Casas com história(s)

Foi D. Luis quem transformou Cascais também em vila da corte, ao instalar-se no Palácio da Cidadela, no último mês de Verão, ali ficando com Maria Pia de Sabóia e seus filhos, Outono dentro, até ao começo da temporada do São Carlos. Até então Cascais era dos homens da terra e do mar. O perfil da vila rapidamente se alteraria com a alta nobreza a construir ali as suas imponentes casas de veraneio, sendo a primeira a dos terceiros duques de Palmela, com um traçado fortemente influenciado pelas mansões rurais inglesas. Não nos chegam os dedos das mãos para contar as casas construídas em Cascais nessa época, algumas delas actualmente abertas ao público, entre as inspiradas pelos chalés suíços, as palacianas tão ao gosto francês, passando por algumas ditas ao estilo português.

Desta entrámos numa das mais imponentes, construída no início do século passado por vontade de Jorge O’Neill, homem dos tabacos, da finança, deputado da Nação, descendente da família real irlandesa e muito próximo da nossa Casa Real. Surpreende pelo seu traçado de fortaleza apalaçada e pela sua teatralidade, a que não será alheia a mão de Luigi Manini (italiano da Lombardia, arquitecto, é dele o projecto do Hotel Palácio do Buçaco, pintor e cenógrafo, tendo nesta qualidade trabalhado no teatro de São Carlos, a nossa casa maior da Ópera) e a sua própria localização numa pequena enseada banhada pelo Atlântico e que muitos hoje em dia aproveitam para praiar.

Em 1910, por dificuldades financeiras de Jorge O’Neill, o palácio acaba por ser vendido a um casal amigo, os Condes de Castro Guimarães que, após procederem a algumas alterações, passaram a habitá-lo grande parte do ano. Daí que o Palácio tenha sido munido de lareiras, que era coisa em que não se pensava quando a casa era apenas para veraneio. O bom gosto do casal refletiu-se na aquisição de peças de arte e mobiliário representativas de várias épocas, assim como o seu interesse pela cultura se fez sentir na compra de dois dos elementos mais significativos do acervo do atual museu: um órgão neo-gótico, construído de encomenda para o Conde e a biblioteca onde se destaca a valiosa Crónica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão.

Por não ter descendência, o Conde Castro Guimarães deixou, em testamento, a casa e a propriedade envolvente (onde se inclui a Capela de São Sebastião, consta que do século XVI e onde se destacam os azulejos, os mais antigos do século seguinte) ao Município de Cascais, para que nelas fosse constituída uma Casa-Museu e um Jardim Público (hoje Jardim Marechal Carmona).

O Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães foi oficialmente inaugurado a 12 de julho de 1931, tendo sido durante largos anos o único existente no concelho de Cascais. A propósito, um ano depois, Fernando Pessoa candidatou-se ao lugar de Conservador-Bibliotecário, por achar que a vila de Cascais lhe ofereceria um maior sossego e isolamento, ambos necessários para se dedicar à sua obra literária, porém não foi admitido.

Do outro lado da rua ergue-se a Casa de Santa Maria, que forma conjunto com o farol de Santa Marta, sendo uma das mais emblemáticas casas de Raul Lino e lá volta o nome Jorge O’Neill à baila já que foi ele quem a mandou construir para a sua filha Maria Teresa.

Na década de vinte a casa foi adquirida pela família Espírito Santo e por ali passaram visitantes ilustres como a grã-duquesa Carlota do Luxemburgo, os duques de Windsor, o rei Humberto II de Itália, os Condes de Barcelona entres outros, alguns deles exilados políticos na sequência da II Grande Guerra. Em 2004, em boa hora a Câmara de Cascais adquiriu a Casa de Santa Maria o que nos permite hoje visitá-la e admirar particularmente os seus magníficos azulejos do século XVII e o tecto de madeira pintado, atribuídos a António de Oliveira Bernardes, nome maior da pintura e da arte azulejar dos séculos XVII e XVIII.

Há muito para contar naquele que é o Bairro dos Museus da vila de Cascais, por isso se, tal como eu, gosta de casas com história(s) tem ali muito para ver e assim encher os olhos e a alma.

8 comentários a “Casas com história(s)

  1. rosa maria portelada

    Olá Manuel Luis … Obrigada por mostrar a minha Bela Vila de Cascais ,só faltou dizer nesta reportagem que também ali se encontra (dentro do jardim ) a sepultura dos Condes Castro Guimarães .. Muito obrigada ..

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  2. maria alcina gonçalves de andrade ribeiro

    OLÁ , Luís Goucha, deixe-me cumprimentá-lo e dizer que gosto muito de si, bem como desta sua reportagem sobre estes palacetes, que já visitei há alguns anos. Partilho consigo o gosto de visitar casas ou outros lugares com história e bom gosto, sendo de facto Cascais pródiga destes espaços. Um abraço.

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  3. Paula Colaço

    Alguém já disse serviço público.
    Concordo totalmente!
    Muitos milhares de pessoas conhecem este Museu, tenho certeza que muito poucos conhecem a sua história.
    Muito Obrigada Manel!

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  4. Ana Cristina

    Olá Manuel.. Admiro muito o seu trabalho.. E por essa razão venho pedir que leva a minha amiga ao seu programa. Verá rosado, bombeira voluntária portadora de esclerose multipla. Acho muito interessante a história de amor deste casal. Não podemos falar apenas de homens que batem temos que falar também dos outros como o Luís.. Que cuida da Vera e das filhas com tanto amor..
    Veja bem este pequeno momento, porque os sonhos são para realizar..

    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2055458717820819&id=100000701331802

    Obrigado Manuel

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  5. TANIA

    Desde pequena que sempre olhei para essa casa como um palácio lugar encantado, talvez porque o olhava da praia era e é ainda hoje um lugar mágico. OBRIGADO por nós fazer descobrir aos poucos um pouco do nosso Portugal

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  6. Dulce Caprichoso

    Muito obrigada ML por este miminho de cultura.sim, isto é cultura. Tesouros maravilhosos. Gosto muito de fotografar, não tenho conhecimentos técnicos, apenas fotógrafo com o olhar da alma,e quem me dera, ter oportunidades para umas reportagens fotogråficas destas. parabéns e uma vez mais, obrigada.

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