Por um rei: Eusébio
Sou dos que não liga peva ao futebol, mas lembro-me perfeitamente da loucura que foi o campeonato do Mundo de 1966 (tinha eu doze anos) e de quanto se vibrou com os feitos de um único homem, saído do muceque de Mafalala (Moçambique) com um sonho nos pés: Eusébio. A ele se devem horas galvanizantes de fuga à dureza do quotidiano: éramos um país atrasado, com uma elevada taxa de analfabetismo. Milhares de portugueses debandavam à procura de melhores condições de vida noutras paragens e os mais novos iam parar a África, a uma guerra injusta e implacável, em defesa de um império que se esboroava pela teimosia e tacanhez de quem nos governava, para muitos voltarem estropiados ou mortos. E não era uma medalha atribuída cínica e postumamente no dez de Junho, no Terreiro do Paço, que amaciava a dilacerante dor das mães de negro. Viviam-se tempos de censura e bufaria (pensar que elas ainda existem , travestidas!) e era na arte felina de Eusébio, feita de velocidade, fintas, golos e instinto, que o pais se levantava em urras e gáudios, ganhando a grandeza que internacionalmente nos recusavam.
Vejam-se os títulos, de então, dos mais importantes jornais do Mundo:
“Eusébio excede quanto se possa imaginar”- The Observer
“Eusébio é absolutamente diabólico” – France-Soir
“Um novo rei do futebol, o Grande Eusébio” – Sunday Mirror
“O Brasil foi vencido por um Eusébio” – L´Équipe
“É difícil vencer Portugal com Eusébio inspirado” – Tribune de Géneve
“Eusébio merece o manto da grandeza do mundo do futebol”- The People
“Eusébio, o imperador”- Sunday Mail
“Eusébio, génio puro e instintivo”- Sunday Express
“Eusébio: prestigio e classe”- France-Football
“Eusébio: a personalidade mais proeminente do Mundial”- Times
A fama e engenho de Eusébio correram Ceca e Meca, sempre ao serviço de um futebol diferente, ainda não feito de “televisão, comércio e dinheiro”. Terá sido ele, por certo, um dos maiores provocadores deste que é espectáculo dominical a levar milhões aos estádios à espera que uma bola saltite, corra e se aconchegue nas redes.
Não ligo peva ao futebol mas o que celebro aqui é o talento maior de quem, apesar de ter apenas a quarta classe, se impôs ao Mundo, levando alto, a par de Amália, o nome de Portugal, numa altura em que o país nada mais tinha para exportar que sol e Fátima.
Perguntou-lhe um dia Miguel Esteves Cardoso, que teria ele sido se não fosse jogador e a resposta não tardou certeira: “Teria sido bailarino. O maior bailarino do Mundo. Na Broadway!”. Logo na Broadway, o coração do espectáculo musical. Logo bailarino, ele que “dançou” como ninguém, nos relvados.
O pano caiu para Eusébio, mas a memória, essa, não se finará.


