
Uma depurada escada metálica em espiral liga os dois mundos, o da tradição de duzentos anos marcados pela história da porcelana em Portugal, corporizado no Palácio de finais do século XVII, que já foi casa de José Ferreira Pinto Basto, fundador em 1824, por alvará régio atribuído por D. João VI, da Fábrica Vista Alegre, e de seis gerações que se lhe seguiram, tendo-se daquele mantido o traçado original, com tectos e rebocos em gesso e pinturas paisagísticas nas paredes, e o da modernidade, através de um edifício contemporâneo de bom gosto e muito cuidado nos detalhes que o decoram, sempre alusivos ao processo da produção da porcelana, desde a modelagem à decoração das peças.
Quem pernoite no “Montebelo Vista Alegre Ílhavo Hotel” tem uma experiência única. Pela oferta e variedade de serviços, pela simpatia de quem ali oficia, a começar pelo director António Machado Matos que foi quem gentilmente nos ciceroneou, pela qualidade das instalações em qualquer um dos edifícios e muito pela sua envolvente, desde a frente com o rio Bouco, um braço da ria de Aveiro, correndo dolente de acordo com as marés, ao Terreiro da Vista Alegre com a Fábrica, em plena e pujante laboração (é possível visitá-la com prévia marcação) e a magnífica Capela consagrada a Nossa Senhora da Penha de França, tida desde 1910 como Monumento Nacional, barroca nos azulejos de setecentos, na talha dourada que veste os altares, nos tectos abobadados pintados a fresco e no magnífico túmulo do seu fundador, D. Manuel Moura Manuel, esculpido em pedra de Ançã por Claude Laprade (escultor provençal que muito contribuiu para a introdução da escultura barroca no nosso país). Também no Terreiro pode visitar o Teatro criado para lazer e entretenimento dos trabalhadores e habitantes do bairro social, mandado construir pela família Pinto Basto para habitação permanente dos seus operários (ainda há famílias de trabalhadores da Vista Alegre que ali vivem sendo que outras casas estão a ser recuperadas para integrarem o complexo hoteleiro) e não pode deixar de entrar no Museu onde se conta toda esta empolgante história de duzentos anos, desde os primeiros vidros feitos na Fábrica, que foi assim que tudo começou, até às mais modernas peças de porcelana assinadas por grandes nomes do design e da moda, nacionais e estrangeiros, celebrando o talento e dedicação de gerações de operários, formados ali, de cujas mãos saíram muitos milhares de peças utilitárias e decorativas que vivem hoje por esse mundo fora nas casas mais galantes e até reais (espanhola, inglesa, portuguesa, monegasca…).
Não vejo a hora de voltar, tão agradado fiquei com o que vi. Faltou acompanhar ao vivo a pintura manual das peças, na oficina do Museu, que era dia de descanso dos operários, e ouvir deles o muito que terão para me contar. A história da Vista Alegre é a história destas mulheres e destes homens e suas famílias. Um património único de memórias e saberes que este hotel tão distinta e engenhosamente enaltece.
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