Aquivos por Autor: admin

Há círculos que se fecham!

Há coisas que me acontecem no presente que parecem buscar ligação ao passado, como que para atar uma ponta solta ou fechar um círculo. Afinal não é Isabel Allende quem o diz: “se vivermos o suficiente todos os círculos se fecharão”?

A primeira vez que vi dançar o “Bolero”, de Ravel, foi no cinema, no filme “Les uns et les autres” de Claude Lelouch, andava eu pelos vinte e poucos, e era o portenho Jorge Donn quem protagonizava a cena num bailado intenso e arrebatador. Foi quando fixei o nome do coreógrafo: Maurice, tal como o compositor, de apelido Béjart. Soube então que tinha vindo a Portugal em plena ditadura com a sua companhia para uma série de espectáculos com “Romeu e Julieta”. Estávamos em 1968, é o próprio quem o recorda , no seu livro de memórias “Un instant dans la vie d’autrui”, que resgatei agora da biblioteca cá de casa, comprado que foi há quase quarenta anos (compro livros compulsivamente sabendo que mesmo que os não leia na hora dia haverá em que me hão-de valer):

“Chegámos a Lisboa numa tarde de Junho e na manhã seguinte, ao sair do hotel, percebi que havia uma certa efervescência junto a um quiosque de venda de jornais. As manchetes eram claras, Robert Kennedy tinha sido assassinado. Ainda que não sentisse particular admiração pela política de qualquer um dos irmãos Kennedy, a notícia não deixou de me impressionar. Nessa noite de estreia a sala estava cheia e na pateia viam-se muitos jovens que sentiram o final do bailado (o disparar das metralhadoras, o ribombar dos bombardeamentos e gritos de “façam amor e não guerra”) como um verdadeiro murro no estômago. Portugal estava em guerra em Angola e outras colónias, Salazar era o senhor todo poderoso. O ambiente era electrizante. Subi ao palco para, junto com toda a companhia, receber a ovação com que havíamos sido brindados e sem o ter premeditado pedi então que se fizesse um minuto de silêncio pela morte de Robert kennedy, vítima do fascismo internacional. A sala emudeceu, porém, quando regressámos aos camarins já ela se agitava num canto, que nos disseram ser revolucionário e por isso proibido. Após o espectáculo, seguiu-se uma recepção na Embaixada da Bélgica onde me deparei com um ambiente bizarro, angustiante mesmo, contrastante em absoluto com o caloroso acolhimento que tivemos durante o espectáculo”.

No dia seguinte Maurice Béjart seria lavado às sinistras instalações da PIDE para ser interrogado, acabando por ser conduzido à fronteira, sendo
assim expulso do país, como subversivo e indesejável. Voltaria em 1974, a um Portugal já livre, com o mesmo bailado e não seria última vez.

Quando percebi que o Béjart Ballet de Lausanne estaria na Ópera de Versalhes decidi que seria ali que, finalmente, veria dançar o “Bolero” ao vivo, ao mesmo tempo que me sentaria pela primeira vez na Ópera do Palácio, tão desejada por Luís XIV mas só terminada no reinado do Luís que se lhe seguiu, ainda a tempo do casamento do Delfim com Maria Antonieta. Que emoção escutar a música de Maurice Ravel num crescendo orquestral delirante e vê-la dançada de forma demoníaca e sensual. A noite reservar-me-ia ainda uma inesquecível surpresa, uma outra coreografia de Béjart para uma peça a partir das canções de Brel e Bárbara. Logo eu que não sou de olhar para o passado para não estar de costas para o futuro dei por mim a lembrar a banda sonora de toda a minha adolescência onde a cultura francesa dominava e as palavras de Jacques Brel e da dama de negro me desinquietavam.

Falta-me agora assistir a um concerto na Capela Real do Palácio, mas nāo pode ser para já que tem dois meses que se iniciaram os trabalhos de restauro do telhado e a empreitada ainda vai levar um ano ou mais, mas eu sei esperar e nos entretantos já tenho bilhetes para “Don Carlo” de Verdi (adoro!!) na Ópera de Frankfurt, para o Natal que não tarda.

Um hotel em Versalhes

Em gostando de um hotel mantenho-me cliente por bons anos assim regresse por razão de um espectáculo ou apenas por me apetecer revisitar a cidade ou o local. Não é a primeira vez que me fico por Versalhes o fim de semana todo, mesmo que acabe por dar uma saltada a Paris nem que seja só para almoçar, como foi o caso. Ali se vê a grandeza da França, entre Palácio e jardins, sem esquecer os domínios de Maria Antonieta. Em Versalhes quedo-
me no Trianon Palace, hotel de mais de cem anos de histórias para contar, que é disso que eu gosto.

O nome advém do facto de estarmos a dois passos do Pequeno e do Grande Trianon, num parque profusamente arborizado de três hectares, onde os da cidade fazem os seus treinos matinais e passeiam os seus “cãopanheiros”, encostado aos muros do Domínio Real de Luís XIV. A partir da sua
inauguração, no primeiro de Maio de 1910, o hotel passou a ser frequentado pelas mais diversas personalidades mundiais, por ali encontrarem um
perfeito ambiente de elegância e tranquilidade. Sarah Bernhard escolhia o hotel durante as suas representações parisienses ali convivendo com Marcel Proust, Lafitte, o banqueiro, e Santos-Dumont.

No inicio da Primeira Grande Guerra o Trianon Palace é requisitado como Hospital auxiliar para uso da tropas britânicas regressando dois anos depois à sua função original. Foi na sala posteriormente baptizada com o seu nome que Georges Clemenceau ditou as condições do Tratado de Versalhes. Terminada a guerra, o hotel recupera o seu estatuto de instituição mundana e rapidamente passa a contar como hóspedes assíduos os nomes mais importantes das letras e do espectáculo, como Paul Valery, Sacha Guitry e Marlene Dietrich.

O final da década de trinta traz ao Mundo tempos negros de guerra e genocídio e uma vez mais o Trianon Palace se vê transformado, primeiramente,
em quartel da força aérea alemã por decisão de Goering, mais tarde, em 1944, das tropas americanas. Foi aqui que homens de poder e influência, como Eisenhower, Patton, De Gaulle e Montgomery tomaram decisões que ainda hoje vigoram no actual mapa geo-politico.

Em tempo de paz voltou a ser hotel de reis, como Isabel II ou Hussein da Jordânia, e de artistas, como François Mauriac, Jacques Brel, Jean Gabin, Jeanne Moreau…

Em 2008 o hotel foi completamente renovado pela arquitecta inglesa Fiona Thompson mantendo-lhe um certo requinte aristocrático, no respeito pela
tradição francesa do início do século XX, e acrescentando-lhe uma necessária, mas não menos elegante, contemporaneidade, como a abertura de um restaurante gastronómico onde a cozinha atinge alturas de Olimpo sob a batuta de Gordon Ramsay.

Perdoem-me a vaidade mas Versalhes fica-me tão bem!

Um almoço no monte

O meu muito estimado amigo Ângelo Ferreira, apaixonado e dedicado médico, que aliás muitos leitores conhecerão das suas regulares idas à televisão como cirurgião digestivo, abordando temáticas como o refluxo gástrico, o cancro do cólon, entre outras, celebrou ontem mais um aniversário, por isso decidimos cá no monte organizar um almoço para ele e sua mulher Célia, para o qual convidámos o autarca de Monforte, sua mulher Inês e filhotes, família que muito apreciamos, ao fim ao cabo os oito que volta e meia se reúnem ao domingo à mesa do “Gadanha” ou do “Alecrim”, um e outro em Estremoz, ou do “Tintos e Petiscos” em Vaiamonte, celebrando a vida e o afecto que os une.

A decoração da mesa é sempre comigo, gosto de a idealizar com tempo, procurando não repetir ideias e surpreender de acordo com a época do ano, o tipo de refeição, se é dentro ou fora de portas. A ementa, essa fica sempre por conta do talento do Rui, excepção apenas para a sobremesa, mais por eu me perder por lambarices que por falta de jeito do parceiro, que se há pessoa em quem se pode confiar todo um almoço ou jantar delicado e saboroso é nele.

Sim, já sei que a ideia das suculentas em cima da mesa não foi consensual, também como em tudo na vida considero a unanimidade uma verdadeira maçadoria, mas gosto eu e mais não fiz que replicar, ao meu jeito, o que há cerca de um mês vi no restaurante exterior do Hotel Conservatorium de Amesterdão. Acomodei-as em vasos de terracota propositadamente imperfeitos para melhor garantir a rusticidade que pretendia. Depois foi juntar-lhes uns quantos troncos de oliveira resultantes da poda e que hão acabar nos lumes de inverno, folhas de hera, pernadas de feto entre outros verdes do monte para compor o centro de mesa, com volumes e texturas. As rosas tintas deixei para último, meia hora antes de se começar a servir, para não perderem viço com o calor que por aqui ainda se sente. O mais é um serviço branco da Vista Alegre, sendo a única nota de cor dada pelo azul dos copos de bicos do Depósito da Marinha Grande.

Mesa posta, venha a paparoca:

Para fazer boca a um espumante rosé bruto Cartuxa, da Fundação Eugénio de Almeida (cá no monte só se bebem vinhos alentejanos!), serviu-se um picadinho de miolo de mexilhão, previamente cozido (já o pode comprar assim), pickles, alcaparras, azeitonas verdes descaroçadas, cebolinho, coentros, tudo temperado com azeite e vinagre de vinho tinto, sal (se achar mesmo necessário) e pimenta preta moída na altura. Para avivar os sabores borrife com umas gotas de sumo de limão. Sirva fresco.

Seguiu-se uma sopa fria de manga, pepino com miolo de sapateira.
No copo da sua liquidificadora, junte duas mangas descascadas e cortadas em cubos, um pepino descascado e sem sementes, um pedacinho de talo de alho francês, uma malagueta sem sementes, dois copos de água, sal, pimenta preta moída na altura e sumo de três limas. Junte algumas folhas de hortelã. Triture tudo muito bem. Leve ao frigorífico por umas boas horas e sirva o mais fresco possível. Optámos por colocar uma hora no congelador. Servimos com miolo de sapateira cozido e uma folha de manjericão.

Este foi o prato de resistência: lombos de bacalhau fresco em cama de linguini negro e alho francês com molho de caril.

O linguini é cozido “al dente” em água a ferver em cachão, temperada de sal. Corta-se o alho francês em juliana e lava-se em água corrente.
Ao lume, numa caçarola com um fundo de azeite, juntam-se tomates-cereja inteiros, previamente lavados, e quando estiverem levemente dourados junta-se-lhe o alho francês e tapa-se a caçarola. Deixa-se cozinhar breves minutos, em lume suave. Tempera-se de sal e pimenta preta. Escorre-se o linguini e junta-se à mistura de tomate e alho-francês e, fora lume, delicadamente envolve-se tudo. Mantém-se em local aquecido.

O molho é preparado com um dente de alho e uma chalota, picados. Nunca caçarola vão ao lume com um fio de azeite. Uma vez translúcidos junta-se pó de caril a gosto. Mexe-se bem para ligar tudo. Junta-se um golpe de vinho branco e continua-se a mexer para evaporar o álcool. Juntam-se por fim três decilitros de natas e um bom punhado de miolo de mexilhão cozido. Deixa-se ferver em lume brando por minutos. No copo da liquidificadora tritura-se o molho muito bem.

Numa frigideira bem quente, espalha-se sal e pimenta preta moída e junta-se um fio de azeite. Juntam-se os lombos de bacalhau com a pele para baixo. Acrescentam-se umas nozinhas de manteiga (nada de margarinas) à volta dos lombos. Deixa-se cozinhar um pouco. Viram-se os lombos cuidadosamente e deixa-se acabar de cozinhar, de modo a ficarem suculentos e não fibrosos.

Em cada prato, de preferência fundo, põe-se uma porção de molho, por cima a mistura de linguini e alho francês e sobre este o lombo de bacalhau fresco com a pele para cima. Salpica-se décadas cebolinho picado e pode-se regar com um fiozinho de azeite.
Acompanhou-se com um branco Blog 2017 (das caves Tiago Cabaço)

Por fim: um cheesecake ao contrário.

A ideia era usar uns recipientes que dessem a ideia de pequenos vasos, estes em verde e vidrados e adquiridos na “Cerâmicas na Linha”.

Utilizei dois pacotes de bolachas Oreo. Separei cada duas partes de cada bolacha, raspando para uma taça o recheio. As bolachas são trituradas de modo a obter-se um granulado a parecer terra.

No fundo de cada vaso espalhei uma fina camada de caramelo, feito com açúcar, natas e manteiga. O açúcar vai ao lume com um nadinha de água e quando ganhar uma cor dourada forte, tira-se do lume e junta-se-lhe, mexendo sempre, uma embalagem pequena de natas. Volta ao lume para ferver, sem parar de mexer. Retirado do lume, junta-se ao caramelo uma colher de sobremesa de manteiga com sal. Mexe-se e deixa-se arrefecer.

Por cima da camada de caramelo dispus, em cada caso, um creme de queijo mascarponne (duas embalagens normais) misturado com o recheio das bolachas Oreo e com duas embalagens de natas previamente batidas. Uma vez que usei o recheio das bolachas não incluí neste creme grama que fosse de açúcar.

Por cima deste creme acrescentei uma rodela de espessura fina de bolo de chocolate (use uma receita sua habitual ou até pode optar por um de compra). Completei cada vaso com o granulado de bolachas Oreo, como se fosse terra. Até à hora de servir este doce deve manter-se no frio. Apresentei cada vaso com um galho de alfazema.

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Baden-Baden!

“Se gostas de ópera, tens de ir a Baden-Baden!” – disse-me Rosa Cullell mal chegada à TVI, ela que é melómana e já havia dirigido o Liceu de Barcelona. Já tinha ouvido falar da pequena cidade alemã pelas suas águas, famosas desde o tempo dos romanos pelas suas virtudes terapêuticas, sobretudo para quem sofre de males do coração e das vias respiratórias, desconhecia era a sua vitalidade cultural.

Não faltam concertos de música clássica, espectáculos teatrais, de bailado e ópera para que esta romântica e elegante estância termal seja um destino irrecusável para quem como eu se cura através da Arte. Vi “Orfeu e Eurídice”, de Gluck, compositor alemão, cantada, e dançada pela companhia de bailado de Hamburgo, dirigida pelo americano John Neumeier (bravo!!), no Festival Hall a segunda maior casa de ópera e sala de concertos da Europa, e passeei sem pressa e quase sem destino pelo imenso verde que bordeja o rio Oos, sem porém deixar de entrar no museu de arte contemporânea, onde podemos admirar a colecção do seu fundador, Frieder Burda, falecido já no decorrer deste ano. Um almoço nos jardins do Brenners-Park Hotel regado por um riesling alsaciano fresco e frutado culminaria a minha estada nesta que é uma jóia em plena Floresta Negra e onde certamente voltarei.

Próxima paragem: Estrasburgo.

 

Uma tarde comigo!

Dêem-me um centro histórico e fico bem. Quando soube que parte da minha primeira semana  de férias seria passada no Concurso Hípico Internacional de Aachen a primeira coisa que fiz foi procurar saber do seu centro que é onde a história do local se mostra quase sempre única e irrepetível e onde a Arte se exibe gloriosa (nesta volta excepção feita a Liége, na Bélgica, que há muito não via cidade tão feia com gente igualmente feia. Uma desgraça nunca vem só!).

Logo percebi que tinha o que ver, marcas de um tempo medievo, dominado por Carlos Magno, rei dos Francos e imperador do Sacro Império Romano por decisão do Papa Leão, terceiro do nome dele. Dizem que os seus restos mortais repousam na Catedral que mandou erguer se bem que também haja relicários com ossos seus (rádio e cúbito) no museu de Arte Sacra situado nas imediações. A Catedral é admirável pela sua imponência e mistura de estilos, do gótico ao bizantino. Ali foram coroados trinta imperadores alemães entre o seculos X e XVI e foi o primeiro monumento da Alemanha a ser admitido pela Unesco na sua lista do património cultural da Humanidade. Quanto ao tesouro de arte sacra é tido como o mais importante a norte dos Alpes, pela riqueza artística e material do muito que exibe em prata dourada (vermeil) e pedras preciosas e pela raridade de algumas das suas peças como a Cruz de Lorena, o Busto relicário do imperador e o sarcófago de Perséfone. Tudo vi fascinado, que tirei toda a tarde para o fazer, deixando o Rui nos cavalos, calcorreando vagarosamente o centro da cidade e quase alinhando na proposta que os roteiros sugerem, a dos caminhos de Carlos Magno, não fora uma chuvada inesperada ter-me alterado os planos. Em qualquer praça, praceta ou recanto abrem-se esplanadas vibrantes numa algaraviada de idiomas, convidando-nos a sentar, petiscar, bebericar e olhar, sempre com olhos de ver. Há prazeres que prefiro assim: comigo!

Na capital do cavalo

Aachen merece um escrito, pensando melhor dois, este sobre cavalos e o próximo sobre o que vi no seu centro histórico. Todos os anos, em chegando Julho, a cidade envolve-se naquele que é tido como o melhor concurso de equitação do Mundo. Há empresas que dão férias aos seus empregados, durante toda a semana, tal a paixão dos alemães pelos cavalos e o orgulho que os da cidade têm pelo evento. Também pudera, de todo o Mundo vêm os maiores nomes da equitação, criadores de cavalos e muitos milhares de fãs das diversas modalidades. Juntam-se ao estádio Tivoli, esse para o futebol, outros dois exclusivamente para a prática das provas hípicas, de saltos e dressage e usados apenas para este evento. O mais é toda uma estrutura impecável de muito bom gosto, montada para o efeito, entre tendas para a venda de cafés, outras de champanhe, de acessórios ligados à equitação, sem esquecer toda uma zona exclusiva de restauração a cargo de chefes de gabarito e mesmo estrelados. Facturam-se milhões independentemente do patrocínio das marcas de luxo, como a Rolex, que se fazem notar por todo o recinto. Público é aos magotes e não é raro cruzarmo-nos, a caminho dos recintos das provas, com caras que já vimos na televisão, nas revistas do social ou nas notícias da política. Quase esbarrei com a Princesa Benedita, irmã da rainha Margarida da Dinamarca, logo percebi que era ali acompanhando uma das suas filhas, Nathalie, cavaleira de dressage. Úrsula Von der Leyen, recentemente eleita Presidente da Comissão Europeia também se fez notar no último dos dias, ela que foi cavaleira de competição antes das suas funções de grande responsabilidade na política alemã.

Sempre gostei de cavalos, pelo que lhes reconhecia de nobreza e pelo que via na RTP, a televisão da minha infância e adolescência, sempre que esta transmitia provas de saltos (nomes como Pimenta da Gama, Malta da Costa… ficaram para sempre guardados na memória) mas muito longe estava de imaginar que um dia iria tê-los (seis éguas, três poldros já nascidos na herdade, e três cavalos de competição, dois dos quais a serem preparados na Alemanha por Maria Caetano) e interessar-me em concreto pela dressage (disciplina de ensino).

O Rui sim, há muito que vive essa paixão sabendo montar e tendo ao mesmo tempo olho para a escolha (veja-se o caso Biso das Lezírias. Ninguém dava coisa alguma por ele, nas mãos de Paulo Caetano, mestre de dressage, e da sua filha Maria, acabou por ganhar o que tinha a ganhar nas categorias em que concorreu e foi vendido, e muito bem, a uma milionária brasileira, preparando-se agora para concorrer na próxima semana nos Pan Americanos de Lima, no Perú, com vista à qualificação dos Olímpicos de Tóquio). Agora depositamos as nossas esperanças no Happy Plus. Tem sete anos, é oitenta por cento hanoveriano e lusitano no restante. Está a aprender, mas domingo passado desfilou com a Maria Caetano na cerimónia de encerramento do Chio Aachen e foi uma emoção. É lindo, “é uma pintura!” diz-nos a cavaleira. Aproveitei estes dias em Aachen para também entender mais da modalidade, já que como em tudo tenho de compreender para assim puder tirar o melhor partido do que vejo e experiencio. Talvez seja isso que me falta para ligar ao futebol, saber do papel de cada jogador em campo, de cada tática, não me basta ver dez para cada lado atrás de uma bola procurando metê-la na baliza do décimo primeiro adversário, independentemente de achar que certos comportamentos ultimamente ligados ao futebol nada têm a ver comigo, porque deselegantes e primários. Mas voltemos aos cavalos: sabendo o que é uma pirueta, um trote reunido ou alongado, um “piaffe”, uma “passage”, entre outras figuras obrigatórias da competição, consigo já perceber a prova, nas suas transições, também elas pontuadas e nas falhas mais visíveis.

Foram três dias de fascínio e aprendizagem, mas então o último “encheu-me as medidas”, começando pela prova de estilo livre (“free style”) em que cada cavaleiro apresenta a sua sequência de exercícios obrigatórios com coreografia e banda sonora próprias (Isabel Werth, tida como a “rainha da dressage”, de tal modo limpa tudo o que é competição, mostrou-se aqui, aos cinquenta anos, avassaladora montando Belle Rose e arrebatando quantos lotavam as bancadas do estádio) e culminando na cerimónia do adeus no outro estádio três vezes maior e onde decorrem as provas de saltos. É uma tradição de muitos anos essa de acenar com lenços brancos e ao compasso da música, celebrando a excelência de quantos, cavalos e cavaleiros, participaram no evento.

Felizmente uso sempre lenço na lapela, branco naquele dia e não era por acaso, que também eu quis fazer parte da festa enquanto pensava: “para o ano estou cá caído!”.



Eu e o espectáculo de André Rieu

Amante que sou de música clássica, coisa que me vem de criança do tempo em que aprendi a gostar com a RTP e o maestro José Atalaya, ele que explicava uma partitura como quem conta uma estória, sempre olhei com alguma desconfiança certos fenómenos de indiscutível sucesso que volta e meia emergem, avassalando multidões, quase sempre em nome da modernizacão ou democratizacão neste caso da música. Os das minha geração lembrar-se-ão de Waldo de los Rios, e da sua orquestra, e do escândalo que foi junto dos puristas quando resolveu reinterpretar os clássicos de Mozart, a começar pela quadragésima sinfonia. Certo é que nasceu uma verdadeira Mozartmania junto de um público pouco ou nada ligado à musica clássica cativado pela nova e discutível roupagem com que o maestro resolveu vestir a obra. Mais tarde, na década de oitenta, será José Luís Cobos a fazer coisa idêntica com os intocáveis da música clássica e mais uma vez o sucesso é absoluto, nomeadamente no que toca à venda de álbuns. Até “dou de barato” que estes casos de extrema popularidade possam levar algumas pessoas para a música e para a ópera, arte esta que na sua origem agradava às mais diferentes classes sociais e que outros elitizaram, contesto porém o facilitismo e leviandade com que se adultera muitas vezes todo um património de séculos superiormente criado.

Não comparando, não precisamos de recuar muitos anos para lembrar o empolgamento de milhões de espectadores em todo o Mundo com os concertos dos três tenores (Pavarotti, Domingo e Carreras) sob a batuta de Zubin Mehta. Magistralmente concebido e interpretado o espetáculo alinhava de forma inteligente canções napolitanas, árias de ópera e de opereta, entre outros registos, revelando-se receita segura para o êxito sem precedentes. Longe da sofisticação do concerto dos três tenores é nesta fórmula que assenta, a meu ver, o sucesso de André Rieu.

Sou dos que gosta do formalismo de um concerto sinfónico e da Ópera, frequentando, quando posso, as suas casas maiores (La Scalla, Fenice, Ópera da Bastilha, Ópera de Viena… Festival de Salzburgo, apreciando igualmente o de Verona, ainda que este num âmbito completamente diferente), por isso não me passou pela cabeça assistir a um dos espectáculos de André Rieu aquando da sua recente e triunfosa passagem por Lisboa. Porém, num Domingo já deste ano, encontrei, pelo acaso de um “zapping”, na RTP, a transmissão de um concerto seu na Praça Vrijthof de Maastricht, a sua cidade natal, e fiquei agarrado por duas horas, pela energia festiva que perpassava através do ecrã, mérito também da realização televisiva. Sim, André Rieu sabe o que faz há muitos anos, independentemente do virtuosismo com que celebra o seu Stradivarius, e do talento dos seus músicos e solistas, há todo um espectáculo criteriosamente pensado para as massas. Sim, logo que pudesse teria de vivenciar a experiência e se possível naquele espaço ao ar livre onde cabem perto de 40 000 pessoas, pensei… longe de acreditar que tal oportunidade estaria para tão breve. Sabendo que vinha ao Festival de Equitação de Aachen e que esta cidade fica a cinquenta quilómetros de Maastricht pesquisei na Internet da existência de bilhetes para um dos espectáculos de André Rieu. O maestro todos os anos brinda a sua cidade, em Julho, com uma série de concertos, só desta vez são mais de vinte, pior é que todos estavam esgotados no site oficial.

Consegui, porém, dois bilhetes, através de um site de agência, pagos por um preço muito acima do seu real valor, mas valeu a pena para aquilo a que
me propunha: entender o fenómeno. O concerto de André Rieu é verdadeiramente um espectáculo popular onde todos os pormenores são pensados.

Há fotos do maestro por todo o lado, livros com a sua história de vida, discos e dvds dos seus concertos empilham-se em todas as livrarias, numa operação de marketing que impressiona (até a garrafa de água colocada sobre cada assento na praça tem a cara do maestro!). O alinhamento do concerto é construído de modo a facilmente conquistar a mais vasta e heterogênea das plateias. Começando pelas canções napolitanas, indo às valsas, à musica pop, arriscando de modo seguro e eficaz numa ou noutra ária conhecida de Verdi, Bizet… (nem meia dúzia, convenhamos), tudo entremeado com gagues e conversas com o público, temos a receita infalível que se repete, espectáculo após espectáculo, na sua linha dorsal, seja ali ou na Cochinchina. Todos cantam (eu também), dançam (eu também, ainda por cima ao som da disco com um dos sobreviventes dos Village People como convidado), gritam (eu também gritei quando André Rieu pergunta por Portugal) unidos pela Música. É esse o objectivo da festa, unir as pessoas através de uma linguagem universal. Tanto melhor se houver (e haverá certamente) quem se sinta motivado a querer mais, entrando no fascinante mundo da música erudita. Naquela noite fui feliz, como aqueles muitos milhares que enchiam a Praça, como quantos por certo lotaram o Altice Arena e voltarão a fazê-lo quando em Novembro, André Rieu voltar a Lisboa, pois aquele é um eficaz espectáculo de variedades, popular (até nos brilhos, folhos e acetinados das fatiotas das instrumentistas e solistas, de gosto muito discutível e não é que também idealizados pelo próprio artista!), executado, e muito bem, por artistas com formação clássica. Não lhe chamem é outra coisa! É como comparar espumante com champanhe, mas calma que também há mau champanhe.

Aqui ficam algumas fotos e vídeos, para mais tarde recordar!

Sob o signo do Imperador

Por estes dias Aachen, na Alemanha, é a capital do cavalo, com a realização de uma das mais antigas e importantes competições de equitação a nível mundial, abrangendo todas as suas disciplinas, nomeadamente a que particularmente nos interessa, a dressage, sendo que nesta Portugal é representado pela nossa campeã (cavaleira dos nossos cavalos) Maria Moura Caetano.
Este ano fiz coincidir as minhas férias com o evento, de modo a puder apoiar a prova da Maria, torcendo para que o nosso país passe à fase seguinte e chegue à final, e assistir mais
tarde à cerimonia de encerramento entre cerca de 400.000 espectadores vindos de todas as partes do Mundo.
Organizado que sou na preparação de uma viagem, como em tudo na minha vida, procuro com bastante antecedência ver de hotéis, alugueres de carro, espectáculos que me possam interessar, monumentos e exposições a que não posso falhar… assim tivesse um companheiro que não deixasse tudo para a última. Porém, sempre me dei bem com as nossas diferenças, por estimularem a discussão (então no que toca à tauromaquia até fervem os argumentos, de parte a parte, e logo nós que não somos domesticáveis) acabando o imprevisto e por vezes o improviso por levar-me a procurar soluções que até acabam por resultar proveitosas. Procurar um hotel em Aachen, e mesmo nos arredores, do nível que sempre exijo (tenho como regra nunca ficar pior do que em casa) a pouco mais de uma semana do inicio da competição, é como procurar uma agulha num palheiro. Impossível mesmo.
Percebendo que a cidade faz fronteira com a Bélgica, e depois de horas agarrado ao computador, guiei a minha pesquisa para Liége, a uns cinquenta minutos de carro (o mesmo tempo que ultimamente levava de Fontanelas, onde vivo durante a semana, a Barroca de Alva, onde gravava o MasterChef), para finalmente encontrar poiso para pernoitar. Vamos lá tirar partido da situação,
pensei, feita a reserva num golpe de sorte, que também Liége está a rebentar pelas costuras, se sempre for verdade que a cidade valónica é berço de Carlos Magno, sendo que Aachen o viu ser sepultado na sua Catedral (sabe-se que me perco por centros com história), logo deambularei sob o signo do Imperador, enquanto o Rui por certo passará a maior parte do seu tempo no hipódromo. Ele sabe tudo da morfologia do cavalo e da modalidade (dressage)… dos piafés, dos trotes alongados, das piruetas e das passagens de mão a seus tempos… ao pé dele confesso-me um aprendiz. Eu lá vou assimilando, se bem que ainda me baralhe nas figuras, mas gosto de cavalos, pela sua nobreza, do bailado a dois, cavalo e cavaleiro(a), em perfeita harmonia, e da festa nas tribunas.
Quando reparei que a meia hora de Liége está Maastricht, já na Holanda, jubilei por ser cidade que também me apetece conhecer e por um outro motivo que vai levar a novo escrito, aqui no blogue, resultado de um feliz acaso… ou talvez não, que isto há quem afiance não haver coincidências! Portanto, três cidades, cada uma em seu país, para meia dúzia dias até que nem me parece nada mal.

Um quarto

Não conheci a mãe do meu pai já que para todos os efeitos a avó era a Edla, a segunda mulher do meu avô Heliodoro. Parece fadário de família, tanto de um lado como do outro, isto de saber todos os casais desquitados.

Era, realmente, a Edla quem nos recebia sempre que vínhamos a Lisboa, de sorriso rasgado e café feito na cafeteira de balão. Acasa cheirava sempre a café acabado de tirar e a bolos macios saídos do forno, daqueles que vão bem a ensopar qualquer bebida quente. Por vezes, não muitas, eu e o meu irmão vínhamos para ficar uns dias com o nosso pai e era ali, na casa de Entrecampos, que passávamos a maior parte do tempo, chegando mesmo a pernoitar no quarto das visitas. Nunca mais o esqueci, naquela altura achava-o mais para menina, com a sua mobília creme toda pintada de florzinhas furta-cores. Dizia-nos a Edla que eram assim as mobílias de mais além, em terras de depois do Tejo, e eu divertia-me por dormir naquele jardim de pinho e fantasia, com o sono a correr solto e tranquilo.

Quando, vai para quatro anos, entrei pela primeira vez na casa (monte) da herdade que haveria de comprar no Alentejo, degradada e quase tragada pelo mato, deparei-me com uma meia dúzia de móveis que valia a pena manter por ajudarem a contar um pouco da história daquele local e das artes da região.

Num dos quartos, o primeiro e único do monte original, jaziam duas camas de cor creme, pintalgadas de flores, não tão feéricas quanto as da avó Edla mas ainda assim a remeterem-me para as memórias de uma infância longínqua prenhe de sonhos e desejos. Fazia todo o sentido querê-las limpas recuperadas e feitas, mesmo que ninguém se deite nelas, assim sempre que ali entro pela manhã, para abrir a janela que deita para o campo, parece que sinto o cheiro do café, das “areias” e dos “lagartinhos” da Edla e o aconchego do seu abraço branco e sardento.

Por momentos é como se regressasse para mim, para o meu próprio começo.

Os doces “Casa de Mateus”

Os doces “Casa de Mateus”, por terem a bem dizer tantos anos quanto eu, remetem-me para o sabor da infância e para a memória dos gestos que se repetiam na afinação do ponto de açúcar, no preparo da fruta, sempre de qualidade e em perfeito estado de madurez e no desvelo com que se acompanhava a compota a ganhar corpo.

Era o colo da avó, eternamente vestida de negro para honrar a viuvez e histórias que o povo passa na sua sábia oralidade, enquanto me lambuzava com um papo-seco aberto ao meio esbarrigando-se de doce.

Doce vermelho de morango, doce de ouro alperce, os meus preferidos a partir do momento em que os frascos “Casa de Mateus” passaram a entrar lá em casa. Há marcas que acompanham a nossa vida!

Hoje passados que são sessenta anos continuo a querê-los à mesa do pequeno-almoço em dias de estar com vagar. Tenho muito por onde variar, que só sabores, sempre autênticos porque de boa fruta, sem corantes nem conservantes, são uma vintena, preferindo há muito as doses individuais, imaginando-me no mais elegante dos hotéis, digamos que sem culpa pelo pecado da gula, que assim sempre controlo a minha lambarice. Gosto de o espalhar, numa caricia, sobre uma torrada ou com ele rechear um (como se ficasse por aí!) scone à hora do chá e não estranhe se lhe disser que os uso por vezes em agradáveis mancebias em receitas de entradas, que bem sabe o de morango, o mais clássico e apreciado, sobre queijo de cabra aquecido numa salada de verdes, ou de maior sustança, como o de framboesa a acompanhar um magret de pato…

Há marcas que merecem a minha fidelidade. A “Casa de Mateus” é uma delas. Em nome da tradição, que vale a pena manter, e da qualidade.

Veja algumas sugestões e receitas aqui.