Aquivos por Autor: admin

Uma pasta à maneira!


Hoje apetece-nos uma “pasta à carbonara”, faz-se com pouco e é deliciosa. Fazêmo-la ao nosso jeito, juntando-lhe uma colherzinha de mostarda de Dijon, mas no essencial seguimos os preceitos tal qual a receita original. E nada de natas, como alguns pensam, que o molho e maciez são-lhe dadas pelas gemas e apenas isso.

Tem-se bacon, comprámo-lo de porco preto e sem aditivos (é importante, por isso leia sempre os rótulos) e corta-se em cubinhos. Picam-se duas chalotas (não tem? Faça com cebola) e 2 dentes de alho. Pica-se salsa a gosto. Cá no monte temo-la da frisada, por isso foi a que usámos. Separámos ainda seis gemas e misturámo-las bem. Por fim é o queijo que se quer do Parmesão e ralado na hora.

Agora vamos à preparação da receita:

Numa panela põe-se água a ferver com um pouquinho de sal e um fio de azeite. Quando a água começar a ferver em cachão junta-se o esparguete (cem gramas por pessoa e sem o partir).

Enquanto a massa coze, levamos ao lume uma frigideira funda com os cubinhos de bacon para dourarem bem na sua própria gordura. Só depois do bacon bem dourado é que se juntam chalotas e alho picados. Deixa-se cozinhar. Junta-se a mostarda e mexe-se.

Uma vez a massa cozida “al dente” é escorrida e junta-se esta na frigideira do bacon. Mistura-se bem para que a massa ganhe o gosto do bacon, chalota e alho. Junta-se um pouquinho da água quente da cozedura da massa às gemas, mexendo sempre.

Deitam-se as gemas assim diluídas na frigideira, já fora do lume mas ainda bem quente, sobre a massa e mexe-se bem, com cuidado e movimentos envolventes. O bacon é salgado, por isso é só verificar se precisa de mais uma pitada.

Juntámos salsa picada e servimos com bastante queijo parmesão ralado.

Uma salada de atum diferente!

Sempre achei que batatas com atum de conserva e ovo cozido era uma opção de recurso, quando falta o tempo ou a imaginação. Com as temperaturas que esta semana têm-se feito sentir cá pelo Alentejo já nos apetece refeições mais ligeiras, nomeadamente saladas e se o Rui as faz caprichadas. Esta por exemplo parte justamente da receita banal de atum e enriquece-a de tal maneira que quase a comemos por gulodice. Um dos segredos consiste em cortar tudo miudinho, para que também visualmente seja um prato agradável.

As batatas devem ser cozidas com pele e depois de peladas é cortá-las em cubinhos. Os ovos cozidos são de codorniz. Na saladeira onde tudo vamos misturar, acrescentámos, às batatas e ovos cozidos, o atum de duas latas de conserva, devidamente escorrido de azeite, uma mancheia de alcaparras, pickles cortados miudamente, tiras finas de tomate fresco e de pimento verde e amarelo, azeitonas pretas descaroçadas e cortadas e dois dentes de alho e coentros frescos picadinhos.

À parte, preparou-se o molho, misturando maionese com um fio de azeite, mostarda de Dijon e pimenta preta moída na altura. Deita-se o molho na saladeira e mistura-se tudo delicadamente. As dosagens dos ingredientes fica um pouco ao gosto de cada um. Esta salada de atum tanto pode ser servida tépida como fria. É deliciosa!

Acompanhámos esta salada com um riesling da Herdade do Arrepiado Velho, de Sousel. Cá no monte só bebemos vinhos alentejanos!.

Cozido num croquete!

Ledor regular das revistas “Sábado” e “Visão”, encontrei na primeira um saboroso artigo sobre croquetes, da autoria de Catarina Moura e Filipa Teixeira e, pelo que se lê, meteram mesmo dente a uma data deles para opinarem, com conhecimento, sobre onde encontrar os melhores de Lisboa. Tarefa hercúlea que isto já se sabe cada casa de comer(es) puxará brasa ao seu croquete, “o meu é melhor que o teu!”, independentemente do que de básico se espera do lambisco: um cremoso e saboroso recheio devidamente panado.

Confesso que o croquete faz partes das melhores memórias do meu paladar, babava só de os saber à mesa do jantar sempre que visitávamos a tia Manuela (só por si a merecer um escrito, de tão original que era) se bem que únicos mesmo fossem os seus pastéis de massa tenra, nunca voltei a comer iguais. Dos que conheço e no artigo são referidos assumo particular agrado pelos do “Gambrinus”, saboreados ao balcão como petisco, mas o que me leva desta a escrevinhar são os que, nem de propósito, comi no “Alecrim” de Estremoz um dia antes de ler a matéria. Já os havia provado e mais do que uma vez, que sempre que ali vou faço questão de os incluir no pedido dos petiscos para partilhar entre amigos. Tão agradável conceito preside também ao “Gadanha”, outro restaurante estremocense de que sou agradado cliente, por sinal de um irmão do proprietário do “Alecrim” e já agora não se deixe fora da prosa, um outro, de outro mano, ali perto em São Lourenço de Mamporcão, a “Tasca do Zézadas”. Cada um com o seu, todos diferentes, de inegável qualidade.

Mas voltemos aos croquetes, que têm estes de especial? – perguntar-me-á. Têm o facto de esconderem no recheio os sabores do cozido à nossa maneira. Ao abrir a capa estaladiça por tão franca fritura vai encontrar as carnes do cozido em fiapos, pedacinhos do fumeiro, cenoura, nabo e até de couve, numa mistura suculenta e muito apaladada. Não, não são feitos de sobras, que não há cozido na ementa, tudo é cozinhado como se fora para o prato, à portuguesa (dizemos nós, se bem que os franceses também o tenham, o “pot-au-feu”, ainda que com um ou outro ingrediente diferente, como a feijoca, e os espanhóis idem idem com a sua “olla podrida”), mas sim com vista à feitura dos croquetes.

Quando vier a Estremoz almoce no “Alecrim”, peça os croquetes de cozido e depois diga-me se não são de comer e chorar por mais!

www.alecrim.pt

www.merceariagadanha.pt

O Hotel em Ascot

Não, não vim às corridas, como alguém vaticinou por me saber em Ascot, essas que são notícia e chamam ao hipódromo a Família Real e as elites britânica e de todo o Mundo são em Junho, mas não é que não tenha ficado a pensar nessa eventualidade, ainda por cima já tendo casaca e chapéu alto para assim obedecer ao código de vestuário exigido.

Decidi por aqui ficar, dada a proximidade de Windsor, que queria visitar com calma, e estar apenas a uma hora de Highclere Castle, outro dos objectivos para este meu primeiro período de férias. Escolhi o Coworth Park Hotel e em boa hora o fiz, que a unidade é toda ela de grande excelência, pelas condições e ambiente que oferece e pela atenciosidade com que todos nos tratam. A temática do cavalo domina a decoração, através das esculturas, outras há diferentes espalhadas pela imensa propriedade, das pinturas e fotografias que decoram salões, suites e quartos.

A suite que escolhi fica na ala dos antigos estábulos convertida em acomodações de várias tipologias, pensadas com todo o encanto e conforto. Dos três espaços que a compõem destaca-se a casa de banho dominada ao centro por duas banheiras folheadas a cobre. “ Cada um com a sua!”- foi o que disse quando ali entrei pela primeira vez. Meu dito meu feito!

São várias as alternativas para refeições, de entre as quais o “The Barn” para almoços e jantares mais descontraídos, onde não falta o tradicional “fish &chips” (confesso que não “apadrinho” tal mancebia) e o restaurante com estrela Michelin, onde provei um menu de degustação criativo, delicado, sofisticado, equilibrado… numa palavra: perfeito.

O mais são 240 hectares de campo a perder de vista. “É lindo e muito calmo” diz-me o André, português, a trabalhar ali há um ano, ainda acrescentando tratar-se do único hotel em todo o Reino Unido que possui um campo de polo a cavalo e por isso, independentemente da realeza o frequentar aquando das corridas, ser tão do agrado do príncipe Harry, pelo menos antes de se casar com a americana.

Gosto do que o inverno prodigaliza (uma certa nudez e crueza), por isso aproveitei as passeatas para tudo registar e agora partilhar.

www.dorchestercollection.com

Na casa dos Crawley

Quando, há uns meses, percebi que poderia visitar a casa que serviu de cenário à maior parte das cenas de “Downton Abbey” não hesitei, logo agendei o primeiro período de férias deste novo ano de modo a que coincidisse com uma das datas que tal mo permitisse, já que nem todos os dias a casa se abre ao público e mesmo assim só grupos pequenos, divididos em dois turnos, um de manhã e outro ao começo da tarde. O preço do bilhete já será em parte selectivo (120 libras por pessoa), porém não impeditivo para quem fanaticamente, como eu, seguiu toda a série, ainda que com anos de atraso como pude confessar num outro escrito neste blogue, e mais recentemente o filme, o primeiro,que vim hoje a saber, no sítio certo, que já se está a preparar uma sequela.

Meia hora depois das dez abrem-se as pesadas portas de madeira para que entremos no gótico hall que dá acesso às principais salas, as de aparato. Aconselha-se a que franqueemos os portões da propriedade um tempinho antes para que à hora certa a visita comece sem retardatários. Primeira emoção, a de percorrer um longo caminho, porém não tão longo como parece nas cenas da série, que isso é condão das objectivas, sei eu por via do meu ofício, até à imponente mansão vitoriana, como se fora Mr. Carson a caminho de mais uma jornada de trabalho.

Quem nos recebe junto à cénica escadaria em madeira maciça que dá acesso aos quartos é Lady Fiona, oitava Condessa de Carnarvon, por casamento com Lord Geordie Herbert, mostrando-se exultante pelo dia solarengo que se fazia sentir e pelo privilégio de ser a proprietária de tão romântico e cinematográfico local, na família do marido desde o século XVII. Não é de agora que a mansão é usada em filmagens, anteriormente já outras cenas aqui haviam sido registadas, como por exemplo algumas entre Tom Cruise e Nicole Kidman, no filme de Kubrick: “Eyes Wide Shut”, tampouco é novidade o facto de serem permitidas as visitas, tal acontecia já anteriormente à exibição de”Downton Abbey”, mas nada que tenha a ver com o impacto conseguido, a todos níveis, pela série. Lady Fiona sabe dos custos de manutenção da mansão que ultrapassam o milhão e meio de euros por ano mas também sabe que depois da série, e mais do filme, a casa virou uma máquina de fazer dinheiro, por isso desdobra-se entre a escrita do seu blogue (www.ladycarnarvon.com), livros de receitas, biografias de algumas das mais destacadas protagonistas da família, como Lady Almina, bisavó do seu marido ou Lady Catherine, mulher do sexto conde, para além de anfitriar, como verdadeira castelã, quantos ali vão à procura da casa dos Crawley.

Na biblioteca forrada a ouro parece que estou a ver a família reunida junto à lareira. Na sala de refeições imagino a mesa aperaltada para um jantar cheio de “ não me toques”, dominado pelo irresistível sarcasmo de Lady Violet, sob a supervisão do irrepreensível Carson e de Carlos I, lá do alto, na pintura de Van Dyck’s. É ali que quem nos guia, que não a condessa que a esta hora já está a cuidar das quiches, das sopas caseiras, e de tudo o mais que se oferece no pequeno restaurante à saída, nos informa da loucura que foi ver anos a fio a casa transformada em “set “de filmagens, particularmente duras as que ali se passavam entre pequenos-almoços, e chamá-los assim é menorizá-los sabendo-os como são à inglesa e mais a mais nas classes dominantes, tal o apuro da reconstituição histórica, e refeições de algum aparato, com “takes” repetidos vezes sem conta ou por causa do plano, ou por causa da luz, ou porque da próxima se consegue melhor… (fácil de imaginar para quem é do meio). Igualmente nos foi dizendo que muito houve que foi feito em estúdio como alguns dos quartos e, tudo o que era “downstairs”: cozinhas,refeitório do pessoal…

Cá fora perco-me no imenso verde, viçoso da chuva e da humidade, procurando que o olhar capte todos os pormenores e os registe na alma. Ia jurar ter visto Lord Robert e Lady Cora ali a meu lado num dos seus cúmplices e devotados passeios…

Foi um dia perfeito! Entre a realidade e a ficção… da imaginação.

Uma vez mais o capote alentejano fez sucesso. Entre os demais visitantes levantou olhares de estranheza, o gabo ficou por conta da dona da casa. Lady Fiona ao passar pelo Rui soltou qualquer do género: “você está fabuloso!”. Eu que levava uma samarra, também ela alentejana, passei logo a figurante.

À terceira foi de vez!

A primeira vez que fui a Windsor foi de passagem, para almoço e umas voltinhas sem destino, antes da viagem de regresso de uma estada de vários dias em Londres. A capital, a que volto sempre com o fascínio de quem quer ver musicais, bailado, ópera, exposições…. tão vibrante e rica é a oferta, consome todos os dias livres, por isso pouco ou nada conheço do resto do Reino, excepção feita a Edimburgo, na Escócia. Já então tinha achado a cidadezinha encantadora tendo logo decidido que a ela haveria de tornar com tempo, mais a mais a “meia dúzia de quilómetros” do aeroporto de Heathrow. Há cerca de dois anos tive tal oportunidade mas na maior das confusões. Aqui era então em trabalho e pouco lazer, para acompanhar, junto com a Judite de Sousa, o casamento de Harry e Meghan. Fiquei às portas do Castelo, bem como os demais profissionais das televisões de todo o mundo que tal como nós cobriram o evento, “esbarrei” em multidões eufóricas com o enlace, na apertada e necessária segurança que o acontecimento exigia e de Windsor ainda vi menos que da primeira vez. À terceira é que é, pensei antes mesmo de tudo marcar, que o faço sempre com grande antecedência, e do novo coronavírus começar a chatear. Já tinha perdido o fim de semana passado em Milão, com bilhetes comprados para o La Scalla, para assistir ao “Rigoletto” de Verdi, não ia agora anular também estes dias, no campo e sem ida que fosse à capital.

Foi desta que entrei no Castelo de Windsor , relho de mil anos, tão importante na história do Reino, que tudo começou como fortaleza ao tempo de Guilherme, o Conquistador, e tão do agrado da rainha Isabel II. Diz-se que esta é a sua residência real preferida, por isso aqui passa a maior parte dos fins de semana, e mesmo temporadas, ali por volta das corridas de Ascot, sabê-lo é fácil basta que o estandarte real esteja no mastro. Finalmente tive oportunidade de entrar na Capela consagrada a São Jorge, padroeiro do país, palco de casamentos reais, das cerimónias da Ordem da Jarreteira, a mais antiga distinção britânica de cavalaria, e onde jazem dez dos seus soberanos, nomeadamente Henrique, oitavo do seu nome, segundo monarca inglês pela casa Tudor, célebre pelo número de mulheres com quem casou, seis, pela frieza com que as despachava quando delas se cansava (Ana Bolena e Catarina Howard perderam a cabeça, literalmente) e pela cisão que provocou na Igreja de Roma, por Clemente VII não lhe anular o casamento com Catarina de Aragão, dando origem à Igreja Angelicana. Também ali estão sepultados os avós e pais da actual rainha. Dali passei às salas de aparato, triunfantes de tanto ouro, e ainda há que espreitar a impressionante casa de bonecas da rainha Mary, avó de Isabel II, prova do seu particular gosto pelas artes em miniatura. O dia apresentou-se frio como eu gosto, molhado, de chuva molha-todos, e melhor ainda foi o facto de praticamente não haver visitantes no Castelo.

Vantagens de viajar ainda no Inverno.

Mais do que roupa!

A Célia é uma amiga, nada tem a ver com a televisão quando muito tem o seu marido, Ângelo Ferreira, por via de ser um notável, apaixonado e cuidadoso cirurgião, a quem devo a vida por duas vezes. Salvo raras excepções que cabem numa palma da mão, e ainda sobram dedos, os amigos cá de casa nada têm a ver com o meu ofício, esses são colegas e se por muitos tenho grande estima e respeito por outros nem por isso. Mas voltemos à Célia, e deixemo-nos de (in)directas, divertida, desconcertante e empreendedora tem no design de moda uma grande paixão pelo que junto com a Adelaide, que agradado vim agora a conhecer, sócia e companheira de formação, criaram recentemente uma nova marca de básicos e acessórios para uma mulher moderna, criativa, original e empoderada. Isto de ser amigo pode enviesar a opinião pelo que na semana passada, de visita ao atelier de ambas, fiz-me acompanhar pela Catarina Vasques Rito, outra amiga e professora de design e moda e nesse âmbito também crítica sempre lúcida e impiedosa, quando tem de o ser.

A colecção Addit apresenta elegantes básicos em negro e em branco que eu diria funcionarem como tela ou base, prontos a receberem os diferentes e caprichados acessórios que vão compôr, completar e marcar pela diferença. Diz a Catarina, e o que ela diz escreve-se, que o trabalho da Adelaide e da Célia é indiscutivelmente uma proposta criativa, muito cuidada em termos de confecção. Fica a sugestão: entre nas redes sociais da marca ou, se andar por Lisboa, vá até ao Lx Factory, descubra o atelier e perceba com os seus próprios olhos o que acabei de partilhar.

www.addit.pt

Lx Factory
Edifício 1, piso 1
Lisboa

Olhos de água!


Fixei-me nos seus olhos aguados mal entrei na exposição de aguarelas que o Centro de Educação, Formação e Universidade Sénior de Monforte exibe. “Conheço a tristeza que há nestes olhos!” – diz Júlio Jorge autor de tão assombroso trabalho. Não que mo tenha dito de viva voz, mas porque quis saber de si, o que hoje em dia é fácil com a internet e as redes sociais. Entrei no seu mural de facebook e encontrei o que aqui partilho, retratos da sua gente, a de São Cristóvão, freguesia do Montemor alentejano. Em cada retrato claro que impressiona o domínio da técnica de aguarelar mas, acima de tudo, a sensibilidade e respeito com que nos conta vidas. Em cada ruga a solidão da planície, a dureza da jorna, a magreza do conduto. Mares de trigo, espigas de choro, mágoas plantadas. Em cada ruga, memória de uma miséria que dói, campos de humanidade, essa força tenaz de quem não cala e menos consente. Quero muito conhecer o artista, mas entretanto sei que aqueles olhos aguados vão morar no meu monte entre livros e desejos.

Um sábado diferente!


Combinámos às dez na Quinta da Regaleira, de todos apenas o Tiago conhecia o palácio e tudo o mais por via de ser fotógrafo e de ali ter feito casamentos, mais a Sofia Matos, se bem que no caso da advogada, também da pantalha, e senhora que tanto prezo, o passeio já tivesse sido há muitos anos. Incrível mesmo era saber que eu, vivendo, há vinte anos, a dez minutos de Sintra, nunca ali tinha estado, bem que tentei por diversas vezes mas em chegando perto e ao perceber “milhentos” visitantes desistia sempre, já que gosto de ver tudo nas “calmas” e sem confusões. Sábado às dez é perfeito e ainda tivemos sorte com o sol de inverno, éramos seis, que a grupeta ficou completa com a Maria, minha deliciosa companheira das manhãs, a Sandra, que também é Marisa mas detesta, nossa mui profissional editora, por quem nutro um afecto tumultuoso e especial, e o Pedro Lopes, que o ledor conhecerá por certo também das lidas televisivas, médico apaixonado e eficaz comunicador.

Por ali andámos três horas e mais tivéssemos antes do almoço, perdidos no verde e encantados com o delírio romântico de quem tudo criou nos antigos domínios da Viscondessa da Regaleira. Chamemos à escrita Luigi Manini (1848-1936), arquitecto e cenógrafo, nomeadamente no São Carlos, talvez também por isso a teatralidade de todo o conjunto, do palácio (“bolo de noiva”, para os sintrenses de então, de tão irreal que parecia ser) ao poço iniciático, passando por torres, lagos, e grutas artificiais, e mais os mestres escultores, canteiros e entalhadores que com ele haviam trabalhado no Palace Hotel do Buçaco, contratados por António Augusto Carvalho Monteiro, filho de pais portugueses, carioca de nascimento, licenciado em leis pela Universidade de Coimbra e com interesses vários, da entomologia à obra camoniana. Monteiro dos Milhões, assim era conhecido, pela fortuna herdada e consolidada pelo comércio de cafés e pedras preciosas. Terei de voltar outras vezes, como que a querer tirar-me da realidade, para entrar num universo prodigioso de símbolos e metáforas.

Dali fomos almoçar ao “Solar dos Duques”, em Campo de Ourique, um dos melhores bairros da cidade, por nele tudo se encontrar, nem de propósito que o senhor da Regaleira, lembrei-me agora enquanto escrevinho, tem jazigo ali nos Prazeres, dizem que até parece retirado da Quinta de Sintra tal a sua monumentalidade (será coisa para ver uma tarde destas). Também foi a minha primeira vez enquanto comensal e bem agradado fiquei pela cozinha de conforto feita com esmero e verdade. A Sofia foi nas iscas de vitela, cliente fiel que é do restaurante e da receita, já eu e a Maria optámos pelos carapauzinhos fritos, daqueles que tudo se come da cabeça ao rabo, com arroz de tomate a fugir do prato, que é como eu gosto. Tudo regado com um branco do Douro, fresco e cítrico.

O dia terminaria no Teatro da Trindade, ouro sobre azul, magnífica sala à italiana com mais de 150 anos, para ver “Chicago”, o musical. À entrada percebo a presença do Tito, simpático fotógrafo do grupo Impala, ali feito “paparazzo”. Estava de escala ontem e sabia-se que íamos ao Teatro, pelos vistos dissemos no ar quando segunda-feira passada conversámos no programa com a Soraia Tavares, uma das protagonistas. Ficou contente por termos optado pela matiné, é que senão lá teria de voltar ao Teatro à noite a ver se nos apanhava, e até eu lhe tirei uma foto. Do espectáculo o melhor que posso dizer é que não o pode perder. Já tinha visto este musical em Londres, há uns bons anos, mas foi como se fosse uma primeira vez, tal o empolgamento. Já que conhecia a trama, fixei-me na excelência de todo um elenco: eles cantam, dançam, representam com um talento e uma entrega notáveis, sob a direcção de um homem maior da cultura teatral em Portugal: Diogo Infante.

Regressei a Fontanelas, à hora do jantar, de alma cheia e a querer mais dias assim.

www.regaleira.pt
restaurante Solar dos Duques
Rua Almeida e Sousa, 58
Lisboa
tel. 21 387 2674

Bichos a monte!

Basta não ir durante três semanas ao monte para ter muitas surpresas agradáveis. Borregos são para aí uns setenta que, entretanto, nasceram, ontem mesmo houve uma ovelha que pariu e é sempre emocionante de se ver. Os poldros crescem a olhos vistos, o Portucale até já se acha garanhão e começa a entusiasmar-se com a Gardunha. Vai ter de ser apartado! E se uma gansa já está no ninho, há dias, chocando sete ovos, sempre com o seu macho por perto, uma outra botou ontem o seu primeiro, pelo que a família de seis vai virar numerosa p’ra aí daqui a um mês. Lá anda a Pesqueirinha, a gata, dando conta de tudo no meio da demais bicharada, não importa o tamanho, mas no comando mesmo só a Azeitona e o Poejo, adoráveis Rafeiros, sobretudo à noite, que é quando verdadeiramente assumem o seu instintivo papel de guarda. Não há estranheza que lhes escape. Que bem que se está no campo!