Dormir com a História

Não fosse a sua reconversão em unidades hoteleiras e muitos dos nossos edifícios com história perder-se-iam entre desavenças de herdeiros e a apatia de alguns governantes com responsabilidades na matéria. De norte a sul do país é confrangedor o que se vê em ruínas , pedras tocadas pelo tempo jazendo sem glória, ao lado de verdadeiros mamarrachos fruto da pequenez e saloice de quantos confundem modernidade e desenvolvimento com crescimento em betão, quando não de nefastos conluios entre autarcas e “patos-bravos”. Felizmente que o descalabro dos anos oitenta foi travado, não sem que tivesse irremediavelmente infectado a paisagem de grandes parcelas do nosso país. Preciso dar exemplos?

Por isso, quando pernoito no Palácio do Freixo não posso deixar de jubilar com o que ali se fez (através do talento e visão de David Sinclair), no sentido de recuperar, dignificar e valorizar todo um património ligado à cidade do Porto e que urgia manter. O palácio é um belíssimo exemplar do barroco civil português do século XVIII, da autoria do arquitecto Nicolau Nasoni, italiano da Toscânia, responsável por parte da fisionomia única da cidade, sendo dele também um dos seus mais importantes ex-libris: a Torre dos Clérigos. Foi mandado construir pelo Deão da Sé do Porto, D. Jerónimo de Távora e Noronha, senhor de muito poder e abastança.

É neste edifício que podemos encontrar todos os espaços de serventia comum aos hóspedes, entre salões, restaurante e bar, pensados de forma funcional mas integrando o luxo das decorações originais em talha e frescos. Já os quartos e suites ficam no edifício adjacente, onde antes havia sido a Fábrica de Moagem, da Companhia Harmonia, e cuja construção remonta a finais do século XIX. O conjunto, aparentemente improvável pelas diferentes linguagens arquitectónicas, ligadas aqui pelo jardim à italiana debruçado sobre o rio, resulta em equilíbrio e bom gosto.

Se acrescentarmos à beleza do local a simpatia e profissionalismo de quem nos recebe, temos nesta Pousada com história, uma alternativa de grande qualidade aos hotéis mais categorizados. Por isso me divido entre eles, na minhas muitas idas à “Inbicta”.

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De norte para o sul, para um outro Palácio, também ele explorado pelo grupo Pestana, desta vez em Estói, a uma dezena de quilómetros de Faro. O seu estilo é nitidamente rococó, assim o quis José Francisco da Silva, feito visconde, diz-se, que pelo dinheiro e empenho na sua aquisição e finalização em 1909. Para tal contratou os melhores artistas da época em jardins, estuques, pintura e azulejaria.

A reconversão do edifício em pousada, bem como as soluções encontradas para a zona de quartos e suites, são da autoria do arquitecto Gonçalo Byrne e uma vez mais o conjunto se assume como uma opção de categoria em termos hoteleiros, aliando história e modernidade de forma inteligente e inspirada.

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2 comentários a “Dormir com a História

  1. Antónia Marques

    Conheço muito bem o Palácio do Freixo, tive a oportunidade de o visitar, após a recuperação, para assistir a uma exposição de obras de Dali.
    É pena que quem deveria cuidar do nosso património cultural não o faça, porque não dá votos…. e esqueça que é a nossa riqueza cultural que atraí o turismo de qualidade.
    Estou perfeitamente de acordo com a sua critica. Bem haja Manuel por existir como é; e, força para continuar a tocar na grande ferida do abandono dos nossos monumentos. Bjns

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  2. Fernanda Calçada

    É um gosto viajar pelas fotos do MLG, fico com vontade de ir aprender a fotografar.
    Obrigada pela partilha e pelos textos que são sempre uma maravilha.

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