Os livros que leio

A NOITE MAIS LONGA

A 6 de Setembro de 1968, que é quando tudo acontece neste livro, tinha eu quatorze anos, por isso ter memórias tão precisas do sururu que deu a festa de Antenor Patiño na sua quinta de Alcoitão e onde estiveram presentes as maiores celebridades: artistas, reis, princesas entre outros figurões do jet­set (esse sim) internacional da época. A par de outro, dado por Schlumberger dias antes em Colares, este foi tido como o “baile do século”, e acredito que não mais se terá feito no nosso país coisa de tamanho gabarito. Lembro­me das fotografias do Diário Popular, que era o vespertino que se comprava lá em casa, exibindo as “toilletes” dos famosos e os comentários de Vera Lagoa, dos pouquíssimos jornalistas portugueses convidados, autora na altura de uma coluna social (“Bisbilhotices”), possivelmente a primeira do nosso jornalismo. O país pobre, atrasado, cinzento, embasbacava­se perante tanto luxo e espavento. Nessa mesma noite, de tanto brilho e festa, viviam­se, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, as horas mais angustiantes do regime de Salazar. O Presidente do Conselho de Ministros era operado de urgência a um grave hematoma intracraniano, resultante de um queda ocorrida no primeiro de Agosto desse ano, no Forte de Santo António, no Estoril, onde era costume passar os meses de Verão. Durante um mês e cinco dias conseguiu que nada se soubesse sobre o ocorrido, nem mesmo os seus ministros que estranhando certas atitudes de Salazar que indiciavam alguma degradação física e anímica, confundiam­nas com um natural cansaço resultante de uma remodelação governamental que estaria em curso.


Por isso, na mesma manhã em que se fazia o rescaldo da festa milionária de Patiño o país é surpreendido com a noticia da intervenção cirúrgica a que Salazar tinha sido submetido e da célebre queda da cadeira. Ainda hoje muitos pensarão que tudo terá acontecido naquele dia, aziago para Salazar, quando entre a queda e a operação decorreu mais de um mês.

O regime era Salazar, nem sequer se havia pensado num sucessor como se ele fora imortal, e nessa noite o que sobrava era a angústia e pânico da classe dominante pela incerteza num futuro que ficaria, como se viu, para sempre comprometido.

Miguel Pinheiro, jornalista, autor também de uma belíssima biografia de Sá Carneiro, pesquisou nos arquivos de Salazar, da Biblioteca Nacional e da Torre do Tombo, para dar à estampa este livro, já nas livrarias, que li de uma assentada descobrindo novos dados, à conta dos depoimentos e documentos inéditos que conseguiu, sobre a nossa história recente e avivando lembranças de adolescente que nunca se apagaram, antes me dão a certeza (e tenho poucas) que a idade é uma mais­valia para quem não deixa que a Vida passe ao largo.

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GANHE O LIVRO

“A noite mais longa”

Que importância pode ter um livro na sua vida?

As cinco melhores respostas a esta pergunta serão premiadas com um livro que terei todo o gosto em lhe enviar.

Tem até ao final dia de amanhã (sábado) para aqui escrever a sua frase. Logo saberá da minha decisão.