Retrato de família à beira-mar

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“Portem-se bem que vem lá o senhor que emprestou este livro à mãe”. Lembro-me que foi assim que tanto eu como o meu irmão fomos apresentados àquele que viria a ser durante dezanove anos o nosso padrasto: o senhor Braga.

Lembro-me disto sempre que olho para estas fotos de família tiradas na praia da Figueira da Foz, porque foi naquela praia que a cena se passou. Do senhor Braga confesso que não tenho muito para dizer, nunca aceitei bem a sua presença e o facto de com ele ter de dividir as atenções da minha mãe, a ponto de nunca o ter tratado de outro jeito. Embirração da minha parte, porque de um bom homem se tratava. Passaram os anos, muitos, e eu já era homem feito, em Lisboa, a fazer pela vida, quando num sábado, numa das minhas idas à Feira da Ladra, percorrendo, como era meu hábito, as bancas dos alfarrabistas, dei de caras com um certo livro de capa azul e naquele instante o reconheci como sendo o que o senhor Braga havia emprestado à minha mãe. Décadas depois recordava-me do nome como se o tivesse lido na véspera: “Nem só de caviar vive o homem”: uma trama de espionagem onde a cozinha tem um papel importante. Desde então que o livro está na minha biblioteca, porém nunca o li, porque, para mim, a história dele é outra: é a dos risos na praia, a dos afectos à solta, a da infância… que é quando temos tudo à nossa espera.