Na Quinta das Lágrimas

É o hotel que sempre escolho quando me fico por Coimbra. Tem história antiga que nos leva aos trágicos amores de Pedro e Inês, já que se diz que seria nas matas da Quinta, então coutadas de caça da Família Real, que se encontravam em segredo. Inês residia no Paço do Convento de Santa-Clara-a-Velha ali a não mais de quinhentos metros. Mas se os amores proibidos de Pedro e Inês marcam para sempre o imaginário popular ligado ao local, a ponto de se dizer que eram as águas que brotam da Fonte dos Amores que levavam as cartas de Pedro, postas em barquinhos de madeira, até às mãos da sua amada, certo é que de muitas outras memórias se faz a sua história. Arthur Wellesley, o duque de Wellington, figura essencial no combate às tropas de Napoleão, por aqui passou tendo-se também ele encantado pela Quinta e toda a sua envolvência. Do Palácio construído no século XVIII e pertença desde então da família dos actuais proprietários apenas existe a parte de trás, em virtude de um incêndio ocorrido em 1879 e que levou a grandes obras de reconstrução. Muito mais tarde, quando a Casa passa a Hotel, houve que ampliar o Palácio através de uma obra de arquitectura de autor,tendo sido escolhido para o efeito o celebrado Gonçalo Cyrne. Ao Palácio junta-se assim um outro edifício em linhas depuradas e em perfeita harmonia com todo o espaço exterior onde o verde e a água são elementos primordiais. A ligar os dois módulos, digamos assim, uma galeria, como que um corredor do tempo, onde, novamente, são Pedro e Inês a guiar-nos através das mais diversas obras de arte.

Fico-me sempre por uma questão de gosto por uma das suítes do Palácio que é como ficar em casa, entre a biblioteca, impressionante, a obrigar-me à pesquisa e leitura por uns bons pares de horas em véspera de Natal, e os salões, se bem que em termos de comodidade e elegância qualquer uma das ofertas do edifício moderno não seja de desprezar. O restaurante apresenta uma cozinha de autor inspirada e sensata, nota maior para uma barriga de leitão a apresentar-se estaladiça de babar, com chips perfumadas de paprika, e uma tarte tatin deliciosa, não digo porém que seja melhor que a de cá de casa só porque a que o Rui faz é mesmo de mestre, isto para referir apenas duas das sugestões provadas e que a carta exibe. Pode em tudo contar com um atendimento acolhedor e profissional.

O mais é passear pelo muito que a Quinta oferece entre luxuriosos jardins e a mata e ir à descoberta da cidade de doutores e futricas, a começar pelo lado de cá, onde nos encontramos, com o Convento de Santa-Clara-a-Velha, verdadeira jóia do gótico português do século XIII, onde Isabel de Aragão se recolheu quando enviuvou de Dinis, único rei de seu nome, sem esquecer que no cimo da colina outro Convento fica, o de Santa-Clara-a-Nova, onde a Rainha Santa repousa e de onde sai a sua imagem, em anos pares para em festa visitar a lado de lá, onde muitos outros monumentos se concentram, da Baixa, como a Igreja de Santa Cruz, de São Tiago, do Carmo…à Alta, como a Sé Nova, a vetusta Universidade, berço de sabedoria, o Museu Machado de Castro…Com ganas fiquei de voltar em breve para passear com tempo pela cidade e também pelas memórias da minha infância.

www.quintadaslagrimas.pt

 

3 comentários a “Na Quinta das Lágrimas

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