Uma espectadora irritadiça!

irritadiça

“Estou a ver… estou a adorar… A vossa alegria faz-me falta!”
(Isabel Vaz)

“Tenho por si um apreço que não imagina, sou jovem mas a sua candura
é contagiante. Tenho 28 anos, fui empregada doméstica, durante 11
anos, com muito gosto e brio. Recentemente comecei a estudar e todos
se riem quando digo que sinto imensa falta de si, pela manhã, porque
era a minha companhia em casa das senhoras…”
(Alice Sousa)

“Cristina e Goucha continuem com as vossas palhaçadas. São elas que me
fazem rir todas as manhãs. Preciso de rir, depois de ter estado três
anos em casa, em recuperação de um cancro. Sejam felizes, porque
assim também sou convosco!
(Ana Dias)

Escolhi estas mensagens, ao acaso, entre largas centenas que recebemos diariamente à conta do nosso trabalho televisivo. São elas a razão maior para que continuemos a fazer televisão como a sentimos: um espaço livre para a conversa franca e despretensiosa e onde tudo cabe, até o dislate. Costumo dizer que programas de companhia, como os da manhã e até os tarde, se bem que o universo de quem assista seja um pouco diferente, no horário vespertino, são como contentores, prontos a receber desde o tema mais sério e fracturante, tratado com um único convidado ou ao jeito de debate, até à conversa de “botar fora”, que, por exemplo uma abordagem das noticias da imprensa dita “cor de rosa” propicia. Há lugar para reportagens, retratos da sociedade, divulgação de livros, espectáculos, exposições, consultórios das mais diversas especialidades, curiosidades, mini concertos ou canções avulsas e muito mais… num frenesim, por vezes, de tirar o fôlego. E há a alegria de nos cumprimos no sonho que alimentou parte das nossas vidas, falo por mim que sempre desejei este meu oficio, mas poderia falar, igualmente, pela minha companheira, já que conheço muito do seu sentir de adolescente e cumplicío, vai para treze anos, a garra, a energia e a verdade com que faz televisão. Claro que este particular jeito de apresentar não será consensual, mas será algum? E depois, não procuro (e penso que a Cristina também não) a unanimidade, acho-a mesmo uma maçadoria! Gosto do exercício da provocação, no respeito pelo outro e pelas suas diferenças. E, também por isso, entendo que as criticas podem servir de alerta, de estímulo, até de desafio, para que se melhore a prestação profissional. Uma critica elegante e construtivamente fundamentada leva-me a reflectir (a minha verdade é apenas a minha verdade entre biliões de outras verdades) e não seria a primeira vez que inflectiria a minha forma de pensar e até de agir, à conta de uma opinião adversa. Não cedo é à mentira, ao vitupério ou à humilhação.

Vem este arrazoado a propósito do que se passou na última sexta-feira, no programa “Você na TV”, quando no decorrer da Crónica Social, espaço dedicado à imprensa mais leve e espumante (diga-se desde já que estou-me nas tintas para os amores e desamores das figuras ditas conhecidas), nos informam pelo auricular que uma espectadora havia telefonado, insurgindo-se pelo facto de termos cortado o raciocínio da nossa comentadora sobre o último discurso de Barack Obama, com uma brincadeira espontânea, que surgiu no seguimento de uma mensagem recebida, no telemóvel da Cristina, com promoções da Telepizza. E que erámos isto e mais aquilo e que o programa era uma pouca vergonha, que não deixávamos falar os convidados, entre outros ‘mimos’… Perante tão inflamados comentários, no intervalo seguinte, pedimos ao nosso editor que ligasse para casa da espectadora para que ela pudesse, em directo, dar mostras da sua indignação (pode ver esse momento aqui). Repito: fomos nós que quisemos que a espectadora falasse livremente sobre o que pensava do programa e dos apresentadores, conscientes do risco de ver o sucedido aproveitado e adulterado por alguma imprensa e sobretudo pelas redes sociais, verdadeiras cloacas ao serviço do que o ser humano pode ter de pior.

A espectadora está no seu direito de não gostar da nossa forma de fazermos televisão. É claro que não nos atreveríamos a brincar se o espaço de conversa não o permitisse. Não o faríamos por exemplo numa Crónica Criminal, se bem que quanto a esta rubrica tenha uma opinião muito particular: por muito que ela possa ajudar a alertar a nossa sociedade para comportamentos condenatórios, temo que estejamos a dar visibilidade a meros facínoras e a banalizar o mal em nome de um “primitivo voyeurismo” que origina audiências. Não o faríamos na discussão de temas sérios e estes perdem-se na conta dos milhares de programas que compõem o historial do “Você na TV”. Mas gostamos de aproveitar situações inesperadas que possam surgir no decorrer de um programa em directo, usando o improviso, o “non sense”, seja lá o que for, num saudável exercício de desconstrucção da própria função. Pois,
não é para todos!…
Por vezes atropelamo-nos, sim, interrompemos os convidados, também é verdade, sobretudo quando há necessidade de contrapôr uma ideia, um raciocínio, já que temos opinião, mas isso não é, de todo, regra e depende sempre dos assuntos que estamos a abordar. Numa “Crónica
Social” ou numa conversa informal e sem outra preocupação que não seja o do mero divertimento, será natural uma certa algaraviada, como se estivéssemos à mesa, num almoço de Domingo, com as emoções à solta.

Vivemos a manhã televisiva com esfuziante alegria, estruturada no que somos como cidadãos e profissionais, e sabemos, pelas muitas mensagens que recebemos, dia após dia, que vale a pena esse caminho, em detrimento de uma formalidade ou solenidade que outros projectos e
horários exigem (também o sabemos ser, já o mostrámos em muitas ocasiões). Dizem (basta ler os nossos murais) que metemos o riso em milhares de casas e essa será a mais tocante das recompensas. Haverá quem não goste, como a espectadora da passada sexta-feira, mas esses
tem o poder do comando para não se amofinarem com tão pouco. Só por masoquismo é que posso entender que se teime em algo que não se aprecia. Há muitos programas de televisão que não me interessam, há pessoas de quem não gosto ou que nada me acrescentam, não perco um segundo com eles. O tempo é por demais valioso para ser desperdiçado.

Pode a espectadora irritadiça ter, porém, a certeza de que vamos continuar a viver a Vida em voz alta!