
Lá vai tempo em que se escrevia ao Menino Jesus pedindo um ou outro presente como recompensa por um ano bem comportado. Ainda o fiz por uns anitos, em letras que duas linhas faziam certas e enfileiradas, crédulo que à meia noite ele chegaria ou mandaria o tal velho das barbas, mensageiro da boa nova e portador das alegrias mais desejadas. Era no dia 25, manhã menina, que corríamos à chaminé para saber o que nos havia tocado. E de pijama ficávamos de rojo no chão entre brinquedos, jogos e muita folia. Na mesa o arroz doce, imaculado e de fatiar, os belhós de abóbora menina, quentes, polvilhados de açúcar e canela, o bolo-rei coroado de frutos cristalizados que mais pareciam jóias, de tanto brilho, as broínhas de mel e as castelares, os figos abertos com nozes dentro…
Por cá a figura do Pai Natal era meramente secundária e seriam necessários ainda alguns anos para ganhar terreno ao Menino e assumir-se protagonista. Na origem da figura que continua a encantar miúdos e graúdos está S. Nicolau, bispo de Mira, nascido no ano 270 no seio de uma família cristã abastada de Lícia, na actual Turquia. Segundo uma lenda, Nicolau tinha um vizinho pobre que, tendo três filhas por casar e sem dote, pretendia pô-las a render, prostituindo-as. Nicolau distribuiu, em segredo, pelas jovens bolsas com moedas de ouro, para que pudessem encontrar noivo e assim escapassem ao destino que o pai havia-lhes traçado. Outra estória diz-nos que o Santo teria ressuscitado três crianças que haviam sido mortas e esquartejadas às mãos de um talhante. Certo é que Nicolau é tido como o santo protector das crianças e das prostitutas. Na Holanda protestante o culto a São Nicolau foi rejeitado, contudo, laicizando-se, persistiu sob o nome de SinterKlass. No século XVII, serão o colonos holandeses a fundar do outro lado do Atlântico a “Nova-Amesterdão”, futura Nova-Iorque, levando com eles as lendas do seu país frio, as renas e … SinterKlass. Em 1821, um poema de Clement Clarke Moore, escritor americano, fala de um homem barbudo vestido de peles distribuindo presentes. Era SinterKlass, Santa-Claus dali a uma vintena de anos.
“Father-Christmas”- no Reino Unido, “Weihnachtsmann” – na Alemanha, “Papai Noel” – no Brasil, ele conquista o Mundo. O seu rosto tal como o conhecemos foi desenhado por um ilustrador germano-americano (Thomas Nast) em 1863. Através do seu traço, Santa-Klauss ganha a forma de um gentil velho barrigudo, de cativantes bochechas vermelhas e olhar meigo. Uma imagem terna e sedutora, demasiadamente atraente para as marcas de publicidade, em particular para a Coca-Cola, que o veste com as suas cores. A publicidade vai adorar a figura deste velho de barbas brancas e logo a vai usar em toda a sorte de molhos, a vai pôr a fumar, do Marlboro ao Camel, a beber whisky e a comer chocolates. Através da publicidade impõe-se ao Mundo, Portugal não é excepção, mesmo estando a Cola-Cola proibida por Salazar, e consequentemente as suas natalícias campanhas, o Pai Natal vai, entre nós, ganhando, espaço e as cartinhas que antes eram endereçadas ao Menino.
E se bem que goste da bonomia e garridez do gorducho barbudo, na essência sou pelo Menino. Pelas memórias de uma infância que voltam sempre nesta quadra e pelo seu exemplo que, feito homem, deixou ao Mundo: de humildade, de inconformismo e de entrega aos outros. Assim o vejo, sem que o meu agnosticismo (que isto tem é a ver com o tal de Deus) o turve.



