Viagem ao (meu) passado!

Viagem ao (meu) passado!

Começo por dizer que não sou especialista em nada disto; escrevo apenas como quem conversa com um amigo. É um daqueles casos em que a memória faz o seu trabalho e devolve imagens que pensávamos perdidas. Por isso mesmo resolvi escrever sobre «Viagem ao (meu) passado», sem rodeios e sem grandes pretensões.

Do lado de dentro

Ficou-me a mania de guardar bilhetes, papéis e coisas sem valor nenhum. Voltar a esses lugares é sempre um pouco mais difícil do que pensei. A memória é um lugar estranho: guarda pormenores insignificantes e esquece coisas que julgávamos importantes. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia.

Tenho uma fotografia já amarelada onde se adivinham caras que hoje só existem em mim. Aprendi que a saudade não é tristeza, é uma forma de ternura. Com o tempo percebi que também os silêncios contam histórias. É por isso que insisto em contá-las, mesmo que só para mim.

Fecho os olhos e volto a ver tudo com a nitidez de quem esteve lá esta manhã. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. Guardo na cabeça retalhos de conversas que não sei datar. Talvez seja simples, mas é verdadeiro.

Sem pressas nem pressões

A minha memória é feita de gestos pequenos, não de grandes acontecimentos. Aquilo que me marcou não foi o que me deram, mas a forma como me trataram. Há um cheiro a pão quente que me devolve, de imediato, a uma cozinha que já não existe. Ninguém me explicava nada, e eu ia aprendendo a olhar.

Escrevo isto para que não se perca, para que fique em algum lado. Passaram anos, mudaram as casas, mudaram os nomes, mas o essencial ficou igual. Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Rir à gargalhada por pouco era o exercício favorito daquela casa.

Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade. E, no entanto, é bom saber que estão lá, ainda que só dentro de mim. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa. Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça.

Onde tudo começa

Aqueles dias pareciam não ter fim, e ainda assim acabaram depressa. Recordo a luz que entrava pela janela ao meio da tarde e que fazia poeira suspensa no ar. Havia sempre uma voz a chamar pelo meu nome, e a certeza de que estava tudo bem. Fico com a impressão de que tudo se encaixa quando paramos para pensar.

As histórias repetiam-se, e nós pedíamos sempre para as ouvir de novo. Entre o que recordo e o que imagino já não sei bem onde está a fronteira. Descobri que recordar é uma forma de agradecer. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez.

Havia sempre uma cadeira vazia à espera de alguém que chegava tarde. Lembro-me do som da porta a fechar-se e do cheiro do chão encerado, como se fosse ontem. Os objetos guardam memória, e há os que eu não consigo deitar fora. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam.

  • Um cheiro que abre a porta do passado
  • Uma carta escrita à mão e ainda dobrada
  • Um lugar que continua igual por dentro de nós
  • Uma receita copiada num papel já gasto
  • Um objeto que pertencia a alguém da família
  • Uma fotografia antiga guardada numa gaveta

Aquilo de que me lembro

Sinto que devo estas lembranças a quem as viveu comigo. É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos. Costumávamos sentar-nos todos à mesma mesa, e isso hoje parece um luxo. Nada era perfeito, e talvez fosse essa imperfeição que nos aproximava.

As coisas mais vivas da minha memória não têm datas nem nomes, têm sensações. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa. Aqueles dias pareciam não ter fim, e ainda assim acabaram depressa.

Sinto que devo estas lembranças a quem as viveu comigo. Recordo a luz que entrava pela janela ao meio da tarde e que fazia poeira suspensa no ar. Ninguém me explicava nada, e eu ia aprendendo a olhar. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia.

Aquele verãoAlegria
Aquela casaTernura
Aquela conversaSaudade
Aquele silêncioPaz
O que recordoO que sinto

Por outras palavras

Havia sempre uma voz a chamar pelo meu nome, e a certeza de que estava tudo bem. Os objetos guardam memória, e há os que eu não consigo deitar fora. Aprendi que a saudade não é tristeza, é uma forma de ternura. Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça.

A vida é feita destas pequenas coisas que se somam. Rir à gargalhada por pouco era o exercício favorito daquela casa. Entre o que recordo e o que imagino já não sei bem onde está a fronteira. Há um cheiro a pão quente que me devolve, de imediato, a uma cozinha que já não existe.

Escrevo isto para que não se perca, para que fique em algum lado. Ficou-me a mania de guardar bilhetes, papéis e coisas sem valor nenhum. As coisas mais vivas da minha memória não têm datas nem nomes, têm sensações. Aquilo que me marcou não foi o que me deram, mas a forma como me trataram.

O que mudou desde então

Voltar a esses lugares é sempre um pouco mais difícil do que pensei. Costumávamos sentar-nos todos à mesma mesa, e isso hoje parece um luxo. Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Tenho uma fotografia já amarelada onde se adivinham caras que hoje só existem em mim.

A minha memória é feita de gestos pequenos, não de grandes acontecimentos. Havia sempre uma cadeira vazia à espera de alguém que chegava tarde. Lembro-me do som da porta a fechar-se e do cheiro do chão encerado, como se fosse ontem. Descobri que recordar é uma forma de agradecer.

As histórias repetiam-se, e nós pedíamos sempre para as ouvir de novo. Talvez seja simples, mas é verdadeiro. É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos. Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade.

Guardei tudo aqui, com cuidado.