

Esta noite, em Verona, canta-se “Madama Butterfly”. Na Arena, onde os grandes do canto já estrelaram. Foi ali que Maria Callas, a mais trágica das divas, se estreou, em 1947, em “La Gioconda” de Ponchielli.
Enche-se a Arena todos os anos, por ocasião do seu festival, que já leva cem edições e mais esta, de sucesso e fama reconhecidos em todo o Mundo. É a grande festa da Ópera, onde esta se assume como espectáculo popular e não de elites.

Esta noite canta-se o drama de Cio-Cio-San, que acaba (para variar, digo eu com ironia, já que esse é o fim da maior parte das heroínas das obras operáticas) por se matar, ao ver-se traída no seu amor. Dizem alguns tratar-se uma “japonecise”, por o compositor ter recorrido a algumas sonoridades orientais, mas sou dos que a tem como das melhores obras de Puccini, dado o requinte da orquestração e a sua fibra dramática. Quem não sentir um brilhozinho molhado nos olhos, uma vez que seja e logo no primeiro acto, deve consultar, com carácter de urgência, um médico especialista. Seu (sua) insensível!

Uma figura feminina, sempre vestida em consonância com o libreto cantado, marca a contagem decrescente do tempo para o espectáculo, a cada cinco minutos a partir dos quinze.




Cada instrumentista vai então ocupando o seu lugar, consoante o naipe a que pertence. É altura de afinar os instrumentos. E é ao “violino di spalla” (primeiro violino) que compete afinar a orquestra antes da entrada do maestro.

Ei-lo que surge, alto, esguio, solene, de “asa-de-grilo” e logo troam os primeiros aplausos da noite.

Baixam-se as luzes, bruxuleiam velas nas mãos dos que estão nas bancadas, que esse é hábito na Arena de se celebrarem os primeiros acordes.
Bebe-se o último gole de champanhe. O espectáculo, melhor… a festa, vai começar.
E eu, serei, indescritívelmente, feliz por três horas. É a Arte que me salva!



