Requiem por uma pastelaria

Por quatro anos não completa o centenário, já que hoje fecha portas depois de um passado glorioso que fez dela uma das pastelarias mais emblemáticas da cidade.

“De volta ao Rossio sentei-me a um café, feliz da vida”, escrevia Jorge Amado, em 1957, na sua Crónica “A cidade proibida”, referindo-se à Suíça. Quantas figuras ilustres ali se terão sentado, do teatro, logo do “Nacional” de Amélia Rey-Colaco, que era a dois passos; do canto, até do lírico (Callas, a maior, por lá passou); do cinema (Orson Welles…); do jornalismo e outras letras; da política … Humberto Delgado ali tomou o pequeno-almoço antes da famosa reunião onde, sem medo, disse que a ser eleito Presidente da República obviamente demitiria Salazar!

Era o café preferido de quantos haviam fugido da Europa Central, aquando da Grande Guerra, sendo Lisboa um porto seguro antes seguirem viagem para outros destinos. A capital ia assim absorvendo outros hábitos, alguns não sem escândalo, como o das mulheres frequentarem a esplanada, a fumar.

Gostava do seu bife macio e de molhanga suculenta, isto quando ainda comia carne vermelha e a Suíça fazia jus aos seus créditos. Já não seria o que havia sido, entre remodelações, turistadas e até uma ou outra ocorrência mais azeda, mas este fecho de portas não deixa de entristecer. O quarteirão foi vendido e por muitos milhões, ali nascerá, dizem, que um hotel (mais um) superiormente estrelado, pena foi que a Suíça não tivesse resistido e assim se junte às mais cem de lojas com história que nos últimos anos têm encerrado. Outras haverá, infelizmente,a correr o mesmo risco … e assim se matam muitas das melhores memórias da cidade.

15 comentários a “Requiem por uma pastelaria

  1. Maria Teresa Soares Pereira

    Lisboa está a ficar muito triste e feia. As melhores lojas fecham e as que abrem deixam muito a desejar. Qualquer dia nem o Chiado escapa. Saudades dos tempos do Grandella

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  2. Alexandre Carvalho

    Sou tripeiro e, ainda assim, ao saber da notícia do encerramento definitivo da Pastelaria Suíça senti uma revolta interior por saber que é mais um pedaço de história que desaparece. Não adianta deitar as culpas aos investidores porque as Câmaras Municipais é que detêm o poder para licenciar a aprovar as operações urbanísticas, portanto, na minha opinião, a CML também tem culpas no cartório porque poderia já ter decidido no sentido de não aprovar qualquer projecto que não contemplasse a continuação daquele espaço emblemático.
    Infelizmente a nossa classe política vende-se por pouco e tem pouca credibilidade, salvo raras e honrosas excepções, a tal ponto que deu de mão beijada a nossa própria língua ao dialecto brasileiro, com um “Acordo” que não é acordo, ilegal no regime jurídico interno e internacional, cheio de erros técnicos e fazendo vista grossa dos 25 pareceres técnicos negativos, apenas cedendo ao vergonhoso negócio que está por detrás do AO90, ideia original dum cidadão de origem libanesa, radicado no Brasil. Se assim é com o idioma, qualquer dia abrem um centro comercial na Basílica da Estrela.

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  3. António Carlos Costa Correia

    Triste…o mesmo esteve ou estará para a “Cunha” no Porto….lá se vão as n/ boas memórias e espaços de convívio em qualidade!!!! Abraço

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  4. Helena Loureiro

    Olá.
    É triste, ver a nossa terra perder identidade.
    Os hotéis fazem falta e o turismo também. Mas eles gostam de cá vir pelo que somos, por tudo de bom que nós temos, e que, muitas vezes não tínhamos consciência disso. É logico que temos que ter condições para oferecer, mas não podemos esquecer quem somos nem a nossa historia, é isso que nos torna únicos. O edifício podia ser remodelado, mas a Suiça voltar ao lugar que ocupava. Acredito que com as características do nosso povo consigamos contorna esta onda de grandes infraestruturas turísticas que nos tiram a alma. Quando descobrirem outras paragens, as nossas cidades não podem ficar Zômbis?

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  5. Fernanda

    Os investidores tudo compram neste país, os políticos puseram Portugal à venda. Lisboa está a ser transformada num parque temático, fecham o comercio local e abrem aquelas cadeias horrorosas, que nem sequer têm bom café, como o Starbucks. É moda! Fica tão giro na mão, como um acessório para tirar selfies!
    Infelizmente, este Turismo selvagem está a destruir a alma lusitana, e os turistas continuarão a vir cá para ver o que há de igual em todas as outras cidades europeias? Para se cruzarem apenas com turistas? Talvez, mas entretanto, a vida dos portugueses está a deteriorar-se, o que é uma imensa lástima.

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  6. Miguel

    Enfim, se calhar muitas das pessoas que se prenunciam sobre a pastelaria entraram lá uma unica vez, e outros que entraram apenas uma vez nunca viram o que foi feito após as obras.
    Interessa aqui reportar que de certeza não existe interesse da atual gestão em dar continuidade ao negócio (mesmo que fosse dois quarteirões acima).
    Deixemo-nos de nostalgias que não gerem mais valias para ninguém, pois ninguem quer ter um negócio que não dê lucros expectáveis.
    (Para que conste sou do tempo em que a praxe era fecharem os caloiros na camara frigo mesmo que se sentasse em cima dos baldes de fios de ovos e mesmo ao lado as mini bolas de Berlim).

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  7. Graça Lopes

    Pois é .,.. isto é mito triste sou do tempo em que íamos á Baixa todas as 4 feiras e era “obrigatório”lanchar na Pastelaria Suiça, o galão a torradinha que tinha um gosto que ainda tenho na memória e os bons dos bolinhos Duchesse….
    E na época do Natal era um regalo ver as pessoas andarem nas compras e entrarem na Suíça com aquele embrulhos todos e eram colocados debaixo das mesas ou onde fosse possível colocar. Os empregados tinham uma simpatia e hoje em disse já não se vê em mtos lados…trabalhavam com gosto gostavam do que faziam….
    É assim hoje em dia não existe o encanto por manter o que é nosso ….a preocupação é fazer mamarrachos vendendo o património a pessoas que nada conhecem de nós e daquilo que faz parte do que é nosso, e assim se vão perdendo as tradições.

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  8. Maria silva

    Uma grande pena … passar por aquele passeio e não estar lá a esplanada ….. só isso é uma desilusão fora todos os bolos que deixaram de existir alguns não voltam mais a ser fabricados com a fórmula como eram feitos na pastelaria Suíça e como fechar agora os pastéis de Belém nunca mais se iria ter a confeção de pastéis de nata como só eles fazem

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  9. José Neves

    Os políticos/empresários,hoje em dia só pensão no seu bem estar(dinheiro),os outros que somos nós (Zé Povinho)quem lhes dá a”MAMA)depois vê-se,somos pessoal de (SEGUNDA) tenham (VERGONHA) na cara,nas mãos,nos bolsos, porque respeito anda muito arredio.

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  10. Clara Marisa Oliveira

    Lisboa está a perder a sua essência.
    Estamos a caminhar a passos largos para uma cidade sem alma.
    Quando é que isto vai parar?
    Será que vai continuar a ser interessante visitar uma cidade de turistas? ( sim de turistas,porque estão a destruir tudo que é tipo).
    Beijinhos da Suíça
    Clara Marisa Oliveira

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  11. Joaquina Barros

    Eu sou da geração do Manuel, tenho mais dois anitos. Moro na margem sul, mas semepre que ia a Lisboa dar uma vista de olhos à baixa, ou ir ao teatro D. Maria ai estava eu a tomar o meu galão e uma das suas especialidades bem docinhas. pastelaria Suíça. infelizmente foi mais um espaço antigo e com muito prestígio que fechou as portas. As minhas idas à baixa não vai ser a mesma coisa. A verdade é que nada é para sempre.

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