POR SIMONE

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Este post foi colocado, há dias, no meu mural do facebook e, se bem que a Simone não me tenha encomendado o sermão, imediatamente me deu ganas de responder. É que o escrevinhador só pode ter andado distraído, ao longo dos anos que leva o percurso de Simone. Só nas cantigas já lá vão mais de cinquenta. “Desfolhada”, de 1969, é , realmente, uma canção que marca a vida da artista e, mais ainda, a música dita ligeira portuguesa, pela qualidade, até provocadora, do poema de Ary dos Santos. Mas a mesma canção marca também uma viragem na vida de Simone e particularmente à conta da sequente perda de voz. Ganhou, então, um outro jeito de cantar e de interpretar, valendo-se para isso, e inteligentemente, de um precioso repertório de inéditos. Nele vamos encontrar autores tão magníficos como Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Carlos Mendes, José Luís Tinoco, José Nisa, Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira… É a própria a dizê-lo que há males que vêm por bem, não fosse a perda da voz e certamente seria ainda hoje (ou recorda-la-íamos como) a “menina dos festivais”. Ganhou poder interpretativo, intensidade na sua forma de dar (outra) voz aos poetas, respeitando acima de tudo a força das palavras. O melhor elogio terá ouvido, um dia, da boca de um taxista: “você canta difícil, por isso ouço-a com muita atenção”. Mas Simone faz-se ouvir de muitas outras maneiras. Já fez locução e entrevistas, fez rádio e televisão em amenas “cavaqueiras”, como gosta de dizer, e fez-se actriz, no palco e nas novelas. Descobriu “enxadinhas” que desconhecia, no afã de sobreviver, sem ter medo de sair da sua, então, zona de conforto. Fez-se maior enquanto artista e notável enquanto mulher. Nunca temeu desafiar hipocrisias ou poderes instalados: “Quando se anda de padre em padre para lhe baptizarem uma filha porque se é amancebada, ou quando se é chamada à escola, porque é impossível que a filha de uma artista que fuma, usa decotes e trabalha de noite, tenha boas notas… ganha-se uma força até então desconhecida e difícil de controlar”.

É a mesma força que a leva a virar a vida do avesso sempre que esta lhe troca às voltas. Assim foi com o cancro: enfrentou-o, lutou, acreditou e venceu. O cancro também morre. Passou a mensagem a milhares de mulheres que, enfrentando o mesmo  problema, encontraram no seu exemplo um outro alento.

Simone é intranquila, por isso se desafia permanentemente. É insubmissa, nem o medo lhe ganha.

Talvez por tudo isto, e muito mais que aqui não se disse, esteja referenciada em livros como, por exemplo, este “Dicionário de Mulheres Célebres” da Lello & Irmãos Editores, como se já não bastassem os seus discos para perpetuar o seu nome e trabalho, libertando-se assim da lei da morte de que falava Camões: o esquecimento.

Já agora, permita-me o autor do comentário que me levou a alinhavar estas palavras, que lhe pergunte: será que o seu nome vai ficar em algum registo, para além do da(s) Conservatória(s)?. Desejo-lhe o melhor, até porque acredito que todos nós nascemos com um dom, pena que muitos não o descubram ao longo da vida, de tal forma se desviam do que deveria ser o essencial. Que a sua vida fique na memória e no coração de quantos por si são tocados.

Simone já tocou milhares de vidas.

Já riu muito, já chorou muito, já amou muito… e continua a gostar muito de viver! A Vida vale a pena quando se sabe vivê-la.

Simone de Oliveira, cantora e actriz. 26 de Março de 2008.