Uma vez por ano, sempre por alturas do Natal, o circo descia à cidade e lá ficava pelo antigo Largo do Arnado (Coimbra), por alguns breves meses, antes de seguir viagem. A pedinchice era tal que, apesar de não morrer de amores pela arte circense, a minha mãe lá nos levava a ver mais um espectáculo, possivelmente igual ao do ano anterior. Do que eu gostava mesmo era dos trapezistas voadores, dos artistas dos malabares e dos mágicos serradores de donzelas, já dos palhaços confesso não lhes achava grande piléria, que as graças eram sempre as mesmas, talvez me divertissem , sim, as cores com que o pobre se pintalgava e vestia, numa exuberância cativante, a contrastar com o rico, cara-branca, irritante de tanta prosápia.

Os anos passaram e um dia dei por mim como mestre de cerimónias numa série de programas circenses, gravados num capitô à maneira instalado para os lados de Algés, de grande sucesso entre a pequenada, de nome “Circoflé” e onde se estreava o palhaço Batatinha junto com o seu Croquete. Quem diria que estava a cumpliciar os primeiros passos de um artista que no nosso país veio revolucionar o papel do palhaço no mundo do espectáculo, pelo seu talento, engenho e criatividade. Por muitos anos o palhaço Batatinha daria cartas, nomeadamente na televisão, em programas com uma linguagem moderna e nunca vista, cativando assim várias gerações. E continua…
O circo tal e qual conhecia, de elenco minguado e tenda remendada, saltimbancos do riso e da magia, ainda anda por aí … levando aos lugares mais recônditos uma centelha de alegria, mas confesso que o que me apaixona são os novos conceitos que, entretanto surgiram, elevando tais artes a um patamar de excelência e grande exigência. Sim, sou fâ confesso de um circo moderno, sem animais amestrados e onde as mais diversas linguagens se combinam com virtuosismo. Querem melhor exemplo que qualquer um dos vários espectáculos que o “Cirque du Soleil” tem montado?. Até mesmo a arte do palhaço evoluiu para outros domínios, entre o sublime e o poético, recordo-me de Oleg Popov que vi no Coliseu e de Slava, no CCB, um e outro vindos da Rússia, onde a aprendizagem das artes circenses é elevada à condição de ensino superior.
Há dias o circo mágico de Slava voltou a Lisboa e pude receber no programa alguns dos seus elementos para minutos de puro fascínio, sem palavras, apenas com mímica e muita emoção. E recordei-me do miúdo que fui, de olhos assombrados, quando era o circo pobre a fazer de mim a criança mais rica.













