PELO PATRIMÓNIO

Junto-me aos que já não têm paciência para a actual classe política e faço-o com desalento, já que ainda tenho a política como cousa nobre… independentemente da canhastrez e desonestidade de muitos dos seus protagonistas. Repugnam-me as suas promessas vãs, a jactância com que tratam quem os elege, as negociatas que só beneficiam os da laia… e poder-me-ia alongar em outros considerandos que me levam, há já algum tempo, a recusar emprestar meu nome e imagem (bastas vezes desejada) a qualquer que seja a campanha. Preciso de voltar a acreditar… antes de o fazer.

Porém, li no Diário de Noticias que Basílio Horta, um dos actuais candidatos à Câmara de Sintra, tenciona criar uma sociedade de reabilitação urbana para recuperar o património e o espaço público do município, no caso de vencer as próximas eleições autárquicas. Sabemos, em muitos casos, o que querem dizer as empresas municipais, verdadeiros e pouco claros (ou talvez não), sorvedouros de dinheiros públicos, pouso certo de muitos “boys”, mas o que achei interessante nestas afirmações foi entender que a recuperação e preservação do património podem ser prioridades do candidato, quando sabemos do abandono irremediável a que são votados, no nosso país, exemplares magníficos da nossa História e Identidade. Porque é disto que o Património nos fala. De um passado mais ou menos glorioso, nos mais diversos campos, e da nossa identidade como povo e país… Tenho o maior respeito pelo património edificado, e pelo património das tradições, que atestam a nossa diferença face aos outros, e por isso me insurjo pela forma como  ele é esquecido e desprezado (e Sintra não será excepção, independentemente do que se fez e de vários exemplos concretos, verdadeiros triunfos do turismo local). Quando falo deste tema, que me é particularmente caro, lembro-me de há dois anos ter estado no Museu dos Coches para gravar aquela que seria ultima conversa em televisão do saudoso Artur Agostinho. Chovia naquele que é um dos museus mais visitados do nosso país. Passaram dois anos… e só não chove porque não é costume no Verão, nada foi feito para que, em ela voltando, não aconteça o mesmo! Inacreditável!

A aposta da defesa do património não resultará numa mais-valia imediata para quantos, e são muitos, se vêem asfixiados por uma crise sem paralelo na nossa Democracia, mas a médio prazo revelar-se-á frutuosa para munícipes e município, gerando receitas e dinamizando a economia local, ou não fosse o património um dos produtos de excelência que, orgulhosamente, podemos “vender” a quantos nos visitam. É sempre uma aposta no futuro, assim as autarquias assumam as responsabilidades que lhes cabem. Se eu fosse autarca, essa seria a minha prioridade.

Conheço Basílio Horta tanto quanto o(a) caro(a) ledor, se bem que tenda a desconfiar habitualmente de quem em política está “sempre em pé”, mas gostei de saber que tenciona fazer algo pelo património que é de todos nós. Como munícipe de Sintra estarei alerta, caso ele seja eleito, que é chegado o momento de começarmos a cobrar quanto nos prometem. E tudo começa no poder local, que de menor nada tem, antes pelo contrário. Nem a memória pode continuar a ser curta, nem a culpa morrer solteira.  Nenhuma autarquia necessita de um “primo Basílio”…  mas talvez hajam Basílios que possam fazer a diferença. Assim eles queiram, mesmo!