NO PALCO DA MEMÓRIA

Carmen DoloresNão fosse por motivos profissionais e lê-lo-ia na mesma já que gosto de biografias e ainda mais quando as memórias são escritas por quem as viveu. Carmen Dolores já o tinha feito na década de oitenta mas o Retrato haveria de ficar Inacabado (edição O Jornal, 1984) pelo que se impunha este outro olhar por um passado rico de emoções e palavras. As palavras dos poetas e dramaturgos de quem sempre soube ser digníssima mensageira. Mas também de silêncios. É a própria quem o diz: “desde muito nova aprendi o silêncio…Foram tão importantes os momentos solitários que vivi voluntariamente longe de todos, habitando o silêncio da pequena sala que tornava o meu mundo povoado de sonhos, de figuras imaginadas, algumas saídas dos livros que lia com sofreguidão, personagens que eu pretendia materializar, dando-lhes ao mesmo tempo uma alma”. Seria já a actriz, ainda antes de o ser, a imaginar mil vidas para além da sua. Esse o sortilégio maior de quem, sobre as tábuas, oficia, dando corpo e nervo às palavras de quem escreve e à vontade de quem encena. E isso procuramos quando, ávidos espectadores, queremos que o teatro nos devolva o sonho, a magia e nos leve a reflectir. Sou dos que acha que a Arte nos faz cidadãos mais atentos e preparados, até mesmo perante as vicissitudes.

Por alguma razão há regimes que não gostam de povos cultos e interessados.

“No palco da memória” (Sextante Editora, 2013) descobrimos quem sempre se deu aos outros, em carne viva, num acto de imensa generosidade consciente de que o Teatro pode ser uma referência, uma ajuda, uma luz.

Assim saiba, depois, cada um de nós cumprir o seu papel.