
Tinha mais de 80 anos e passava connosco a noite de Natal, fosse onde fosse. Gostava particularmente que fosse em Paris. Lembro uma em que vimos um belíssimo espectáculo de tango num teatro perto dos Campos Elísios e depois ceámos num restaurante daqueles cheios de “frescuras”, que a noite merece tudo do melhor, e em chegando ao Hotel ainda tinha uma prenda nossa no quarto que a deixou felicíssima. Logo esqueceu o facto de ter sido assaltada naquela tarde numa perfumaria da cidade. Levaram-lhe o dinheiro com grande maestria mas deixaram-lhe na carteira a fotografia do pai dos filhos. Foi aí que fiquei a saber que o homem “odiado” toda uma vida, após a separação, afinal continuava a andar com ela para toda a parte. Realmente o coração tem razões que a razão desconhece!. Desistiu de o fazer depois de uma noite de Natal, curiosamente também em Paris, quando se viu a descer, a penantes, todos os Campos Eliseos após o espectáculo do “Lido”, dado que aquela hora não havia táxis livres e “ubers” ainda nem miragem eram. Foi peremptória: “Já não tenho a vossa pedalada. Para mim acabaram as noites de Natal, fora de casa!”. A partir de então seria com o outro filho, nora e netos, o hábito de passar a consoada, enquanto eu e o Rui andamos pelo mundo que gostamos, se há dois anos foi em Viena, no ano passado estávamos em Vevey. Ainda cedeu aos noventa, quando conseguimos que vivesse connosco toda uma semana natalícia na Madeira, que por cá é onde os festejos ganham uma dimensão diferente e única, com as missas do parto a começarem nove dias antes da noite da consoada, uma por cada mês de gestação, e animação diária ao longo de toda a avenida central.
Este ano decidiu, irredutível, que nem à casa do outro filho queria ir. Tem 96 anos e não queria confusões, regressar à sua casa depois das duas da matina, nem pensar. “A D. Alice (a senhora que a acompanha em metade do dia) prontificou-se a ficar comigo e não se fala mais nisso. Quem manda na minha vida sou eu!”. Assim fala a senhora minha mãe e podiam ser minhas as palavras (quem sai aos seus!).
Foi então que decidimos surpreendê-la. Não fazia sentido fazer com que a Maria deixasse por um dia o aconchego da sua família no Porto para vir fazer o programa de 23 de Dezembro, já que o do dia seguinte estava gravado, por isso fiz a minha habitual semana de férias de Natal, antecipando o regresso de modo a estar no programa de 23 em directo e seguir logo para Coimbra, uma vez que congeminámos surpreendê-la, jantando com ela neste Natal. Ficámos no hotel onde nos hospedamos sempre que vimos a esta cidade, o da “Quinta das Lágrimas” (belíssimo, a merecer escrito à parte) e nele nos mantivemos toda a véspera de Natal até à hora do jantar. Bem me apetecia passear na cidade, ir à Livraria Almedina, comer uma pata de veado na “Brasileira”, para ver se ainda têm o gosto da minha infância, beber um café no “Santa Cruz”… mas podia correr o risco de alguém, que me visse e conhecesse a minha mãe, denunciar a minha presença, telefonando-lhe. A ideia era surpreendê-la mesmo, que nem renas a entrar-lhe casa adentro, com jantar, comes e bebes, tudo encomendado no hotel. Em Lisboa, comprámos pratos, copos, talheres, toalha … que mesmo de improviso e para quatro gatos-pingados a mesa tinha de ser de festa. Festa do afecto, do amor. Liguei-lhe à tarde, estava feliz com os netos e bisnetos que a haviam ido visitar antes de se juntarem na casa do meu irmão, e lá lhe fui dizendo estar em Monforte para a despitar, o que achou perfeitamente normal.
À hora combinada com os cúmplices (o meu irmão e a D. Alice) lá fomos. Estava a rezar o terço, que, não sei se é por ter a idade que tem, agora não passa sem o fazer e à noitinha corre a beijocar todos os santinhos da sua devoção. Só lhe conhecia a Sãozinha da Abrigada, porque sempre a vi numa pagela metida entre os livros que lia ao deitar, mas agora também a rainha Santa, o santo António e até o Papa João Paulo, II do seu nome, todos levam o seu ósculo repenicado. Se estes valerem por cunhas está garantido o seu lugar nos céus. Ao ver-nos ficou “abananada”, longe que estava de nos imaginar ali, quis acabar o terço e deve ter pensado para com as contas do seu rosário: “lá vieram estes estragar-me os planos!”. Só quem não a conheça, logo ela que detesta surpresas, ou seja perder o controlo da situação. Como a compreendo! Logo se rendeu, digerindo a ideia que teria sossego só quando saíssemos para a Missa do Galo. Começámos a janta com uma salada de polvo e batata doce, seguiu-se um lombo de bacalhau confitado com couve pak-choi e raviolis recheados de anchova e depois as gulodices da ordem, fritos da quadra, arroz doce branco, como se usa fazer nesta Beira, pão-de-ló de Margaride… tudo acompanhado a vinho tinto e champanhe. “Champanhe não gosto (atirou tão seco quanto a bebida) só mesmo para molhar os lábios, gosto é de “Licor Beirão” para logo atacar o seu copito. Gostos! O Rui, que a sabe levar como ninguém, também bebeu para lhe fazer companhia. O que rimos! Brindámos ao Natal e sei que a deixámos feliz com tamanha surpresa. Dali fomos para a Sé Nova toda ela luzente de tanto barroco assistir à celebração litúrgica do nascimento do Menino. Gostei particularmente da homília do Bispo de Coimbra sobre a importância do presépio para crentes (como o Rui), e não crentes (como eu). Há muito que sei o caminho que escolhi, o dos valores dos quais não abdico.
Manhã cedo ligou-me, como sempre faz querendo ser a primeira, para me dar os parabéns! E lá foi dizendo: “ainda tenho o coração a bater muito com a surpresa de ontem. Isto não se faz! Já tenho 96 anos!”. Pois mãe, que o teu coração continue a bater forte ainda uns aninhos, para que eu te possa continuar a surpreender. E foi assim a minha noite de Natal.



