
O barbeiro de Fronteira
“Isso é para fazer negócio?” – foi o que, de sopetão, me perguntou quando lhe pedi licença para fotografar o seu estabelecimento. Jerónimo Rechestre (por estas bandas onde não se estranham os apelidos, este não deixa de ser incomum porque de origem inglesa) está habituado, e talvez um pouco cansado, destas demandas, que não há forasteiro que não lhe peça para o fotografar ou filmar. Mas logo se abriu num rasgado sorriso para me dizer que tinha estado comigo nos idos do “Praça da Alegria”, não pelo facto de ser barbeiro, mas sim por vender jornais e revistas na sua barbearia. Já não o faz há um bom par de anos, mas as revistas que tinha à venda à data da decisão de não mais o fazer, ficaram para decoração do espaço. Apesar de amarelecidas pelo tempo levam ao engano, a ponto de lhe ter perguntado se já tinham chegado a “Visão” e a “Sábado”, as minhas de eleição, de cuja leitura não abdico. Agora continua é no mercadejo de outros produtos de serventia diária, como cremes, amaciadores, loções…, e que lhe vestem as paredes. Não fora a cadeira do mister, bem no centro, e diríamos que estávamos antes numa daquelas drogarias antigas cheirando a limpo, onde os mais velhos se encontram para “dois dedos de conversa”. Jerónimo é ali há cinquenta anos, antes era uma “alfaiataria para burros” e, perante a minha urbana estranheza, logo me explicou, com um sorriso de irresistível gozação, que ali se faziam albardas. Deixo-o à espera de clientes para “barba ou cabelo”, que me garante haver sempre um ou outro. Importante mesmo é obrigar-se todos os dias a abrir este seu curioso estabelecimento onde as memórias andam à solta.

À soleira
“Então porque é que não veio para aqui, para o pé de nós?” – atirou a Teresa, a Catarina ou a Irondina, uma delas foi. “Mas estou perto e depois Prazeres já tem o Malato! “- foi a minha vez de retorquir. “É logo ali, o segundo monte -continuaram … “. E ali ficaríamos na conversa não estivesse eu de passagem, a caminho do almoço. As três vizinhas, todas as manhãs, juntam-se à porta de uma delas e esquecem-se das horas e das ausências que as levaram a enlutar, enquanto cosem, bordam e soltam uma ou outra gargalhada.

Linhas de vida
Continua onde a encontrei há dois anos, à porta da colectividade de Vila Fernando, entregue às linhas que tece em blusas, rendas e enfeites. Tudo para dar, bondade sua, e por isso mostra-se feliz. Mais ainda por me ver. “Gosto tanto de si! Olhe que não saio de casa sem o ver, a si e à menina Cristina”. Depois sim, Maria Vicência sai para se sentar à porta da colectividade e ali fica horas esquecidas com as suas linhas e ternura.
Gente boa que me acrescenta, pelo que têm a contar. Muito mais quero conhecer, assim me deixem entrar nos seus mundos feitos de muitos saberes. Não faltarão ocasiões, agora que o Alentejo é também meu chão.


