História de um sonho teatral

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Ontem regressei ao passado, que até é coisa que habitualmente não me move. O anunciado lançamento do livro sobre a história do Teatro Adóque, da autoria de Luciano Reis, levou-me ao bairro onde o sonho aconteceu: a Mouraria. Ali, no Martim Moniz, nascia em 1974 num velho barracão desmontável, com palco, camarins e plateia para setecentas pessoas, antes pertença da companhia de teatro itinerante Rafael de Oliveira, o sonho de fazer um trabalho diferente e inovador ao nível do Teatro de Revista. Já antes, no Parque Mayer, tradicional habitat deste género teatral, se havia tentado, com sucesso, revolucionar a Revista (“É o fim da macacada!”, “Pró Menino e prá Menina”) a nível dos textos e da estética, se bem que limitado pela censura que o decrépito regime político, de então, impunha. Libertado o país era possível levar por diante o sonho de quantos fundaram o Adóque, com Francisco Nicholson, Mário Alberto e Fernando Lima como timoneiros. Até o modo de funcionamento da companhia se queria diferente: era uma cooperativa de trabalhadores do espectáculo.

Os primeiros e gloriosos tempos não terão sido fáceis mas proporcionaram memórias hilariantes e inesquecíveis, agora registadas em livro, como a de chover dentro do teatro com o espectáculo em cena: “…aconteceu, muitas vezes, estar a chover e termos espectadores na sala com guarda-chuvas abertos. Por outro lado, como as cadeiras eram muito estreitas, havia pessoas que se levantavam e levavam com elas as cadeiras de lona, de tão apertadas que estavam”. Mas o público esgotava lotações, noite após noite, em duas sessões, três em sendo Domingo. Era um tempo diferente na história da Revista. Alternativo e revolucionário em relação ao que se fazia no Parque Mayer, pelos textos, muito actuantes ao nível da crítica social e política, pela estética, pela encenação, pelo conjunto de quantos trabalhavam em palco e fora dele. Com a Magda Cardoso, companheira de Nicholson de uma vida, o bailado entra na Revista, de forma exigente, criativa, empolgante, tão diferente do que até ali se havia visto ao nível das coreografias. O livro de Luciano Reis procura não esquecer quem fez o Adóque entre 1974 e 1982, entre actores, bailarinos, autores,músicos, coreógrafos, cenógrafos, encenadores, aderecistas, costureiras, técnicos…e muitos outros oficiantes.

Orgulho-me de ter feito parte dessa História por dois anos. Apenas dois anos (1978 e 1979) que, contudo, me deixaram marcas muito precisas ao nível das memórias e dos afectos. Não me lembro como fui lá parar, mas já fazia teatro ao nível dos Grupos Independentes que brotaram com a Revolução. Talvez tenha ido oferecer os meus tímidos préstimos, ansioso que estava por experimentar a Revista, ali no Martim Moniz. Já não chovia dentro do barracão, haviam passados quatro anos de salas cheias e sonoras gargalhadas, pelo que a precária construção havia ganho pintura nova, plateia fixa e uma ou outra comodidade como que a dar-lhe ares “de cousa definitiva”. Lembro-me é do calor, insuportável, e logo eu que quase me apago em se chegando aos trinta graus. Ponha-lhe, agora, dez em cima, ou mais (upa! upa!) que o telhado do teatro era em chapa zincada, concentrando assim, no interior, toda a temperatura de um Verão escaldante. Por alguma razão os jornais do Adóque eram vendidos na sala, antes do espectáculo começar, apregoando-se a sua dupla função de programa e de abanico.

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(da fila da frente, sou o que tem uma espécie de garrafão na cabeça!)

Fotos de Carlos Queiroz (actor, também passou pelo Adóque)

O que suámos naquele “Fardos e Guitarradas”, de 1978, não só pelas mudanças de cena, habituais em Revista, mas sobretudo pelo grande final do segundo acto, quando em palco se recriava a empolgante cena do filme “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, de Steven Spielberg (filme sensação de então), na qual se estabelece o “diálogo” entre humanos e extra-terrestres através da melodia das “cinco notas”. Também naquele palco pousava uma nave tremeluzente, e dela saía todo o elenco vestido com fatos brancos feitos de plástico, plástico sim, que a arte do teatro é essa do “fazer de conta”. A ideia era parecermos seres chegados do espaço, ainda que à custa de muitos suores. Sempre que recordo a cena, pasmo pelo quanto se conseguia fazer naquele palco sem grande teia e fundura.

Era, igualmente, surpreendente o final do primeiro acto, numa homenagem à Ópera, através das suas árias mais famosas, com Leónia Mendes, (esta Revista marcou o seu regresso aos palcos) em “Madame Butterfly”, Ermelinda Duarte em “Traviata”, Magda Cardoso, em “Carmen”, Henrique Viana, em “Barbeiro de Sevilha”, Celso Sacavém em “I Pagliacci”, Daniel Garcia em “Rigoletto”… O pano de boca de cena abria para dar lugar a uma suposta cortina pintada com cenas das referidas óperas, digo suposta porque era, sim, um puzzle gigante, cujas peças se destacavam para dar entrada às diversas personagens. Num segundo momento do final, todo esse puzzle desaparecia e a cena abria-se em feéricos elementos decorativos que apelavam à nossa identidade, para logo entrar todo o corpo de baile fandangando, perante o pasmo do público. Como se isto não bastasse havia ainda uma terceira mudança de cena, quando todos os painéis laterais se viravam e do alto desciam colunatas e dos bastidores entravam estátuas e esfinges deixando em segundos o palco transformado no Egipto da “Aída”, de Verdi. Era o delírio!! Era então que eu entrava em cena com o mais do elenco para a apoteose final. Ninguém, na plateia, entendia como era possível tanto aparato num palco manifestamente acanhado para tal. No Adóque faziam-se verdadeiros milagres cenográficos, mérito de grandes talentos como o de Maria Helena Reis, no caso concreto desta Revista. Era mesmo “meter o Rossio na rua da Betesga!”. Curioso é estar aqui a lembrar-me desses tempos de trás para a frente, já que a abertura da Revista também impressionava. Todo o palco se enchia com as personagens dos Marretas, recriando-se o genérico do famoso programa de televisão que fazia, na altura , as delícias dos espectadores da RTP. Terminado o impactante número de abertura, do lado esquerdo do palco apareciam, numa frisa cenografada, os célebres velhos dos Marretas, ali interpretados pela Maria Tavares, vedeta de Revista e por mim próprio, mero aprendiz. Éramos nós quem fazíamos as ligações entre os números de grande parte do primeiro acto. E foi um sucesso, pela graça dos textos, pelas máscaras em látex que usávamos, num brilhante trabalho do caracterizador Luís Matos e pela cumplicidade e generosidade da Maria para comigo, permitindo-me saborear e trabalhar o boneco, noite após noite.

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(Na foto da primeira página do jornal/programa, sou o terceiro, do lado esquerdo, no número 9, o dos óculos grandes, ao lado do Camacho Costa, no número 1).

“Fardos e Guitarradas” foi, acima de tudo, uma Revista de grande espectacularidade ao nível dos cenários e dos figurinos, que terá exigido um avultado orçamento que duvido tenha sido pago na sua totalidade. Talvez por isso o espectáculo seguinte, “1926 noves fora nada”, se tenha revelado mais modesto do ponto de vista visual, fazendo por isso uso de soluções menos espaventosas mas criativas e engenhosas. Se me perguntasse qual dos dois espectáculos mais gostei de fazer, não hesitaria em lhe responder que foi este último. Incompreendido e pouco apoiado, na altura, pelo público que anteriormente havia esgotado lotações meses a fio, “1926 noves fora nada” era um espectáculo inovador, situando-se entre os conceitos da Revista tradicional e do grande musical. Recuperaram-se canções da Revista dos anos vinte e trinta , grandes êxitos como “Dia da Espiga” (recriada pela Ermelinda Duarte) “Hotel do Pinho” (pela Esmeralda Amoedo, ” Rita e Manecas” (pela Magda Cardoso e Henrique Viana) e o texto muito bem carpinteirado juntava no palco figuras tão díspares como Gomes da Costa e a Severa. Ana Bola estreava-se então no teatro e o mesmo se pode dizer de Camacho Costa, grande amante do Adóque e até ali crítico de cinema. Este espectáculo também marcaria a estreia da Dulce Guimarães, não fosse uma escarlatina atirá-la para uma cama do hospital a poucos dias da estreia. Foi então chamada para a substituir Lurdes Feio, (primeira mulher do António) jornalista de um semanário de boa memória:”O Jornal”. Recordo-me de quando eu e Ana Bola chegávamos ao teatro e íamos à bilheteira para saber como estava a casa e era a mãe da Helena Isabel quem nos dizia “esta noite está fraca!”. Não entendíamos como um espectáculo daqueles não colhia os favores do público até ali tão fiel aos projectos do Adóque. Talvez que “1926 noves fora nada” tenha sido penalizado pelo seu próprio vanguardismo, prova de que, infelizmente, nem sempre a qualidade triunfa.

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Quase quarenta anos depois, o que ficou desta experiência, no palco do protesto e da liberdade? O respeito por toda uma equipa criativa e combativa. O fascínio por um homem (Francisco Nicholson) que me havia habituado a admirar na televisão, sem perceber que ele estava a ajudar a formatar o ser que hoje sou. O amor profundo que mantenho pela Ermelinda Duarte e pela Magda Cardoso. Tantas vezes as recordo, partilhando comigo as suas receitas, os seus saberes, os seus afectos. A elas devo em grande parte a Luz que quis para a minha Vida. Obrigado a todos!

Por tudo isto foi bom ter ontem regressado ao (meu) passado.

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Fotos do lançamento do livro “Teatro Adóque – História de um sonho teatral”, de Luciano Reis, ontem na Associação “Renovar a Mouraria”.

9 comentários a “História de um sonho teatral

  1. Joaquim Castelo

    Boa Tarde
    Parabéns pelo bonito texto
    Amei participar na capa e depoimento deste pequeno e Grande Livro, sobre a História do Saudoso Teatro ÁDÓQUE
    Abraço
    Viva o Teatro ÁDÓQUE
    Viva o TEATRO DE REVISTA

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  2. Carla

    Manuel
    Permita-me umas palavras para o Carlos Queiroz.
    Carlos às vezes existem esquecimentos que não são feitos de propósito, dizem que depois de terminar de construir uma casa é que a deviamos começar. Tenho a certeza que o seu último trabalho foi reconhecido, valorizado. Não fique triste , sei que gostamos de ser reconhecidos mas o importante é termos consciência do que valemos, que o que fazemos é por amor, realização pessoal acima de tudo. Quantas pessoas com grandes feitos, só foram reconhecidas depois postumo? Muitas.
    Desejo muito sucesso em Inglaterra, mas que volte rápido ao seu país onde possa aplicar a sua creatividade.

    Abraço
    Carla

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  3. Carlos Queiroz

    Eu acabo de ler aquilo que o Manuel Luis Goucha escreveu na sua página “Cabaré do Goucha.
    E gosto da análise e dos seu comentários sobre aquela que foi um dos mais inovadoras e carismática das companhias de teatro em Portugal após o 25 de Abril, do qual tal como eu também fiz parte.
    O livro agora lançado conta essa história de uma maneira informativa e pessoal, com muitos depoimentos dos que ali trabalharam e assistiram a espectáculos, e também imagens referentes à sua existência.
    Curiosamente para mim, que também estive no lançamento deste livro no passado sábado, fiquei um pouco triste, porque em parte nenhuma deste livro me é dado o crédito do meu ultimo trabalho para esta companhia antes da minha partida para Inglaterra onde trabalhei por mais de 30 anos e onde continuo a viver periodicamente e a trabalhar.
    O que me leva a escrever sobre esta omissão, é o facto de que ao ler as páginas de créditos e agradecimentos neste livro, me ter sido omitido (julgo que por acidente), um crédito na Cenografia, que foi o meu ultimo trabalho no Ádóque, antes da minha partida.
    Fui eu que concebi e desenhei visualmente, mecânica técnica e dirigi a execução para o final da revista ‘Fardos e Guitarradas’, a que o Manuel Luis Goucha se refere na sua análise, em que uma nave espacial, percorria a totalidade do auditório sobre os espectadores ao encontro da nave mãe, que descia no palco, e de onde a companhia saía por uma rampa metalica, fortemente iluminada em contra-luz, numa alegoria ao filme ‘Encontros Imediatos do Terceiro Grau’. Que eu tinha visto no écran e que a direção do Ádóque me deu a oportunidade de assinar como minha ultima contribuição para a companhia, e de que ainda hoje tenho os desenhos originais deste projeto
    Eu sei que isto não é importante, na grande ordem das muitas coisas que se fizeram ao longo dos anos no Ádóque, por grandes artistas plásticos de nome. Mas para mim, este final, representou a abertura de uma nova actividade teatral, que me impulsionou, para outros projectos cenográficos e de produção em Inglaterra, e de que ainda hoje me continua a dar emprego e me deixa contribuir para as artes, em Teatro, Bailado e Opera, mesmo que tenha de ser somente fora do meu País.
    Também quero agradecer ao Manuel Luis Goucha o crédito que me é dado por algumas das fotografias que ilustram a sua página.
    Obrigado por o teu artigo e por ajudares a manter viva a memória do Ádóque.
    Carlos Queiroz

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    1. MLG

      Obrigado Carlos. Realmente eu achava que estavas ligado ao final do segundo acto da revista “Fardos e Guitarradas” mas não tinha a certeza seque forma, por isso optei por nada dizer sobre isso. Gostei muito de te ver. Um grande abraço

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  4. Carla

    Manuel
    Um lançamento original repleto de caras conhecidas, com algum semblante triste, próprio de quem perde pessoas de quem se gosta.

    NB- Gostei de ontem o ouvir dizer, que não quer perder a criança que existe dentro de si.
    Segundo Jaime Milheiro ( psicanalista ) todos temos uma criança dentro de nós.

    Abraço
    Carla

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  5. Luciano Reis

    Obrigado caro amigo Manuel Luís Goucha pela sua presença no lançamento do livro “Teatro Ádóque (1974-1982) História Dum Sonho Teatral”; pela apoio que deu na sua divulgação e pela escrita e divulgação deste maravilhoso texto.
    Um forte abraço do,
    Luciano Reis

    Responder
    1. MLG

      Obrigado Luciano. Este o texto que deveria ter escrito para o livro mas que por falta de disponibilidade não foi possível escrever. Não acontecerá o mesmo com o vosso livro sobre a Companhia Teatro Estúdio de Lisboa. A reportagem irá para o ar dia 29 de Abril. Um abraço

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