Aquivos por Autor: admin

Mudar de Vida

Foi o que fez a Margarida Breia há dois anos, quando deixou de ser farmacêutica para abrir um restaurante onde a partilha é a palavra de ordem. O conceito vem da educação que os pais lhe deram e sempre se cumpriu à mesa entre os da casa e quem chegava por bem. O pai, professor de educação física e a morar na mesma rua, está sempre disponível para ajudar no que for necessário; a mãe, psicóloga, tem dedo para a decoração e assim ajudou a vestir o restaurante com bom gosto e de um jeito aconchegante, tal como se fora a casa dos avós, portuguesa com certeza, e a cheirar a bolo e ternura; o irmão, nem de propósito, é chef e por isso tinha mais era que “meter o bedelho” dando sugestões para a ementa. E o resultado não podia ser mais agradável, ainda por cima estando nós decididos (éramos quatro) a tapear, independentemente das propostas vegetarianas, de peixe e de carne que a carta exibe. Fomos então no tártaro de salmão, nos ovos mexidos com farinheira e maçã verde, nos estaladiços de alheira e grelos, no tataki de novilho, no queijo de cabra gratinado e nos chips de batata doce. Tudo delicioso! E que dizer do atendimento? Que dá gosto, porque simpático e envolvente.

Sobre o restaurante havia lido um artigo na revista “Visão” que me tinha chamado a atenção, por isso desafiei dois elementos da minha equipa para me acompanharem e assim fazermos uma reportagem para ser vista em breve no “Você na Tv”, foi quando percebi que já o conheciam de outras almoçaradas e que já se tinham rendido ao conceito e à qualidade da paparoca. Em boa hora fui e uma coisa é certa: é mesmo para voltar! Porque diferente, acolhedor e de qualidade. Quem diria, na Amadora!

Restaurante “O Quintal”
Rua Bernardim Ribeiro, 5 B
Amadora
Almoços e jantares todos os dias
21 493 03 80

“Nasci para ser gaivota!”

Há quem não lhes ache graça alguma sobretudo nas zonas ribeiras de alguns centros urbanos onde hoje em dia também nidificam, e lá terá as suas razões como essa de não conseguir descansar com o seu grasnar, já eu é das aves de que mais gosto, talvez por via de Luís Sepulveda e da sua “História de uma gaivota e do gato (Zorba) que a ensinou a voar”, um livro que li com emoção, e não propriamente pelo filme sensação de setenta “Fernão Capelo Gaivota”, a partir da obra de Richard Bach, que na altura até me fez chorar “baba e ranho” mas a esta distância não deixo de o considerar com uma espécie de fórmula pirosa de auto-ajuda, se bem que me agrade sempre quem vingue rompendo com o estabelecido, ao fim e ao cabo uma das mensagens da película.

A saída para o mar de Cascais na passada sexta-feira deu-me a oportunidade de as fotografar em pleno voo ou mesmo muito próximas de mim e este foi o resultado! E não é que são fotogénicas! Veja lá se gosta!

Ambrósio, apetece algo!

E se o que lhe apetece é peixe fresco, selvagem, tirado ao largo de Cascais, tanto faz que seja o Carlos ou o José a satisfazer o seu pedido, que um e outro respondem pelo mesmo apelido, são irmãos e têm idêntica paixão pelo mar. Tempos houve em que o Carlos foi agente da autoridade e o mano Zé funcionário do Instituto de Socorros a Náufragos, pescavam nas horas vagas por puro prazer e vontade de comer do melhor que do mar se tira. Mal sabiam então que esse haveria de ser o sustento de ambos, uma vez constituída a “Do mar para casa”, uma empresa familiar que nos traz o pescado, amanhado e até filetado se, assim, o quisermos, basta encomendar. Todos os dias, pela aurora, atiram as redes e armadilhas, cada um do seu barco, para mais tarde recolherem o que o mar lhes deu entre corvinas, douradas, robalos, linguados, cavalas, polvos…, é conforme a época, devolvendo-lhe o que não interessa pelo tamanho ou pela míngua de valor comercial, e lá voltam elas a ser lançadas para a pescaria do dia seguinte.

Aceitámos o desafio e acompanhámos a recolha das redes, entre ensinamentos, que os manos Ambrósio sabem da faina, dos ventos e das marés, como verdadeiros “lobos do mar”, e muita galhofa, de tão bem dispostos e amáveis que são. Não nos esqueçamos também do seu Jorge, que com eles trabalha, atento e diligente. Ficou prometida uma almoçarada daquelas que não têm hora para acabar, ali mesmo no cais, mas nos “entretantos” vim com rabetas (nome dado pelos pescadores às corvinas mais pequenas) para casa. Resultariam deliciosas pela fresquidão, pela suculência da sua carne e pela confecção. A receita segue depois das fotos, todas elas ilustrativas de uma tarde bem passada, que em breve partilharei consigo no “Você na TV”.

www.facebook.com/domarparacasa

  • para além das entregas ao domicílio, pode comprar o peixe fresco e selvagem, no Centro Comercial Riyadh – Av. Gaspar Corte Real, loja 17-1 piso. Cascais

Rabetas em papelote (só podia!)

2 rabetas (corvinas pequenas) devidamente amanhadas
1 cebola grande descascada e picada miudamente
4 dentes de alho descascados e picados miudamente
2 tomates frescos, sem pele nem sementes, cortados em cubinhos
5 filetes de anchova
1 cálice de vinho branco
vinagre de vinho
azeite
sal e pimenta fresca moída na altura
manjericão fresco picado

Pré-aqueça o seu forno a 180 graus.
Num tacho, aqueça um bom fio de azeite.
Junte a cebola, o alho e os filetes de anchova.
Deixe que a cebola e o alho dourem um pouco e o azeite ganhe sabor.
Refresque com o vinho branco e deixe ferver para que o álcool se evapore.
Junte o tomate e deixe cozinhar em lume brando, mexendo.
Quando o molho estiver apurado, junte um pouquinho de vinagre e o manjericão fresco picado. Retire do lume.
Tempere de sal (se achar necessário, dado os filetes de anchova já serem salgados) e pimenta.
Coloque cada peixe numa folha de papel de alumínio. Tempere com pouco sal.
Recheie o peixe com parte do molho de tomate e anchovas e distribua o restante sobre os peixes.
Feche os papelotes com cuidado, como que embrulhando cada peixe.
Coloque os papelotes num tabuleiro e leve ao forno por uns vinte e cinco minutos.
Acompanhe com legumes cozidos. Fizemo-lo com feijão verde e pimentos, cortados em juliana e cozinhados “al dente”, que é como eu gosto.

O primeiro dia de aulas!

Que pena não ter fotografias dos meus primeiros tempos de escola, não se usava tirar como hoje em dia, mas recordo-me do Jardim-Escola João de Deus, mesmo ao lado do Jardim Botânico, isto na Coimbra da minha infância apesar de me saber lisboeta e gostar, e da choradeira que foi o primeiro dia da pré-primária agarrado à saia cinzenta plissada da minha mãe com medo que ela ali me deixasse e não voltasse para me resgatar. Ela também não ficou melhor a contas com o remorso e não fosse o patrão tranquilizá-la, dizendo que era assim mesmo com todas as mães no primeiro dia de aulas dos seus filhos, e por certo teria ido buscar-me muito antes de concluída a manhã. Já as três primeiras classes foram feitas no Externato Feliciano de Castilho na Praça Velha, uma escola particular de duas irmãs, e ainda hoje conservo na memória a delicadeza e doçura da professora Maria do Céu, que vim a encontrar décadas mais tarde, já homem mais que feito, quando a Coimbra voltei para apresentar um “Praça da Alegria” em plena Praça 8 de Maio, junto à Igreja de Santa Cruz onde jazem Afonso I de Portugal e seu filho Sancho, nosso segundo rei da primeira dinastia (coisas que se aprendiam na primária e não mais se esqueciam). Pena foi que no último ano tivesse dado com os costados numa escola pública, não que o ensino fosse pior mas porque me saiu na rifa uma quezilenta professora, de carrapito no cocuruto e de óculos grossos, que nem fundo de garrafa, encavalitados numa penca verrucosa … acho que estou a exagerar mas é que ainda não consigo castigar, tantos anos depois, o ressentimento pelas palmadas que levei, com a menina dos cinco-olhos, verdadeiro objecto de tortura da escola salazarenta, sempre com a desculpa que era para me estimular a estudar ainda mais, logo eu que era dos “marrões”! Não esqueci o nome da megera, ironia das ironias, chamava-se Maria de Lourdes, assim escrito segundo a grafia antiga … tal qual o nome da minha mãe.

Deu-me para lembrar isto ontem, já que foi o primeiro dia de aulas para muita da criançada, e como não tenho foto da época que ilustre o escrevinhado optei por uma que tirei ontem de manhã no “Você na TV”, esse que é afinal o verdadeiro recreio da minha vida!

Fim de semana alucinante(?)

Alucinante pelas emoções e não por correrias ou sobressaltos, que há um tempo diferente nesta terra imensa e quente. As coisas fazem-se, claro que sim, mas pela fresca da alva ali até manhã alta, que é quando o sol já arde na pele, e depois a partir do meio da tarde até aquele se afundar no horizonte que é quando os campos são como que aspergidos de oiro.

No monte há sempre coisas a alterar ou a melhorar, agora substituiu-se a gravilha do chão por pavimento em pavê, por uma questão de praticidade e limpeza, assentá-lo é coisa trabalhosa e de minúcia, como quem rendilha, e fico horas a ver quem o faz, inspirado por saber na eficaz equipa dois homens de setenta, cheios de energia. Ganharam-se mais espaços para a contemplação e aqui entro eu em cena com o jeito que julgo ter para a decoração. Há que criar novas zonas de lazer, já tenho ideias, é “trabalho” para a próxima vinda, mas mesmo assim mudou-se o que estava, da cama, onde leio e modorro, vejo agora os campos e as águas mansas da barragem.

Chegou a gaivota que havia encomendado antes das férias de Agosto (não das minhas, que gosto desse mês para oficiar), não havia em estoque, que a queria com azul para não destoar do mais do monte, se bem que o amarelo proposto também tivesse a ver com as bordaduras do casario deste Alentejo do alto. Claro que houve passeata, a bom pedalar, com cantorias e um rosé fresquinho, de 2017, da adega Lima Mayer, que é aqui a dois passos. Apreciador que sou de bom vinho não podia ter melhor vizinhança, que por estas terras de Monforte não faltam opções vinícolas de excelência, entre brancos e rosés acídulos e frutados e tintos de mastigar.

É altura das ovelhas parirem, por aqui já começaram os nascimentos, três entre uns oitenta que estão previstos. É o milagre da Vida a que assisto sempre com espanto e alguma comoção. Também três das éguas estão cheias mas esses partos já só para o ano, quero é ver se não falho a estar presente nem que para isso meta férias.

Fizeram-se saladas para saciar o apetite, que é o que apetece, com temperaturas nos trinta enquanto o país a norte “metia água”, e desta nada de pão, quase pecado nestas terras, tamanha é a perdição. Variadas e gulosas como a de peito de pato que em breve aqui publicarei.

E passeou-se muito sempre acompanhados pela Azeitona, já guardadora do rebanho, e pela Pesqueirinha que, apesar de felina e completamente à solta na herdade, segue-nos por todo o lado.

É viver em estado permanente de deslumbre e contentamento. Ingrato não sou, por isso a cada aurora (e se aqui durmo bem!) agradeço à Vida!

Casas com história(s)

Foi D. Luis quem transformou Cascais também em vila da corte, ao instalar-se no Palácio da Cidadela, no último mês de Verão, ali ficando com Maria Pia de Sabóia e seus filhos, Outono dentro, até ao começo da temporada do São Carlos. Até então Cascais era dos homens da terra e do mar. O perfil da vila rapidamente se alteraria com a alta nobreza a construir ali as suas imponentes casas de veraneio, sendo a primeira a dos terceiros duques de Palmela, com um traçado fortemente influenciado pelas mansões rurais inglesas. Não nos chegam os dedos das mãos para contar as casas construídas em Cascais nessa época, algumas delas actualmente abertas ao público, entre as inspiradas pelos chalés suíços, as palacianas tão ao gosto francês, passando por algumas ditas ao estilo português.

Desta entrámos numa das mais imponentes, construída no início do século passado por vontade de Jorge O’Neill, homem dos tabacos, da finança, deputado da Nação, descendente da família real irlandesa e muito próximo da nossa Casa Real. Surpreende pelo seu traçado de fortaleza apalaçada e pela sua teatralidade, a que não será alheia a mão de Luigi Manini (italiano da Lombardia, arquitecto, é dele o projecto do Hotel Palácio do Buçaco, pintor e cenógrafo, tendo nesta qualidade trabalhado no teatro de São Carlos, a nossa casa maior da Ópera) e a sua própria localização numa pequena enseada banhada pelo Atlântico e que muitos hoje em dia aproveitam para praiar.

Em 1910, por dificuldades financeiras de Jorge O’Neill, o palácio acaba por ser vendido a um casal amigo, os Condes de Castro Guimarães que, após procederem a algumas alterações, passaram a habitá-lo grande parte do ano. Daí que o Palácio tenha sido munido de lareiras, que era coisa em que não se pensava quando a casa era apenas para veraneio. O bom gosto do casal refletiu-se na aquisição de peças de arte e mobiliário representativas de várias épocas, assim como o seu interesse pela cultura se fez sentir na compra de dois dos elementos mais significativos do acervo do atual museu: um órgão neo-gótico, construído de encomenda para o Conde e a biblioteca onde se destaca a valiosa Crónica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão.

Por não ter descendência, o Conde Castro Guimarães deixou, em testamento, a casa e a propriedade envolvente (onde se inclui a Capela de São Sebastião, consta que do século XVI e onde se destacam os azulejos, os mais antigos do século seguinte) ao Município de Cascais, para que nelas fosse constituída uma Casa-Museu e um Jardim Público (hoje Jardim Marechal Carmona).

O Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães foi oficialmente inaugurado a 12 de julho de 1931, tendo sido durante largos anos o único existente no concelho de Cascais. A propósito, um ano depois, Fernando Pessoa candidatou-se ao lugar de Conservador-Bibliotecário, por achar que a vila de Cascais lhe ofereceria um maior sossego e isolamento, ambos necessários para se dedicar à sua obra literária, porém não foi admitido.

Do outro lado da rua ergue-se a Casa de Santa Maria, que forma conjunto com o farol de Santa Marta, sendo uma das mais emblemáticas casas de Raul Lino e lá volta o nome Jorge O’Neill à baila já que foi ele quem a mandou construir para a sua filha Maria Teresa.

Na década de vinte a casa foi adquirida pela família Espírito Santo e por ali passaram visitantes ilustres como a grã-duquesa Carlota do Luxemburgo, os duques de Windsor, o rei Humberto II de Itália, os Condes de Barcelona entres outros, alguns deles exilados políticos na sequência da II Grande Guerra. Em 2004, em boa hora a Câmara de Cascais adquiriu a Casa de Santa Maria o que nos permite hoje visitá-la e admirar particularmente os seus magníficos azulejos do século XVII e o tecto de madeira pintado, atribuídos a António de Oliveira Bernardes, nome maior da pintura e da arte azulejar dos séculos XVII e XVIII.

Há muito para contar naquele que é o Bairro dos Museus da vila de Cascais, por isso se, tal como eu, gosta de casas com história(s) tem ali muito para ver e assim encher os olhos e a alma.

“Como é grande o meu amor por você!”…

Em momento algum me senti zangado, como li em alguns sítios, onde habitualmente se chocalha a mentira e a raiva. Ao saber, duas semanas antes da notícia cair no domínio público e da boca da própria, que a Cristina havia decidido não renovar contrato com a TVI, tendo optado por um novo desafio, senti que o inevitável acontecera: a dupla que melhores resultados conquistara nos últimos 14 anos nas audiências televisivas acabava. É que se eu fosse director de programas faria o mesmo: tentaria amputar a dupla ainda por cima sabendo que os contratos de um e de outro estariam a terminar. Já outros o haviam tentado anteriormente (escusam de negar) ainda que sem êxito. Foi desta! É assim o mercado de televisão… afinal como qualquer outro mercado competitivo. Compreendo quantos se sentem traídos (talvez por me ter acontecido o mesmo há 16 anos, quando saí da RTP) tal a ligação empática que, nestes programas de companhia, se estabelece entre quem apresenta e quem vê, é como se fôssemos da família, provavelmente os mesmos que perguntam agora: “onde fica a amizade?” – como se o afecto que nasceu no decorrer desta intensa relação profissional de tantos anos fosse tão frágil que não resistisse à mudança e a uma contratação, por muito mediatizada que seja, como é o caso por razões óbvias. O afecto cimentado na cumplicidade, no companheirismo e no entendimento que temos da nossa função é inquebrantável, como qualquer sentimento que seja sustentado pela coesão e pela verdade.

Claro que me faz falta a sua gargalhada escancarada logo pela manhã, o seu jeito de subverter, de desconstruir, o seu olhar vibrante de espanto … mas tê-los-ei sempre que quiser, basta um telefonema, um encontro para um almoço ou para um abraço. É o que fica e é tanto a deixar cicatrizes na memória!

A vida é isto, para cada um de nós, faz-se de mudança, de desafios. Que nos convocam, inquietam, põem à prova. Que fazer? Ficar quieto no nosso canto ou ir à luta? É voar e ser feliz! Não somos de nos acomodar, por isso o futuro, para um e outro, já começou!

Até já… meu amor!

Fotos: Gonçalo Claro

Requiem por uma pastelaria

Por quatro anos não completa o centenário, já que hoje fecha portas depois de um passado glorioso que fez dela uma das pastelarias mais emblemáticas da cidade.

“De volta ao Rossio sentei-me a um café, feliz da vida”, escrevia Jorge Amado, em 1957, na sua Crónica “A cidade proibida”, referindo-se à Suíça. Quantas figuras ilustres ali se terão sentado, do teatro, logo do “Nacional” de Amélia Rey-Colaco, que era a dois passos; do canto, até do lírico (Callas, a maior, por lá passou); do cinema (Orson Welles…); do jornalismo e outras letras; da política … Humberto Delgado ali tomou o pequeno-almoço antes da famosa reunião onde, sem medo, disse que a ser eleito Presidente da República obviamente demitiria Salazar!

Era o café preferido de quantos haviam fugido da Europa Central, aquando da Grande Guerra, sendo Lisboa um porto seguro antes seguirem viagem para outros destinos. A capital ia assim absorvendo outros hábitos, alguns não sem escândalo, como o das mulheres frequentarem a esplanada, a fumar.

Gostava do seu bife macio e de molhanga suculenta, isto quando ainda comia carne vermelha e a Suíça fazia jus aos seus créditos. Já não seria o que havia sido, entre remodelações, turistadas e até uma ou outra ocorrência mais azeda, mas este fecho de portas não deixa de entristecer. O quarteirão foi vendido e por muitos milhões, ali nascerá, dizem, que um hotel (mais um) superiormente estrelado, pena foi que a Suíça não tivesse resistido e assim se junte às mais cem de lojas com história que nos últimos anos têm encerrado. Outras haverá, infelizmente,a correr o mesmo risco … e assim se matam muitas das melhores memórias da cidade.

Vestes da liturgia

Dei com esta exposição por mero acaso se bem que andasse em Cascais pelo bairro dos Museus, em trabalho para o “Você na Tv”. E se não estava nos meus planos ali parar passou a estar, concluídas as gravações anteriormente agendadas. É que gosto de paramentos, sempre gostei, como elemento essencial da estética da liturgia. Estes resultam do espírito coleccionador do antiquário Duarte Pinto Coelho, falecido em 2010. Colecionou barros malaguenhos, vidros da China, porcelanas asiáticas, esculturas, louças das Caldas e têxteis entre tantas outras obras de Arte. E é na área dos têxteis que vamos encontrar dezenas de peças de vestuário eclesiástico, entre alvas, casulas, estolas, manípulos, dalmáticas, golas e pluviais.

Que regalo para o olhar: o desenho, o detalhe, a renda, o bordado. Homenageiam-se assim artesãos anónimos, de séculos vários, mãos terrenas inspiradas pelo Alto, que talham e bordam como quem ama e ora.

Não deixe de entrar, se andar por ali, que a Casa Duarte Pinto Coelho, antiga casa dos guardas do Palácio dos Condes Castro Guimarães, está aberta entre terça e sexta, das 14.00 às 18.00 horas, sábados e domingos também das 10.00 às 13.00, até 6 de Janeiro, dia de Reis, e aprecie tais vestes com os olhos da alma.

Pluvial (Espanha/finais do século.XVI)
Capa usada sobre os ombros pelo celebrantes nos actos litúrgicos solenes estranhos à Eucaristia, como a aspersão de água benta, procissões, baptismos, responsos …

 

Casula (França/século XVIII)
Peça liturgicamente muito importante, usada sobre a alva e a estola.

 

Casula (França/século XVIII)

 

Dalmática (Espanha/século XVIII)
Veste exterior usada pelos diáconos.

 

Casula (século XVIII) e Dalmática (século XVIII)

 

Casula (Espanha/finais do século XVI)

 

 

Casa Duarte Pinto Coelho
Av. Rei Humberto II de Itália
Cascais

O elogio do vidro

Parece que entramos na caverna de Ali Babá só que ali não se escondem tecidos finos, tapetes delicados, tampouco sacos cheios de moedas de ouro, o “tesouro” é outro, o do vidro, cumprindo a longa tradição da Marinha Grande, cidade onde a primeira de muitas fábricas de produção vidreira foi instalada ainda no tempo do Marquês de Pombal (1769). Há de tudo, dos vidros utilitários e de serventia diária, como os jarros e os copos bico de jaca, aos decorativos, de linhas depuradas. Difícil mesmo é o embaraço da escolha que ou vamos lá mesmo com um fito bem definido, como o de repor uma peça que entretanto se quebrou, ou então estamos tramados porque apetece logo renovar estoques, tão tentadora que é a colorida e variada oferta. Queria uns copos de água para a cozinha, para substituir os que se foram partindo com o tempo e acabei comprando também umas garrafas para a água, para colocar nos quartos do monte, e ainda um recipiente para as litradas de chá frio que vou bebendo. E fiquei com ganas de voltar, rapidamente!

Vidros … é no Depósito da Marinha Grande na rua de São Bento, 234/236, mesmo em frente à Casa de Amália. Olhe que belo programa para uma tarde bem passada: entra na casa da nossa artista maior, e desta forma no seu mundo mais privado, e depois, do outro lado da rua, deixe-se encantar por tudo quanto o Depósito nos oferece. Até pode desenhar uma peça que eles fazem a reprodução. Bem que gostaria, não fosse eu tão canhestro!