OS VERÕES NA FIGUEIRA DA FOZ

fotografia-402Este sou eu, rapazelho, de férias, na Figueira da Foz.

Ainda hoje tenho pela cidade uma ternura especial e muito devido às lembranças dessa época. Íamos, sempre, em Agosto e alugávamos casa na rua do Vizo, junto ao Toural. Já na altura não entendia o gáudio que a lida causava nos ditos aficcionados. A manhã era passada na praia, imensa e alinhada consoante as posses de cada um. Se junto ao relógio, em frente ao Grande Hotel, pontificava a burguesia de Coimbra, em Buarcos, terra de pescadores, veraneavam os de magros recursos. Nós, ficávamos ali entre uns e outros, já que éramos remediados, como ora se dizia. Recordo o homem da bolacha americana ou da língua da sogra, assim chamada talvez pela sua compridez, bem como a senhora das bolas que se esbarrigavam de creme. Vinham ao alto, numa caixa de folha imaculada. Também se vendiam os bolos que, tal como a pedra, dão bom nome à vila de Ançã, e o Rajá fresquinho. Só a prosa me faz salivar de desejo!
Já de embirrar mesmo, eram os mergulhos encomendados ao banheiro, vá-se lá saber porquê… e logo naquelas tão gélidas águas… e a sesta depois do almoço, que me diziam ser boa para deitar corpo e eu a tê-la sempre como pura perda de tempo, que o que queria era folgança. Felizmente que a tarde não acabava sem irmos às amoras, das que deixam os lábios tintos. Era cá uma barrigada!

fotografia-403À noite fazia-se o “picadeiro” junto ao Casino, onde, no então conhecido como “Pátio das galinhas”, se amesendava toda uma sociedade galante e galhofeira. Lá dentro, bailes e variedades com artistas afamados, só para maiores e com cheta. Não nos restava senão andar para cima e para baixo, a fazer horas para a deita. E era esgotados e felizes que caíamos à cama, certos que no dia a seguir faríamos tudo de novo. Bendito ócio! fotografia-401