

Gosto de mercados, pelo seu bulício e por tudo quanto nele se transacciona. Neste é o peixe fresco que reina, ou não fosse Setúbal cidade de pescadores, para além dos que são sempre lembrados quando aqui chegamos: Bocage, homem das letras, Luíza Todi, senhora do canto, aclamada internacionalmente, até na corte de Catarina da Rússia. O peixe ainda traz o hálito puro das águas e é ali amanhado, com desvelo, por mulheres gastas pela vida. Escorrem salmoura e palavras de carinho que recebo grato, meio estonteado por perceber que as faço felizes com tão pouco.
Este é do Livramento, diz-se por ali ter passado ribeira do mesmo nome e foi inaugurado em 1930, onde antes havia estado um outro, de 1876, entretanto encerrado por caduquice. Impõe-se pela sua fachada “art deco” e pela ampla galeria com colunas em ferro fundido e belíssimos painéis de azulejos, representando cenas ligadas à pesca, à agricultura e à vida quotidiana dos setubalenses. Quantos ali mercam, da vendedeira de flores ao magarefe, vêem-se representados nas felizes esculturas de Augusto Cid que pontuam o corredor central.
Há rampas permitindo uma maior acessibilidade para quem se sinta limitado, mas se julga que tal tem a ver com uma lei de oitenta que obrigava os espaços públicos a tais cuidados, desengane-se que aquelas são mais antigas e eram usadas para que os burros descarregassem os produtos tirados à terra. E já que estamos em maré de curiosidades lembremos que foi ali, no Mercado do Livramento que decorreram as gravações das hilárias cenas, entre a “Tina” e o “Joni”, da novela “Mar Salgado”.
Em indo a Setúbal não deixe de entrar neste mercado prenhe de risos e dichotes, apesar de ali muitos gemerem com a carestia da vida.




















