Onde Judas perdeu as botas! (*)

foto1Andava há anos para lá ir, mas por um motivo ou outro acabava sempre por adiar a viagem e escolher outro destino. Talvez fosse a distância a desencorajar-me, que não sou muito de andar de “cu tremido”.

Desta é que foi, juntando-se o útil ao agradável, já que a prova de equipas do Masterchef era ali que decorria. Foi todo um sábado glorioso, num espaço único entre Palácio Hotel, Spa e floresta. A história do local, enquanto unidade hoteleira ligada ao termalismo, remete-nos aos idos da monarquia, já que o projecto ganha forma ainda no reinado de D. Carlos e por sua própria vontade. Contudo, a família real acaba por não usufruir dele, já que foi inaugurado um dia depois de implantada a República
(6 de Outubro de 1910). Outros sim, nomes grados da aristocracia portuguesa e europeia, o terão frequentado amiúde, em busca das virtudes terapêuticas das águas minerais de Vidago, conferindo-lhe assim o gabarito de um dos mais luxuosos hotéis da península.

Com o correr dos anos, o hotel viu-se ultrapassado por uma oferta internacional mais diversificada e padrões de luxo mais elevados. O próprio conceito de “cura pelas águas” perde fulgor, pelo que o lustro de décadas acaba por ficar apenas guardado em documentos e memórias.

foto2foto3foto4Em 2010, cem anos após a sua inauguração, o Palace Vidago Hotel reabre, após quatro anos de intensas obras de recuperação, devolvendo-lhe o esplendor da “Belle Epoque” sem esquecer as exigências de uma hotelaria de luxo moderna e aguerrida. Respeitaram-se identidade e património, honrando-se assim toda uma arte de viver. Dá gosto sabê-lo nosso, ombreando com o que de melhor, no género, há na estranja.

foto5Fomos de véspera, com jantarada aprazada no restaurante DOC, do chef Rui Paula, em Folgosa, entre a Régua e o Pinhão, sempre com o rio de ouro nos olhos, para ali visionarmos  o primeiro dos programas (onde isso já vai!). Confesso que não sou nada de ir em grupos, que do que gosto mesmo é de sossego, por isso fui todo o caminho a rezingar, para acabar, aliás como sempre, por me juntar aos outros e até me divertir (bom, convenhamos que fui o primeiro a “dar de frosques” em chegada a meia-noite, que oito horinhas de sono ninguém me pode tirar).

foto6Às dez da matina já éramos na escadaria, saudando os oito concorrentes que se mantinham em prova e anunciando-lhes um dia de folga, para assim poderem usufruir dos encantos do local. Um mimo, em jeito de recompensa, pela evolução mostrada no programa anterior. Apenas teriam de almoçar e assumir a tarefa de escolher os novos pratos para a ementa do restaurante do hotel, a partir das propostas sugeridas pela brigada do chef Rui Paula, já que este é também o responsável pela qualidade do restaurante gourmet (este homem não para!). Em momento algum desconfiaram que se tratava de uma peta e das valentes. Iriam,  sim, provar as receitas dos antigos colegas, chamados, de novo, à função, com vista a um deles ser “repescado”.

foto7Para isso cozinharam, às escondidas, na cozinha do “Club House” (o local onde se reúnem os golfistas para comer e dar na cerveja), longe de olhares indiscretos e supervisionados pelo chef Rui Paula, que lá voltou a praguejar, com os atabalhoamentos da ordem. Este homem é do Norte, não manda dizer!

foto8 foto9foto10foto11 foto12 foto13 foto14Enquanto isso, nada me tirou do sério, antes pelo contrário, já que tinha todo o tempo da prova para deambular pelo magnífico parque natural do hotel, entre trilhos e espelhos de água. É como que um manto verde a proteger o palácio e quantos nele se acoitam.

foto15foto16Ao almoço, regado com cerveja “Super Bock”, nas suas versões clássica e de luxo, foi divertido ver e ouvir os concorrentes estranhando o primarismo de um ou outro empratamento, mas tanto eu como o chef Miguel conseguimos desviar atenções e até corroborámos na estranheza, para que de nada desconfiassem. Missão cumprida, a ver pelas caras de espanto e explosões de alegria quando, por fim, se desvendaram os autores dos pratos. Foi emocionante ver como a amizade, que une quantos passaram pelo Masterchef, se sobrepõe à, por vezes, dura competição.
Ganhou a Rosa o direito de ao programa voltar, logo ela cuja saída tanto sururu havia causado, por ser das mais queridas do público. Pena é que tenha sido “entrada por saída”, que a coisa não lhe correu bem na prova de eliminação, à conta de uns desenxabidos tomates recheados.

Mas não seria a única a sair de prova, que o programa tem destas pequenas safadezas. E cabe-me, quase sempre, anunciá-las com um esboço de sorriso melífluo, que as minhas antigas teatrices não permitem esquecer.

foto17 foto18 foto19Coube à Rosa a distribuição do pescado, que esse era o tema da prova seguinte já na cozinha do Masterchef.
E quase ninguém se queixou, apenas o Luis foi a excepção. Não achou bonita a escolha do bonito, por nela pressentir a vontade da Rosa em o ver borda fora, não sem antes passar pela prova de eliminação. E não é que o conseguiu?!

Pedia-se, acima de tudo, respeito pela fresquidão do produto, só por si “meio caminho” para o sucesso da contenda. O desafio correu particularmente bem ao Filipe, que nos apresentou um salmão, em toda a sua maciez, acompanhado por uma belíssima massa fresca feita na hora. O jovem de Almada tem-se revelado dedicado e interessado, tudo procurando absorver, pelo que tem progredido semana após semana. O facto mereceu rasgados elogios, mas a questão impõe-se: até onde conseguirá ir, agora que estamos a três programas da final?

foto20 foto21 foto22Tomate e mais tomate, este foi o mote da última das provas, e ali se apresentou ele em, apenas, algumas das suas muitas variedades ( mais de quinze mil, fique sabendo!). Mesmo assim,  nem todos eram conhecidos pela maioria dos concorrentes. Mérito maior de um programa, este de dar a conhecer produtos e de convidar à sua utilização.

foto23Era o caso do tomate “coração de boi”, o maior e mais carnoso de quantos a nossa montra garbosamente exibia. O Luis conhecia-o, claro, e lá volta ele à baila, ou não fosse dos mais interessados nos sabores e saberes da terra. Ninguém lhe fica indiferente, pela sua postura confiante e dominadora, mas deixemos esses considerandos para quando lhe dedicar um naco de prosa. E não será hoje que…

foto24…desta foi também a Ana Rita, a jovem de Vila do Conde, a deixar o Masterchef. Na minha memória fica, acima de tudo, o seu sorriso. Um sorriso franco, sereno, pacificador. E ainda o seu talento culinário de que soube dar provas. Tenho a certeza que a experiência lhe rasgou horizontes e que dela saberá tirar o melhor dos proveitos. Tem sido, aliás, uma constante entre todos os ex-concorrentes: o Masterchef mudou-lhes, em parte, as suas vidas, apontando novos caminhos ou confirmando opções entretanto tomadas. Felicidades, Ana Rita! Por certo que o seus se orgulham de tão gentil prestação.

No próximo sábado:

foto25O “croquembouche” ganha honras de protagonista (também pudera!), sendo peça de grande aparato da pastelaria francesa. Será que os concorrentes vão conseguir
reproduzi-lo?

Será mais um programa empolgante com um final surpreendente, a fazer “engolir” muitos dos soezes comentários que sobre Miguel Rocha Vieira foram feitos. Não vejo a hora…

(*) expressão popular da língua portuguesa usada para exprimir um lugar distante.

www.vidagopalacehotel.com
www.ruipaula.com