
Quando, há uns meses, percebi que poderia visitar a casa que serviu de cenário à maior parte das cenas de “Downton Abbey” não hesitei, logo agendei o primeiro período de férias deste novo ano de modo a que coincidisse com uma das datas que tal mo permitisse, já que nem todos os dias a casa se abre ao público e mesmo assim só grupos pequenos, divididos em dois turnos, um de manhã e outro ao começo da tarde. O preço do bilhete já será em parte selectivo (120 libras por pessoa), porém não impeditivo para quem fanaticamente, como eu, seguiu toda a série, ainda que com anos de atraso como pude confessar num outro escrito neste blogue, e mais recentemente o filme, o primeiro,que vim hoje a saber, no sítio certo, que já se está a preparar uma sequela.
Meia hora depois das dez abrem-se as pesadas portas de madeira para que entremos no gótico hall que dá acesso às principais salas, as de aparato. Aconselha-se a que franqueemos os portões da propriedade um tempinho antes para que à hora certa a visita comece sem retardatários. Primeira emoção, a de percorrer um longo caminho, porém não tão longo como parece nas cenas da série, que isso é condão das objectivas, sei eu por via do meu ofício, até à imponente mansão vitoriana, como se fora Mr. Carson a caminho de mais uma jornada de trabalho.
Quem nos recebe junto à cénica escadaria em madeira maciça que dá acesso aos quartos é Lady Fiona, oitava Condessa de Carnarvon, por casamento com Lord Geordie Herbert, mostrando-se exultante pelo dia solarengo que se fazia sentir e pelo privilégio de ser a proprietária de tão romântico e cinematográfico local, na família do marido desde o século XVII. Não é de agora que a mansão é usada em filmagens, anteriormente já outras cenas aqui haviam sido registadas, como por exemplo algumas entre Tom Cruise e Nicole Kidman, no filme de Kubrick: “Eyes Wide Shut”, tampouco é novidade o facto de serem permitidas as visitas, tal acontecia já anteriormente à exibição de”Downton Abbey”, mas nada que tenha a ver com o impacto conseguido, a todos níveis, pela série. Lady Fiona sabe dos custos de manutenção da mansão que ultrapassam o milhão e meio de euros por ano mas também sabe que depois da série, e mais do filme, a casa virou uma máquina de fazer dinheiro, por isso desdobra-se entre a escrita do seu blogue (www.ladycarnarvon.com), livros de receitas, biografias de algumas das mais destacadas protagonistas da família, como Lady Almina, bisavó do seu marido ou Lady Catherine, mulher do sexto conde, para além de anfitriar, como verdadeira castelã, quantos ali vão à procura da casa dos Crawley.
Na biblioteca forrada a ouro parece que estou a ver a família reunida junto à lareira. Na sala de refeições imagino a mesa aperaltada para um jantar cheio de “ não me toques”, dominado pelo irresistível sarcasmo de Lady Violet, sob a supervisão do irrepreensível Carson e de Carlos I, lá do alto, na pintura de Van Dyck’s. É ali que quem nos guia, que não a condessa que a esta hora já está a cuidar das quiches, das sopas caseiras, e de tudo o mais que se oferece no pequeno restaurante à saída, nos informa da loucura que foi ver anos a fio a casa transformada em “set “de filmagens, particularmente duras as que ali se passavam entre pequenos-almoços, e chamá-los assim é menorizá-los sabendo-os como são à inglesa e mais a mais nas classes dominantes, tal o apuro da reconstituição histórica, e refeições de algum aparato, com “takes” repetidos vezes sem conta ou por causa do plano, ou por causa da luz, ou porque da próxima se consegue melhor… (fácil de imaginar para quem é do meio). Igualmente nos foi dizendo que muito houve que foi feito em estúdio como alguns dos quartos e, tudo o que era “downstairs”: cozinhas,refeitório do pessoal…
Cá fora perco-me no imenso verde, viçoso da chuva e da humidade, procurando que o olhar capte todos os pormenores e os registe na alma. Ia jurar ter visto Lord Robert e Lady Cora ali a meu lado num dos seus cúmplices e devotados passeios…
Foi um dia perfeito! Entre a realidade e a ficção… da imaginação.










Uma vez mais o capote alentejano fez sucesso. Entre os demais visitantes levantou olhares de estranheza, o gabo ficou por conta da dona da casa. Lady Fiona ao passar pelo Rui soltou qualquer do género: “você está fabuloso!”. Eu que levava uma samarra, também ela alentejana, passei logo a figurante.


