
Quando aqui mostrei a minha mesa da consoada houve quem tivesse gostado do que a parede do fundo exibe. Tapeçaria, disseram alguns e até que poderia ser, que na foto não se percebe bem, mas é de uma colcha de Castelo Branco que se trata e agora contar-vos-ei como, em boa hora, me veio parar às mãos.
Era, e seria ainda por alguns anos, apresentador do “Praça da Alegria”, isto nos idos de noventa, quando tive como convidada a então directora do Museu, instalado no antigo Paço Episcopal albicastrense, que leva o nome do seu fundador, Francisco Tavares Proença Júnior, personalidade de muitos interesses no mundo da ciência e das artes, para falarmos da sua reabertura, depois das obras de requalificação a que, na altura, foi sujeito. Inevitavelmente teríamos de falar do seu acervo com particular destaque para as colchas de Castelo Branco, singulares pela riqueza do bordado a fio de seda e ternura, só por si ex-libris da cidade, e pela simbologia dos seus ornatos, diz-se que de influência oriental. Confesso-me apaixonado por esta arte tradicional e por isso, tudo continuarei a fazer para a divulgar e festejar.
De regresso à casa de Lisboa, nesse fim de semana, fui surpreendido pela Edla (minha “avó” pelo segundo matrimónio de Heliodoro, pai do meu pai), ao dizer-me que havia visto a dita conversa e que lhe parecia ter uma colcha daquelas, arrumada lá para um canto do seu guarda-fatos e que se eu quisesse até poderia ficar com ela. Mais acrescentou: que era da minha bisavó Clodomira, cheguei a conhecê-la pequena e rabitesa, portanto teria já muitos anos, p´raí uns cem, não garantia era o seu estado de conservação, que perdera a conta aos anos de falta de uso. E tinha razão, sim senhor, puída pelo tempo mais parecia trapo enrodilhado, nada tendo a ver com a colcha que triunfa, agora, na minha sala de jantar. Mesmo assim fiquei com ela e por isso, de regresso ao Porto para mais uma semana de programas, levei-a comigo para avaliar do seu interesse como peça artesanal e, a valer a pena, apostar na sua recuperação.
Foi do Museu, e da sua directora, que me chegaram novas: que a colcha era de noivos, pasme-se, com uns duzentos anos, que mereceria ser limpa com mil cautelas, que a isso obriga toda e qualquer consciente recuperação, e que o mais era deixá-la tal como está. O Museu podia tratar do assunto, faz parte das suas funções como também a de ensinar o bordado, em oficinas próprias, eu só teria de a ceder por uns seis meses, o tempo de ela figurar na exposição de reabertura do Museu. “Negócio” fechado. Muitos meses depois seria minha, acomodada sobre tela, continuando, a fio de seda e linho, a celebrar o
Amor. Intrigavam-me era umas pequenas manchas, entranhadas no linho, que, por certo, já foram escalarte, e que a limpeza, pelos vistos, não conseguiu eliminar. São de sangue, logo me foi dito, que era costume antigo esse de sobre a colcha se consumar o casamento. Quem diria de uma colcha, anos a fios encafuada!




www.patrimoniocultural.pt


