem que sou! Já no Instagram, procuro justificar o gosto autodidacta que tenho pela Fotografia. É ver-me sempre de máquina em riste à procura de um outro olhar, de uma outra perspectiva, por vezes a vontade de eternizar o que não é repetível!!
Confesso que ao alimentar, por prazer, o meu blogue e Instagram, com alguma regularidade, num exercício de sincera partilha com quem me segue e muitos milhares serão conforme é visível pelo número de gostos, comentários e visualizações, esqueço-me que estou igualmente a alimentar quantos vasculham as redes sociais das figuras conhecidas em muitas casos à procura de “lenha” para as “chamuscar” ou ridicularizar. Basta adulterar o sentido do que é partilhado, descontextualizando afirmações ou redescrevendo um texto.
Tomemos por exemplo a notícia publicada ontem no sítio da revista “Nova Gente” sobre as minhas actuais férias que têm decorrido no sul do país, redigida a partir do que tenho mostrado nas minhas redes sociais.

Vamos por partes:
“Manuel Luis Goucha e Rui Oliveira escolheram o refúgio do Monte de Monforte para fazer férias”
– por certo quem escreveu sabe que no Alentejo dá-se a designação de “monte” à casa da herdade, por muito grande ou pequena que esta seja, não se tratando neste caso de uma unidade de turismo rural onde me tenha hospedado e tantas há, magníficas, por esse Alentejo fora, mas sim do monte da Herdade da Pesqueirinha, a nossa herdade no concelho de Monforte. A ser assim, nada a dizer!
Já o parágrafo seguinte denota canhastrice ou ignorância:
“Os dois andaram de caiaque insuflável junto à baragem de Fronteira e fizeram ainda um piquenique nas margens deste rio”.
  • Comecemos pela palavra barragem que leva dois erres, mas admito que tenha sido apenas uma gralha gulosa, agora que seja a barragem de Fronteira!!! Desconhece quem escreve que muitas herdades terão a sua própria barragem, como presa de águas de nascente e da chuva, e outras terão charcas. Neste caso piquenicámos, sim senhor, nas margens do lago e não de um rio, da barragem da nossa herdade.
Conclui a notícia:
“Já em terra firme os dois pombinhos regaram a refeição com um branco fresquinho de Terras de Alter e comeram uma piza congelada!”
– Saboreámos sim um branco fresquinho da adega “Terras de Alter” que tem sede em Fronteira, mas o que não suporto é a graçola dos “dois pombinhos”! Também a revista VIP resolveu dizer, fazendo o mesmo exercício de rapinagem, que andávamos em “lua de mel”. Ó senhores deixem-se de mariquices ridículas que aqui o que vêem são dois homens que, sim, vivem juntos há vinte anos porque gostam um do outro e nada mais! Tão natural e uns quantos manhosos a quererem torná-lo anormalmente grotesco, para que depois venham os néscios do costume bolsar ódios e frustrações. Nada é inocente!
No topo da notícia do site convida-se o leitor à assinatura da revista, pressuponho que na sua versão digital. Para quê? – pergunto eu, se hoje em dia basta procurar nas redes sociais, das figuras que se apreciam, aquilo que nos interessa saber, de forma credível e com um maior alcance. Por mim falo, quantas tiragens de uma revista serão necessárias para atingir um milhão de pessoas (tantas as que tenho, orgulhosamente, por exemplo, no meu Facebook!)? Afinal e voltando à questão: “quem precisa de quem?”. Felizmente que jornalismo ainda é outra coisa!

Salada de massa e frango

Uma salada fria para os dias quentes. O segredo está no molho.

Ingredientes:
massa fusilli cozida em água temperada de sal, bem escorrida e arrefecida
peito de frango previamente cozinhado e fatiado (podem ser sobras)
alcaparras
folhas de rúcula
tomate limpo de sementes e cortado em tiras ou quartos

para o molho:
1/2 copo pequeno de azeite
metade da quantidade de azeite de vinagre
metade da quantidade de azeite de água
2 colheres (sopa) de maionese
1 colher(sopa) de mostarda
10 filetes de anchova
1 ovo inteiro
folhas de coentros
sal (se necessário) e pimenta preta moída na altura

Disponha os ingredientes indicados para a salada numa saladeira.
Para preparar o molho basta colocar os ingredientes indicados no copo da sua liquidificadora e misturá-los bem.
Tempere o molho de pimenta preta moída na altura. Uma vez que os filetes de anchova são salgados, por certo não será necessário mais tempero de sal. Se achar que não está ao seu gosto, rectifique então o tempero de sal.
Deite o molho na saladeira e, cuidadosamente, misture com os ingredientes. Se sobrar molho, guarde-o num frasco bem fechado dentro do frigorífico para posterior uso.

Na terra dos porcos

Há sempre uma história ou estória (quando não provada, o que parece ser o caso)para justificar um nome, um dito, uma designação, o que seja! Então eu que gosto sempre de saber o porquê das coisas! Quando se fala de Arronches diz-se muitas vezes ser “a terra dos porcos”, já o tinha escutado ao próprio do Gonçalo (dos Câmara Pereira) que ali vive a maior parte do tempo e até penso que foi ele quem me explicou que em tempos idos os arronchenses tinham por hábito, logo pela manhã, abrir a porta das pocilgas para que os animais fossem para o campo e certo era que pela tardinha todos eles voltavam, cada um ao seu chiqueiro. Não havendo família que não tivesse pelo menos o seu reco, para sustento da casa, já que dele tudo se aproveita, está bom de perceber porque é que a vila é, ainda hoje, assim conhecida!

Mal parecia era que eu não a conhecesse a trinta quilómetros que sou dela, quando por este chão me quedo! Foi desta e comecei pelo almoço na “Estalagem”, casa de bons e autênticos comeres onde antes do justo Abril era sítio de pernoita para viajantes e seus animais (cá está, daí o nome!). Há objectos da lavoura e chocalhos decorando as paredes e evocando tempos de míngua e outros tormentos.

Provei do generoso e refrescante gaspacho, tal qual se levava para o campo, com tomate, cebola, pepino e pimento, tudo migadinho, fio de azeite, golpe de vinagre e o mais de água, para a seguir ficar-me pelo lacão, que é parte do pernil, assado no forno, tudo acompanhado por um “Vinha das Romãs” do “Monte da Ravasqueira, um tinto de grande qualidade, dos pesados dizem os que não apreciam tanto, quanto eu, estes alentejanos de se mastigar!

Dali, bem atestado, fui alimentar o espírito, sempre mais faminto que o estômago, na Matriz da vila, consagrada à Senhora da Assunção, imagem que o retábulo-mor em talha dourada exibe ao centro. Notei no portal junto à torre sineira uma curiosa expressão gravada na pedra: “paraíso para sempre, inferno para sempre”, a carecer explicação (fica para uma próxima, quem sabe em conversa com o senhor padre). No coro alto podem-se contemplar dezenas de peças sacras, a maior parte do século XVIII, entre imagens de roca, missais e bandeiras processionais. Não falta sequer um modelador de hóstias, menos santificado por certo mas não menos curioso. Parece que o espólio durante anos esteve para ali disperso e ao abandono, pelo que urgiu o seu restauro, avaliação e estudo , dizem-me que muito por vontade da autarquia (abençoada!) que isto, quando toca a entrar em despesas, não vai lá com ladainhas!

Na hora de voltar ao monte, senti, como sempre, a simpatia dos da terra entre sorrisos e acenos. Como a das senhoras “guardiãs” da Igreja, enternecedoramente vaidosas pelo que zelam e partilham. Fazem duas horas de manhã e outro tanto à tarde, e mais senhoras há que igualmente se voluntariam para diferentes dias da semana, que a Igreja é para ser mostrada a quantos vêm à vila. “E olhe que há muitos turistas, sobretudo espanhóis!”.

Em Arronches só o nome é que arranha, a vila é bonita, de ruas alvas, limpas e floridas, de gente simpática e prestável, e com vários motivos de interesse, não falta até um inesperado “Museu de (a) Brincar” que tenho em breve de visitar.

De regresso a Monforte atravessei a linha do Leste, a mais antiga ferrovia portuguesa, não há muito tempo recuperada para o transporte de passageiros em todo o seu traçado, no preciso momento em que junto ao apeadeiro de Arronches, uma automotora retomava a sua marcha a caminho de Portalegre. Lembrei-me então de como me deslumbravam estas máquinas quando vinham da Lousã vomitando fumo, rasgando o Largo da Portagem na Coimbra da minha infância (pior sorte teve tal via com a vã promessa de um Metro do Mondego. Mas isso, são “outros quinhentos!”)

www.restauranteaestalagem.pt