É verdade, foi há um ror de tempo. Num livro de receitas de sobremesas famosas do Mundo, descobri a da Sacher Torter, um bolo de chocolate recheado e coberto com doce de damasco e ainda a levar por cima deste uma ganache de chocolate preto. Naquelas páginas, contava-se a história da sua origem, há sempre uma história por detrás de uma receita e descobri-la é para mim tão ou mais interessante que degustá-la, o que não seria o caso já que por doces de chocolate me perco. Percebi, então, que a receita se deve a um inspirado aprendiz de pasteleiro, de apenas 16 anos, Franz Sacher, a pedido do seu patrão, o Principe Clemens Metternich, já que este queria presentear o seus convidados à mesa com uma sobremesa diferente. Estávamos em 1832. Trinta e três anos depois, seria seu filho, Eduard Sacher, quem abriria um café, junto àquela que viria a ser a Ópera de Viena, onde o bolo de chocolate criado pelo seu pai fazia grande sucesso. Empreendedor, Eduard Sacher quis mais, muito mais, e por isso acabaria por abrir um hotel, em 1876. À morte do marido, é sua mulher Anna quem assume a gestão do negócio por quatro décadas, com pulso firme e talento suficiente para criar uma unidade hoteleira de grande elegância e qualidade. Pelo Sacher Hotel já passaram todas as grandes figuras que possa imaginar, da realeza, da literatura, do cinema, do teatro, do canto lirico… da sociedade em geral.
O Hotel não está mais nas mãos da família Sacher, mas continua a ser um dos poucos hotéis de cinco estrelas, a nível mundial, geridos por uma família, neste caso e desde 1934 os Glüters e Sillers. Na primeira vez que fui a Viena não tinha ainda possibilidades económicas para me hospedar no Sacher Hotel mas já a levava fisgada: sentar-me-ia, pelo menos, no seu café, aberto também aos da cidade e visitantes, para saborear uma fatia do tão famoso bolo. Confesso que eu próprio tenho outras receitas com chocolate que me agradam mais mas cá está: cada garfada deste bolo acrescenta-nos uma história de mais de cento e cinquenta anos, o que lhe empresta um sabor muito especial. No dia seguinte jantei no restaurante do hotel, de frente para a Ópera, e jurei a mim próprio que ainda haveria de ali pernoitar.
Os anos passaram, ganhei um outro poder aquisitivo, e o Sachel Hotel passou a ser a minha “casa” sempre que vou a Viena ou a Salzburgo (são deste último as fotos que se seguem). E claro, não prescindo nunca de uma fatia do bolo de chocolate mesmo continuando a achar que tenho receitas melhores. Ainda hei-de fazer esta à minha maneira. Fica prometido!

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