
Claro que estou muito grato pelo prémio esta tarde recebido mas confesso que fico sempre um pouco perplexo por receber estas distinções pelo meu desempenho profissional. Não entendo de outra forma o cumprimento do ofício que sempre quis, desde que me conheço como gente. Faço-o para quem me vê, por quem me vê, mas acima de tudo por mim, que cedo ganhei o respeito pelo trabalho. Não penso em prémios, não os objectivo e, sinceramente, fujo destas entregas como “diabo da cruz”. Costumo dizer que o maior prémio, o único que me interessava conquistar, deu-me a Vida quando permitiu que eu realizasse, através do trabalho apaixonado e dedicado, o sonho de criança. Sou da geração que tinha na televisão a única janela entreaberta para o mundo que nos deixavam enxergar. Na década de sessenta havia censura à informação, à cultura, aos costumes … a tudo o que nos pusesse a pensar pela nossa própria cabeça e a questionar. Contudo, foram a televisão e os grandes comunicadores de então que formaram em parte o homem que sou. Ouvir e ver Vitorino Nemésio no seu falar difícil obrigava-me, na consulta do dicionário, a perceber quão rica é a nossa língua, a verdadeira matriz, para hoje lamentar quantos a colonizam e maltratam, ainda por cima sendo alguns oficiantes do mesmo ofício. Com José Atalaya e João de Freitas Branco descobri a razão de cada instrumento e da sua função numa peça clássica e , consequentemente, viajei pelas mais arrebatadoras paisagens sonoras; com Maria Germana Tânger, ontem falecida aos noventa e oito anos, conheci o poder e o peso das palavras e a arte de as dizer, para questionar, afirmar, orar, amar… Tantos outros me inspiram, no legado que, diariamente, procuro honrar.
O homem que gosto de ser nasce da curiosidade que essa “janela” entreaberta estimulava. Aos nove anos brincava às televisões falando para o aparelho lá de casa como se de uma câmara se tratasse, inventando diálogos e histórias com pessoas que não eram ali e fui indo pelo desejo de um dia vir a ser tudo a sério. Como não estar grato à Vida quando tantos anos depois continuo a brincar … só que, há muito, dentro da caixa mágica!
Obrigado!


