IMPORTA-SE DE REPETIR?

… ou “quando a ignorância é atrevida”.

– Na ultima revista “Sábado”, de que sou, acrescento, fiel leitor, houve quem apresentasse este utensílio de cozinha como sendo um dispensador de “massa para bolos ou crepes – uma espécie de saco de pasteleiro rudimentar e bem mais pesado”. Dispensava-se era tamanho disparate, que o que ali se apresenta é um funil de cinco bicos, indispensável, ainda hoje, para a feitura dos tradicionais fios de ovos, mimo da doçaria conventual. Batidas que são as gemas, depois de separadas das claras respectivas, hão-de passar pelos bicos para caírem em fios numa calda de açúcar fervente, para que de imediato cozam. Depois será uma escumadeira (palavrão, pela certa, para a dita jornalista), a retirá-los de tão doce calda para que escorram devidamente.

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– É frequente ouvirmos dizer, e particularmente em televisão, que fulano ou beltrano vai “cantar uma música”, como se a palavra canção tivesse pura e simplesmente sido abolida do nosso vocabulário quotidiano. Compõe-se a canção de música é certo, mas também de uma letra ou, em muitos casos e felizmente, de um poema. E é que não vai uma coisa sem a outra! Quando já se disse que a cantiga era uma arma, não seria certamente pelos seus acordes mas antes pela força das suas palavras. Também elas nos envolvem, nos arrebatam ou nos inquietam. Vivemos numa época em que bondam as letras labregas, de ouvir e deitar fora, mas felizmente que há muitas canções que resistiram e hão-de continuar a resistir ao tempo e à loucura do descartável, porque nasceram do talento de grandes poetas, como Ary dos Santos, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, entre muitos outros… Ignorá-lo é aviltar o que temos de melhor: a nossa língua (nossa matriz) e quantos a enobrecem.