Menino Jesus ou Pai Natal?

Menino Jesus ou Pai Natal?

Nem sempre é fácil explicar aquilo que nos toca, mas há temas que pedem apenas sinceridade e um pouco de tempo. Pode parecer pouco, mas para mim é bastante: é assim que se constrói uma opinião com paciência. Daí este apontamento sobre «Menino Jesus ou Pai Natal?».

Coisas que aprendi

Tenho uma fotografia já amarelada onde se adivinham caras que hoje só existem em mim. Não me arrependo de nada, e isso já é uma boa notícia. Voltar a esses lugares é sempre um pouco mais difícil do que pensei. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso.

Lembro-me do som da porta a fechar-se e do cheiro do chão encerado, como se fosse ontem. Talvez seja simples, mas é verdadeiro. É por isso que insisto em contá-las, mesmo que só para mim. Guardo na cabeça retalhos de conversas que não sei datar.

Com o tempo percebi que também os silêncios contam histórias. Vale a pena guardar estas coisas num canto da cabeça. Descobri que recordar é uma forma de agradecer. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam.

Do lado de dentro

E, no entanto, é bom saber que estão lá, ainda que só dentro de mim. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. Passaram anos, mudaram as casas, mudaram os nomes, mas o essencial ficou igual.

A minha memória é feita de gestos pequenos, não de grandes acontecimentos. Deixo-me ficar, às vezes, apenas a observar. Os objetos guardam memória, e há os que eu não consigo deitar fora. As histórias repetiam-se, e nós pedíamos sempre para as ouvir de novo.

Costumávamos sentar-nos todos à mesma mesa, e isso hoje parece um luxo. Entre o que recordo e o que imagino já não sei bem onde está a fronteira. Havia sempre uma voz a chamar pelo meu nome, e a certeza de que estava tudo bem. Escrevo isto para que não se perca, para que fique em algum lado.

Sem pressas nem pressões

Aprendi que a saudade não é tristeza, é uma forma de ternura. Rir à gargalhada por pouco era o exercício favorito daquela casa. Ninguém me explicava nada, e eu ia aprendendo a olhar. Fecho os olhos e volto a ver tudo com a nitidez de quem esteve lá esta manhã.

A memória é um lugar estranho: guarda pormenores insignificantes e esquece coisas que julgávamos importantes. Fico com a impressão de que tudo se encaixa quando paramos para pensar. Havia sempre uma cadeira vazia à espera de alguém que chegava tarde. As coisas mais vivas da minha memória não têm datas nem nomes, têm sensações.

Ficou-me a mania de guardar bilhetes, papéis e coisas sem valor nenhum. Há um cheiro a pão quente que me devolve, de imediato, a uma cozinha que já não existe. Sou pessoa de hábitos, e isso traz-me alguma serenidade. Recordo a luz que entrava pela janela ao meio da tarde e que fazia poeira suspensa no ar.

  • Um objeto que pertencia a alguém da família
  • Uma carta escrita à mão e ainda dobrada
  • Uma fotografia antiga guardada numa gaveta
  • Uma receita copiada num papel já gasto
  • Uma música que devolve um verão inteiro
  • Um cheiro que abre a porta do passado

Um detalhe que me marcou

É bom quando conseguimos nomear aquilo que sentimos. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. Nada era perfeito, e talvez fosse essa imperfeição que nos aproximava. Aqueles dias pareciam não ter fim, e ainda assim acabaram depressa.

Aquilo que me marcou não foi o que me deram, mas a forma como me trataram. Sinto que devo estas lembranças a quem as viveu comigo. Fecho os olhos e volto a ver tudo com a nitidez de quem esteve lá esta manhã. E assim o tempo passa sem que a gente dê por isso.

Passaram anos, mudaram as casas, mudaram os nomes, mas o essencial ficou igual. Sinto que devo estas lembranças a quem as viveu comigo. Costumávamos sentar-nos todos à mesma mesa, e isso hoje parece um luxo. Tenho uma fotografia já amarelada onde se adivinham caras que hoje só existem em mim.

Aquela conversaSaudade
Aquela casaTernura
Aquele verãoAlegria
Aquele gestoGratidão
Aquele silêncioPaz

Olhando para trás

Descobri que recordar é uma forma de agradecer. Nada disto é complicado, mas tudo isto me importa. As coisas mais vivas da minha memória não têm datas nem nomes, têm sensações. Havia sempre uma cadeira vazia à espera de alguém que chegava tarde.

Com o tempo percebi que também os silêncios contam histórias. Havia sempre uma voz a chamar pelo meu nome, e a certeza de que estava tudo bem. Aquilo que me marcou não foi o que me deram, mas a forma como me trataram. É por isso que insisto em contá-las, mesmo que só para mim.

O que mudou desde então

Há um cheiro a pão quente que me devolve, de imediato, a uma cozinha que já não existe. Há sempre um detalhe novo que me escapa na primeira vez. Lembro-me do som da porta a fechar-se e do cheiro do chão encerado, como se fosse ontem. Ninguém me explicava nada, e eu ia aprendendo a olhar.

Ficou-me a mania de guardar bilhetes, papéis e coisas sem valor nenhum. A memória é um lugar estranho: guarda pormenores insignificantes e esquece coisas que julgávamos importantes. Prefiro olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás. As histórias repetiam-se, e nós pedíamos sempre para as ouvir de novo.

E, no entanto, é bom saber que estão lá, ainda que só dentro de mim. Nada era perfeito, e talvez fosse essa imperfeição que nos aproximava. Guardo na cabeça retalhos de conversas que não sei datar. A vida é feita destas pequenas coisas que se somam.

E é bom saber que continua a viver em mim.