Quando me pedem para falar deste assunto, percebo logo que tenho mais coisas para dizer do que imaginava. Faz parte daqueles temas sobre os quais volto sempre, mesmo quando julgo que já disse tudo. Por isso mesmo resolvi escrever sobre «Tudo por causa de uma fatia de bolo», sem rodeios e sem grandes pretensões.
O caminho até lá
Falei com uma senhora que vendia doces e que me contou a história da sua família em poucos minutos. Prometi a mim mesmo voltar numa outra estação do ano, para ver tudo diferente. Fotografei portas, números de polícia, azulejos e um cão que dormia ao sol sem se incomodar com nada. Guardei um pedaço de pão para os pombos, como fazia em criança, sem pensar muito nisso.
Regressei a casa com a roupa a cheirar a campo e a cabeça cheia de imagens. Há lugares assim: não nos agarram pelo espetáculo, agarram-nos pela verdade. As paredes caiadas brilhavam ao sol e davam ao conjunto um ar limpo e arrumado. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam.
Fico com a impressão de que tudo se encaixa quando paramos para pensar. Fica a certeza de que os melhores momentos são quase sempre os que não estavam planeados. É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos. Um café tomado de pé, à porta de um estabelecimento antigo, soube-me melhor do que qualquer refeição elaborada.
O essencial, afinal
Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. Há uma relação de proximidade entre as pessoas que se nota logo: cumprimentam-se, perguntam, param para conversar. Não havia multidões, não havia filas, e isso tornou tudo mais fácil de apreciar.
O lugar tem uma luz própria, daquelas que obrigam a parar e a tirar o telemóvel do bolso. À noite, as luzes ligam-se devagar e a rua ganha um ar de festa discreta. O silêncio da manhã só era quebrado por um ou outro carro e pelo canto dos pássaros nos telhados. Percorri ruas estreitas, subi escadas gastas pelo tempo e fui reparando nas casas de pedra e nas janelas floridas.
Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade. A paisagem abre-se de repente e obriga a respirar fundo, como se o corpo pedisse mais espaço. Voltei a pé pelo mesmo caminho, agora com outros olhos e com o coração mais leve. Andei bastante, cansei-me, e no fim sentei-me num banco de jardim a ver o movimento.
O tempo que por lá passei
O cheiro a lenha queimada acompanhou-me durante boa parte do trajeto. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. Anotei numa página de guardanapo três coisas que não queria esquecer, e ainda hoje as leio. Percebi que viajar não é colecionar pontos num mapa, é deixar que o sítio nos mude um pouco.
Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça. O que mais me agradou foi a forma despretensiosa como tudo me foi apresentado. Cheguei sem grande plano, apenas com a curiosidade de quem gosta de descobrir ao ritmo dos próprios passos. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa.
Há uma serenidade nestes sítios que nenhuma cidade grande consegue imitar. O céu ao fim do dia pintou-se de tons quentes, como se quisesse despedir-se devagar. Talvez seja simples, mas é verdadeiro. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso.
- Fotografar os detalhes mais do que os panoramas
- Falar com quem vive no lugar, não só com os guias
- Parar sempre que apetecer, sem olhar ao relógio
- Provar a doçaria local antes de sair
- Escolher uma rua ao acaso e segui-la até ao fim
- Guardar um objeto pequeno como recordação
Um ponto de partida
Sentei-me à sombra e fiquei a ver as pessoas passarem, cada uma com o seu destino. Comprei um pequeno objeto de artesanato, não por ser preciso, mas para guardar memória. Aprendi que um lugar se conhece melhor a pé do que de qualquer outra forma. Fico sempre a pensar em quem por ali passou antes de mim, a construir vidas com muito menos do que temos hoje.
O lugar não é espetacular, e talvez seja exatamente por isso que me conquistou. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia. Prometi a mim mesmo voltar numa outra estação do ano, para ver tudo diferente. Voltei a pé pelo mesmo caminho, agora com outros olhos e com o coração mais leve.
Fica a certeza de que os melhores momentos são quase sempre os que não estavam planeados. Regressei a casa com a roupa a cheirar a campo e a cabeça cheia de imagens. O cheiro a lenha queimada acompanhou-me durante boa parte do trajeto. Sentei-me à sombra e fiquei a ver as pessoas passarem, cada uma com o seu destino.
| Mercado | Vida |
|---|---|
| Mirante | Deslumbramento |
| Rua estreita | Curiosidade |
| Praça ampla | Tranquilidade |
| Café antigo | Aconchego |
Pequenas notas soltas
Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Aprendi que um lugar se conhece melhor a pé do que de qualquer outra forma. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam. À noite, as luzes ligam-se devagar e a rua ganha um ar de festa discreta.
Cheguei sem grande plano, apenas com a curiosidade de quem gosta de descobrir ao ritmo dos próprios passos. O céu ao fim do dia pintou-se de tons quentes, como se quisesse despedir-se devagar. Percebi que viajar não é colecionar pontos num mapa, é deixar que o sítio nos mude um pouco. O que mais me agradou foi a forma despretensiosa como tudo me foi apresentado.
Anotei numa página de guardanapo três coisas que não queria esquecer, e ainda hoje as leio. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. Falei com uma senhora que vendia doces e que me contou a história da sua família em poucos minutos. Não havia multidões, não havia filas, e isso tornou tudo mais fácil de apreciar.
Aquilo que faz a diferença
Há uma serenidade nestes sítios que nenhuma cidade grande consegue imitar. Fotografei portas, números de polícia, azulejos e um cão que dormia ao sol sem se incomodar com nada. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa. É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos.
A paisagem abre-se de repente e obriga a respirar fundo, como se o corpo pedisse mais espaço. Guardei um pedaço de pão para os pombos, como fazia em criança, sem pensar muito nisso. Há uma relação de proximidade entre as pessoas que se nota logo: cumprimentam-se, perguntam, param para conversar. Um café tomado de pé, à porta de um estabelecimento antigo, soube-me melhor do que qualquer refeição elaborada.
Se puder, hei de regressar sem data marcada.



