Há assuntos que me acompanham há muito tempo e que merecem ser contados com calma, sem pressas e sem ruído. Pode parecer pouco, mas para mim é bastante: é assim que se constrói uma opinião com paciência. Daí este apontamento sobre «O Hotel em Ascot».
Um ponto de partida
Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Falei com uma senhora que vendia doces e que me contou a história da sua família em poucos minutos. Não havia multidões, não havia filas, e isso tornou tudo mais fácil de apreciar. Percorri ruas estreitas, subi escadas gastas pelo tempo e fui reparando nas casas de pedra e nas janelas floridas.
Sentei-me à sombra e fiquei a ver as pessoas passarem, cada uma com o seu destino. À noite, as luzes ligam-se devagar e a rua ganha um ar de festa discreta. Há uma relação de proximidade entre as pessoas que se nota logo: cumprimentam-se, perguntam, param para conversar. O cheiro a lenha queimada acompanhou-me durante boa parte do trajeto.
Fica a certeza de que os melhores momentos são quase sempre os que não estavam planeados. Anotei numa página de guardanapo três coisas que não queria esquecer, e ainda hoje as leio. Comprei um pequeno objeto de artesanato, não por ser preciso, mas para guardar memória. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia.
O que trago comigo
Percebi que viajar não é colecionar pontos num mapa, é deixar que o sítio nos mude um pouco. Prometi a mim mesmo voltar numa outra estação do ano, para ver tudo diferente. O lugar tem uma luz própria, daquelas que obrigam a parar e a tirar o telemóvel do bolso. Há uma serenidade nestes sítios que nenhuma cidade grande consegue imitar.
Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. Guardei um pedaço de pão para os pombos, como fazia em criança, sem pensar muito nisso. As paredes caiadas brilhavam ao sol e davam ao conjunto um ar limpo e arrumado. É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos.
Regressei a casa com a roupa a cheirar a campo e a cabeça cheia de imagens. Voltei a pé pelo mesmo caminho, agora com outros olhos e com o coração mais leve. A paisagem abre-se de repente e obriga a respirar fundo, como se o corpo pedisse mais espaço. Andei bastante, cansei-me, e no fim sentei-me num banco de jardim a ver o movimento.
Sem pressas nem pressões
Aprendi que um lugar se conhece melhor a pé do que de qualquer outra forma. Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade. Talvez seja simples, mas é verdadeiro. O silêncio da manhã só era quebrado por um ou outro carro e pelo canto dos pássaros nos telhados.
O que mais me agradou foi a forma despretensiosa como tudo me foi apresentado. Um café tomado de pé, à porta de um estabelecimento antigo, soube-me melhor do que qualquer refeição elaborada. O céu ao fim do dia pintou-se de tons quentes, como se quisesse despedir-se devagar. Fico sempre a pensar em quem por ali passou antes de mim, a construir vidas com muito menos do que temos hoje.
- Guardar um objeto pequeno como recordação
- Fotografar os detalhes mais do que os panoramas
- Falar com quem vive no lugar, não só com os guias
- Levar calçado confortável e não contar os passos
- Provar a doçaria local antes de sair
- Escolher uma rua ao acaso e segui-la até ao fim
Coisas que aprendi
O lugar não é espetacular, e talvez seja exatamente por isso que me conquistou. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. Fico com a impressão de que tudo se encaixa quando paramos para pensar. Cheguei sem grande plano, apenas com a curiosidade de quem gosta de descobrir ao ritmo dos próprios passos.
Há lugares assim: não nos agarram pelo espetáculo, agarram-nos pela verdade. Fotografei portas, números de polícia, azulejos e um cão que dormia ao sol sem se incomodar com nada. Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso.
| Rua estreita | Curiosidade |
|---|---|
| Café antigo | Aconchego |
| Mercado | Vida |
| Praça ampla | Tranquilidade |
| O que vi | O que senti |
Notas à margem
A vida é feita destas pequenas coisas que se somam. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa. Percebi que viajar não é colecionar pontos num mapa, é deixar que o sítio nos mude um pouco. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso.
A paisagem abre-se de repente e obriga a respirar fundo, como se o corpo pedisse mais espaço. Falei com uma senhora que vendia doces e que me contou a história da sua família em poucos minutos. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. O silêncio da manhã só era quebrado por um ou outro carro e pelo canto dos pássaros nos telhados.
Um olhar mais demorado
À noite, as luzes ligam-se devagar e a rua ganha um ar de festa discreta. O céu ao fim do dia pintou-se de tons quentes, como se quisesse despedir-se devagar. Há uma serenidade nestes sítios que nenhuma cidade grande consegue imitar. O cheiro a lenha queimada acompanhou-me durante boa parte do trajeto.
Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. Cheguei sem grande plano, apenas com a curiosidade de quem gosta de descobrir ao ritmo dos próprios passos. Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Talvez seja simples, mas é verdadeiro.
Mais uma nota
Fico sempre a pensar em quem por ali passou antes de mim, a construir vidas com muito menos do que temos hoje. O silêncio da manhã só era quebrado por um ou outro carro e pelo canto dos pássaros nos telhados. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso. Percebi que viajar não é colecionar pontos num mapa, é deixar que o sítio nos mude um pouco.
É destes lugares que a gente não esquece.



