O menino de sua mãe

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“Mãe é sempre mãe!” ouvi esta manhã a uma senhora do público.
Não! Permitam-me discordar, nem todas as mães o são, porque não quiseram ou porque não souberam ser. Essas mulheres são sim progenitoras e nada mais. Ser Mãe é coisa imensa, é ser muro e barro, para neles se nascer inteiro, é ter nos olhos o sol, o mar, o fogo, para neles nos construirmos, um pouco de cada vez. Outras, porém, haverá a quem a Vida não permitiu que fossem e tantas as razões que poderíamos evocar.

Terá sido isso que aconteceu a Maria do Castro? Santomense em Angola, nos idos de setenta, usada pelo homem branco, longe de casa e dos afectos, pariu Lupricínio, para logo lho tirarem e colocarem numa creche. À guerra colonial outra se seguiu ainda mais cruel, porque fratricida, e Lupricinio andou em bolandas, pensando que a mãe havia morrido, da creche para a Casa do Gaiato em Malange e desta para uma outra em Paço de Sousa, onde ficou até aos vinte e sete anos. Foi aquela a sua família: educadores e filhos de outros infortúnios. Não conheceu casa quente e certa mas fez-se homem digno. O mesmo que esta manhã se nos apresentou à espera do milagre. A mãe que julgou morta toda uma vida, quarenta e um anos depois, era ali a momentos de o abraçar em pranto solto. Não há um queixume, um laivo de revolta… há um homem inteiro pronto a nascer. Naquele abraço e sobretudo naquele colo que o recebe pela primeira vez.

Tanto havia para perguntar àquela mãe negra (alva de alma?) mas ficámo-nos pelo silêncio… embalando o menino de sua mãe.

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