Sei que muitos estranhavam o facto da Cristina nunca ter ido a minha casa e vice-versa, como se isso fosse condição atestatória do afecto que nos une, enquanto companheiros de trabalho. Pode ser defeito meu, ou característica, mas não sou de andar na casa dos outros, estou-me “nas tintas” para a casa dos outros e não faço qualquer juízo sobre a casa dos outros. Entendo a casa como espaço inviolável da pessoa que nela habita, quase sagrado, espelhando o seu gosto, que é coisa que não discuto. No nosso caso particular, será o reduto que nos resta de alguma privacidade. Depois, há doze anos que estamos todos dias sete horas juntos, pelo que não sentimos necessidade de prolongar por mais tempo o tempo em que somos um do outro.
Isto foi assim até ao passado dia 16 de Julho. Já há muito que a Cristina me “ameaçava”:”Quando o monte estiver pronto fazemos lá a capa da revista contigo!”. E eu:”Está bem, logo se verá!”, desejando, por um lado, que as obras decorressem a bom ritmo, que o sonho de ter um chão alentejano já vinha de criança, por outro que fossem como as de “Santa Engrácia”, que assim a produção sempre se ia adiando. Mas naquele sábado teria de ser, não havia como protelar o inevitável. O dia estuava, que pelo menos quarenta graus o termómetro marcou e logo quando tínhamos de trocar de roupa várias vezes, consoante as fotografias e os ambientes escolhidos.
Cheguei na antevéspera, faltando ao programa na sexta, para que tudo no monte estivesse em condições de receber a Cristina, o Tiago, e a Claúdia (amiga e cúmplice), já que eles iriam ali pernoitar. Nada poderia falhar, que sou assim quando recebo: lençóis de linho nas camas, água fresca engarrafada nas mesas de cabeceira, roupões imaculados em cada quarto (e não é que, mesmo assim, faltaram os chinelos dos ditos?), toalhas brancas, secador de cabelo e produtos de higiene, inviolados, em cada casa de banho. E cheiros, cheiros bons por todo o monte.
A mesa foi posta para um jantar descontraído, no alpendre, mas isso não quer dizer que a sua decoração tenha sido descurada, que se há coisa de que gosto é essa que criar cenários para uma refeição: individuais em tecido campestre acomodavam os pratos que, por vezes, gosto de ver de serviços desemparelhados, copos transparentes para as bebidas e vários ao centro para as velas. Dois galarozes em cerâmica dominavam um dos topos e a seu lado um imenso molho de poejos secos, saído de um talego, perfumava o ambiente (1)(2). O Rui cuidou da entrada (lasanha de espinafres e queijo de cabra) e do prato de sustança (costeletas de borrego com couscous perfumados de hortelã) e eu da sobremesa. Estava tudo pronto quando chegaram, já a tarde ia crescida.
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É a própria Cristina quem o diz no seu editorial “…Liguei-lhe para avisar da minha chegada. Minutos depois vejo-o a descer na estrada de terra batida, de máquina fotográfica em punho, de calções e pólo azul, numa moto-quatro conduzida pelo Rui. Trazia um sorriso no rosto. Percebo agora que jamais esquecerei aquela imagem. O Goucha ia abrir-me os portões da sua casa”. (3)
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E fi-lo realmente de braços abertos e sorriso escancarado, deixando-a entrar no meu sonho. Que só assim vale a pena celebrar o afecto e a lealdade. O que rimos naquela noite ao jantar e depois dele, já as estrelas nos serviam de tecto! Éramos um do outro, uma vez mais, mas pela primeira vez sem maquilhagens, sem poses, sem público. Até o Tiago que nunca me havia dirigido uma palavra que fosse, em ocasiões em que estivemos próximos, ali tagarelou, brincou… conquistou. Senti-me em família. Tio e irmão. Sempre companheiros. De vida!
Mal dormi a zelar-lhes pelo sono, não fossem precisar de algo, mas se no dia seguinte sobrassem olheiras poderia sempre contar com a magia da Inês para as atenuar.
O dia seguinte começaria cedo, muito cedo, com um tropel de vinte pessoas a entrar-me pelo monte, entre fotógrafos, câmaras, iluminadores, maquilhadora, produtores de moda e não só… que a Cristina nunca brinca em serviço. E aquilo que seria suficiente para eu ter um ataque, revelou-se uma jornada inesquecível de emoções. Porque, uma vez mais, tudo estava preparado ao pormenor para os receber.
Providenciou-se um serviço de pequeno-almoço (4) para as oito, para aproveitarmos as horas de canícula menos infernal, deixando as filmagens da entrevista para perto da uma. O almoço seria servido depois de concluído todo o trabalho. Em boa hora encomendei os préstimos do Chef Joaquim Ramalho, o “Tola” de Vaiamonte, combinando com ele a ementa, sobretudo do almoço, dado que por ser cliente fiel do seu “Tintos e Petiscos” lhe conheço o talento: gaspacho como nunca provei igual, sopa de cação, empadas de lebre com frutos vermelhos e outras de pombo bravo, galinha tostada… queijos, enchidos, cabeça de xara… tudo regado com os brancos, tintos e espumante alentejanos, que isso aliás é regra cá do monte: servir o que é da terra (5)(6)(7). A azáfama foi tal que tive a noção que aquilo mais parecia a festa de inauguração do monte, que uma revista chegou a anunciar ser meu desejo fazer sem que isso alguma vez me tivesse passado pela mona, logo eu que gosto muito de confusão! Mas soube muito bem ver os outros felizes, por se acharem estimados e apaparicados, levando desse dia de intenso trabalho uma recordação agradável.
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Só não me preparei para a conversa que seria o miolo escrito e registado, em vídeo, da produção. Não fazia sentido erguer barreiras para quem me entende tão bem. Também eu a conheço, jubilando com o seu triunfo e bebendo-lhe as lágrimas. Por isso acabei por desabar quando fui mexer no que me atormenta e inquieta (mas isso terá de ler na revista).
Por longos momentos ficou o vazio quando, mais tarde, o monte voltou ao seu silêncio de chocalhos e balidos. Felizmente sei encher uma casa vazia… não me escondo em severidades ou melancolias. Mas, hoje dou por mim a lembrar aquela imagem da Cristina (8), ainda a casa não havia acordado, olhando o nada, comigo atrás sem que ela desse conta do meu pensamento: foi ali que verdadeiramente, pela primeira vez, lhe jurei fidelidade!
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