Na casa de Amália

“Este país não deu conta da sua genialidade. Devia-lhe este livro. Porque se Camões nos deu a língua, Pessoa, o pensamento, foi Amália quem nos deu a voz”- quem o diz é Fernando Dacosta, jornalista e escritor que muito estimo, com quem estive à conversa na casa de Amália, a casa amarela da rua de São Bento. Sentei-me naquela que foi a sua sala de receber e nem dei pelo tempo passar, tantas as histórias que o Fernando tem para contar, mesmo assim uma ínfima parte do que relata no livro que acaba de editar. Falámos de Natália e de Ary e das noites intensas ali vividas, com a poeta (que era assim que Natália queria ser tratada) desfiando “cantigas de amigo”, logo contrariada por Amália, já farta de a ouvir, dedilhando a guitarra que julgava ter vindo de Alcácer-Quibir (foi o que lhe disse o antiquário que a vendeu, mas, não, a guitarra é de 1622, do período filipino). Amália gostava de antiguidades, basta passear o olhar por alguns dos objectos que vestem o salão para percebemos o seu bom gosto. “Era uma mulher de muito bom gosto. É notável como alguém vindo dos estratos mais baixos se eleva, com requinte e sabedoria, aos estratos mais elevados da sociedade portuguesa, conquistando o mundo inteiro”. Por ser tão universal faz com que com várias polícias políticas e serviços secretos desconfiem dela, da PIDE ao KGB passando pela MOSSAD. “Como entender que Amália seja adorada por capitalistas e comunistas, monárquicos e republicanos, israelitas e palestinianos!… Só mesmo pelo seu talento, pela sua voz. A voz tocava o Divino, o transcendente”. Na voz habitava uma imensa solidão e inquietude, sendo o palco o altar onde oficiava que nem divindade.

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O livro de Fernando Dacosta está à venda em qualquer livraria.

A casa de Amália pode ser visitada por qualquer um (Terça a Domingo, das 10h00-13h00 e das 14h00-18h00).

A conversa que ali decorreu com o autor do livro já foi transmitida no Você na TV e pode ser vista aqui, dividida em duas partes:

Parte 1

Parte 2

6 comentários a “Na casa de Amália

  1. Transmontana

    Belo trabalho, sim senhor! De fotografia e de escrita! Outra coisa não seria de esperar de um Homem tão perfeccionista em tudo que diz e faz! Não era grande admiradora de Amália, não por não lhe reconhecer mérito, mas, isso sim, por falta de capacidade de a entender. Mas adorava a Natália Correia e a sua poesia. E Ary dos Santos, também. Parabéns! Mesmo assim, vou comprar o livro porque conheço, há muito tempo, a qualidade do trabalho de Fernando Dacosta. Tenha uma boa noite.

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  2. Maria Torres

    A conversa que teve com o escritor deve ter sido interessante Gostaria que viesse para o ar a horas que fosse possivel vermos .Aqui fica uma dica depois do jornal da noite.Obrigada Manel seja feliz e um bom fim de semana Maria

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  3. Carla

    Manuel
    Uma casa diz muito da personalidade de quem a habita, é sem dúvidas umas casa preciosa.

    É notável como alguém vindo dos estratos mais baixos se eleva, com requinte e sabedoria…

    Sabedoria e requinte nem sempre andam de mãos dadas, no caso da Amália andavam. Mesmo vindo dos estratos mais baixos o gosto e a vontade de aprender estavam intrínsecos nela.

    F. Pessoa deixou-nos o pensamento e muito mais, conheço pessoas que o estudam inclusive foi-me mostrado uma foto tirada há +- 2 anos , que fez pensar.
    Estas palavras dizem tanto … dele e de nós.
    Lindo.

    Tabacaria
    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Génio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

    Fiz de mim o que não soube,
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.

    Álvaro de Campos

    Abraço
    Carla

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  4. Maria Nazaré de figueiredo Couto

    Olá boa noite. Estou absolutamente maravilhada com o que publicou.
    A cada dia, me delicío mais com a forma de relatar tudo o que vê, pondo-nos nos locais. Obrigada por estes momentos. Continuação de uma boa noite.

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