O meu presente de aniversário

O meu presente de aniversário

Há dias em que a única coisa que apetece é sentar-me e pôr por escrito o que ando a sentir. Não trago verdades absolutas, trago apenas o meu olhar e aquilo que fui recolhendo pelo caminho. E é precisamente «O meu presente de aniversário» que me traz hoje aqui.

Notas à margem

A minha memória é feita de gestos pequenos, não de grandes acontecimentos. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso. Costumávamos sentar-nos todos à mesma mesa, e isso hoje parece um luxo. Recordo a luz que entrava pela janela ao meio da tarde e que fazia poeira suspensa no ar.

Rir à gargalhada por pouco era o exercício favorito daquela casa. Aqueles dias pareciam não ter fim, e ainda assim acabaram depressa. Com o tempo percebi que também os silêncios contam histórias. É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos.

E, no entanto, é bom saber que estão lá, ainda que só dentro de mim. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia. Escrevo isto para que não se perca, para que fique em algum lado. Voltar a esses lugares é sempre um pouco mais difícil do que pensei.

Sem pressas nem pressões

Ficou-me a mania de guardar bilhetes, papéis e coisas sem valor nenhum. As coisas mais vivas da minha memória não têm datas nem nomes, têm sensações. Talvez seja simples, mas é verdadeiro. Descobri que recordar é uma forma de agradecer.

Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa. Nada era perfeito, e talvez fosse essa imperfeição que nos aproximava. Lembro-me do som da porta a fechar-se e do cheiro do chão encerado, como se fosse ontem. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás.

O que a memória escolheu

É por isso que insisto em contá-las, mesmo que só para mim. Há um cheiro a pão quente que me devolve, de imediato, a uma cozinha que já não existe. Tenho uma fotografia já amarelada onde se adivinham caras que hoje só existem em mim. Guardo na cabeça retalhos de conversas que não sei datar.

Fico com a impressão de que tudo se encaixa quando paramos para pensar. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam. Aquilo que me marcou não foi o que me deram, mas a forma como me trataram. Fecho os olhos e volto a ver tudo com a nitidez de quem esteve lá esta manhã.

Ninguém me explicava nada, e eu ia aprendendo a olhar. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça.

  • Uma receita copiada num papel já gasto
  • Uma fotografia antiga guardada numa gaveta
  • Um cheiro que abre a porta do passado
  • Uma música que devolve um verão inteiro
  • Um lugar que continua igual por dentro de nós
  • Um objeto que pertencia a alguém da família

Entre o dito e o sentido

Sinto que devo estas lembranças a quem as viveu comigo. Havia sempre uma voz a chamar pelo meu nome, e a certeza de que estava tudo bem. Havia sempre uma cadeira vazia à espera de alguém que chegava tarde. As histórias repetiam-se, e nós pedíamos sempre para as ouvir de novo.

Os objetos guardam memória, e há os que eu não consigo deitar fora. Entre o que recordo e o que imagino já não sei bem onde está a fronteira. Aprendi que a saudade não é tristeza, é uma forma de ternura. A memória é um lugar estranho: guarda pormenores insignificantes e esquece coisas que julgávamos importantes.

Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade. Passaram anos, mudaram as casas, mudaram os nomes, mas o essencial ficou igual. É por isso que insisto em contá-las, mesmo que só para mim. Ninguém me explicava nada, e eu ia aprendendo a olhar.

Aquela casaTernura
Aquele gestoGratidão
O que recordoO que sinto
Aquela conversaSaudade
Aquele verãoAlegria

Do lado de dentro

E, no entanto, é bom saber que estão lá, ainda que só dentro de mim. A memória é um lugar estranho: guarda pormenores insignificantes e esquece coisas que julgávamos importantes. Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça. Com o tempo percebi que também os silêncios contam histórias.

Guardo na cabeça retalhos de conversas que não sei datar. Escrevo isto para que não se perca, para que fique em algum lado. Tenho uma fotografia já amarelada onde se adivinham caras que hoje só existem em mim. Talvez seja simples, mas é verdadeiro.

Aprendi que a saudade não é tristeza, é uma forma de ternura. Entre o que recordo e o que imagino já não sei bem onde está a fronteira. As histórias repetiam-se, e nós pedíamos sempre para as ouvir de novo. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia.

O essencial, afinal

Ficou-me a mania de guardar bilhetes, papéis e coisas sem valor nenhum. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso. Descobri que recordar é uma forma de agradecer. Lembro-me do som da porta a fechar-se e do cheiro do chão encerado, como se fosse ontem.

Os objetos guardam memória, e há os que eu não consigo deitar fora. Passaram anos, mudaram as casas, mudaram os nomes, mas o essencial ficou igual. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. Voltar a esses lugares é sempre um pouco mais difícil do que pensei.

Aqueles dias pareciam não ter fim, e ainda assim acabaram depressa. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam. Sinto que devo estas lembranças a quem as viveu comigo. Há um cheiro a pão quente que me devolve, de imediato, a uma cozinha que já não existe.

É desta forma que continuo a agradecer, em silêncio.