
No meu tempo, se bem que este também o seja, escrevia-se a carta ao Menino Jesus. Só ele é podia dar ordem ao velho das barbas brancas para fazer a entrega dos presentes desejados, tivesse eu portado-me de feição ao longo do ano, com aproveitamento escolar e tudo. Era uma emoção aquela de esperar pela manhã de Natal para perceber até que ponto o Menino havia ido na minha cantiga, que é bem verdade que botava na carta mais do que a conta, não em pedinchice mas em gabos.

Mal dormia, na noite refúgio de todos corações, na ânsia de encher os olhos de papéis de cores e laços de festa, que é essa a memória que tenho ainda hoje da chaminé da cozinha. E o dia que acordava, logo se enchia de risos e afectos. Era generoso o Menino Jesus, pensava eu, para me compensar de todos os anos me “roubar” a cena. Que diabo (que para aqui não é chamado!), também eu faço anos no dia de Natal! Por isso éramos sempre os mesmos quatro à mesa. Já esta se coroava de arroz doce imaculado, por ser do litoral, perfumado de laranjeira e canela, de filhós de abóbora-menina e rabanadas. Para isso se afadigava a avó Palmira em gestos vagarosos que se repetiam ano após ano. Era seu jeito de dizer que nos queria.

De novo Dezembro!
Tantos anos depois e as memórias tão vivas! O riso da criança que fui e não quero deixar de ser. O inesperado que arrebata. O lume que estala. Os cheiros que aquecem. O abraço que protege.

Que não se perca Dezembro.
Que é quando pretendemos ser menos maus. Façamos tréguas ao desamor que nos une, que só assim se consegue ir à raiz e encontrar o Menino, sem medos, que há em nós. Talvez, então, ganhemos certezas para bendizer o Natal, por ele ir além do dia de todas as euforias. Não pode a esperança ser memória distante nem a solidariedade conhecer sobressaltos.
Será desta?
Que não se perca Dezembro!



