Bichos a monte!

Bichos a monte!

Começo por dizer que não sou especialista em nada disto; escrevo apenas como quem conversa com um amigo. Fico sempre com a sensação de que vale a pena olhar duas vezes antes de tirar conclusões. Fica então esta conversa sobre «Bichos a monte», para ser lida com a leveza com que foi escrita.

O caminho até lá

Cheguei sem grande plano, apenas com a curiosidade de quem gosta de descobrir ao ritmo dos próprios passos. Regressei a casa com a roupa a cheirar a campo e a cabeça cheia de imagens. Voltei a pé pelo mesmo caminho, agora com outros olhos e com o coração mais leve. Há lugares assim: não nos agarram pelo espetáculo, agarram-nos pela verdade.

O que mais me agradou foi a forma despretensiosa como tudo me foi apresentado. À noite, as luzes ligam-se devagar e a rua ganha um ar de festa discreta. Prometi a mim mesmo voltar numa outra estação do ano, para ver tudo diferente. Fico com a impressão de que tudo se encaixa quando paramos para pensar.

A paisagem abre-se de repente e obriga a respirar fundo, como se o corpo pedisse mais espaço. Sentei-me à sombra e fiquei a ver as pessoas passarem, cada uma com o seu destino. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás.

O tempo que por lá passei

Não havia multidões, não havia filas, e isso tornou tudo mais fácil de apreciar. Anotei numa página de guardanapo três coisas que não queria esquecer, e ainda hoje as leio. Guardei um pedaço de pão para os pombos, como fazia em criança, sem pensar muito nisso. O lugar não é espetacular, e talvez seja exatamente por isso que me conquistou.

Comprei um pequeno objeto de artesanato, não por ser preciso, mas para guardar memória. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam. O cheiro a lenha queimada acompanhou-me durante boa parte do trajeto. Há uma serenidade nestes sítios que nenhuma cidade grande consegue imitar.

Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Percorri ruas estreitas, subi escadas gastas pelo tempo e fui reparando nas casas de pedra e nas janelas floridas. Há uma relação de proximidade entre as pessoas que se nota logo: cumprimentam-se, perguntam, param para conversar. Falei com uma senhora que vendia doces e que me contou a história da sua família em poucos minutos.

Onde me perdi e me encontrei

O silêncio da manhã só era quebrado por um ou outro carro e pelo canto dos pássaros nos telhados. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. Aprendi que um lugar se conhece melhor a pé do que de qualquer outra forma. Fotografei portas, números de polícia, azulejos e um cão que dormia ao sol sem se incomodar com nada.

O céu ao fim do dia pintou-se de tons quentes, como se quisesse despedir-se devagar. Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade. Andei bastante, cansei-me, e no fim sentei-me num banco de jardim a ver o movimento. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa.

  • Provar a doçaria local antes de sair
  • Fotografar os detalhes mais do que os panoramas
  • Escolher uma rua ao acaso e segui-la até ao fim
  • Guardar um objeto pequeno como recordação
  • Falar com quem vive no lugar, não só com os guias
  • Levar calçado confortável e não contar os passos

Um detalhe que me marcou

Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça. Um café tomado de pé, à porta de um estabelecimento antigo, soube-me melhor do que qualquer refeição elaborada. Percebi que viajar não é colecionar pontos num mapa, é deixar que o sítio nos mude um pouco. Fico sempre a pensar em quem por ali passou antes de mim, a construir vidas com muito menos do que temos hoje.

O lugar tem uma luz própria, daquelas que obrigam a parar e a tirar o telemóvel do bolso. Talvez seja simples, mas é verdadeiro. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia. Fica a certeza de que os melhores momentos são quase sempre os que não estavam planeados.

Café antigoAconchego
Rua estreitaCuriosidade
JardimPaz
O que viO que senti
Praça amplaTranquilidade

Entre o dito e o sentido

É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos. As paredes caiadas brilhavam ao sol e davam ao conjunto um ar limpo e arrumado. Falei com uma senhora que vendia doces e que me contou a história da sua família em poucos minutos. Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça.

Percorri ruas estreitas, subi escadas gastas pelo tempo e fui reparando nas casas de pedra e nas janelas floridas. Fico sempre a pensar em quem por ali passou antes de mim, a construir vidas com muito menos do que temos hoje. Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade.

Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso. Anotei numa página de guardanapo três coisas que não queria esquecer, e ainda hoje as leio.

Fica a promessa

Voltei a pé pelo mesmo caminho, agora com outros olhos e com o coração mais leve. Não havia multidões, não havia filas, e isso tornou tudo mais fácil de apreciar. A paisagem abre-se de repente e obriga a respirar fundo, como se o corpo pedisse mais espaço. O que mais me agradou foi a forma despretensiosa como tudo me foi apresentado.

Há uma serenidade nestes sítios que nenhuma cidade grande consegue imitar. O céu ao fim do dia pintou-se de tons quentes, como se quisesse despedir-se devagar. Andei bastante, cansei-me, e no fim sentei-me num banco de jardim a ver o movimento. Um café tomado de pé, à porta de um estabelecimento antigo, soube-me melhor do que qualquer refeição elaborada.

É destes lugares que a gente não esquece.