
Cresci ouvindo a minha mãe a recordar a primeira visita de Isabel II de Inglaterra a Portugal, há praticamente sessenta anos. Craveiro Lopes era o Presidente da República e Salazar governava, presidindo ao Conselho de Ministros. Pelo visto foi coisa que a marcou, pelo fausto e pompa, que Salazar não terá olhado a despesas a ponto de ter sido aquela a recepção mais grandiosa que, até aos dias hoje, alguma vez o Estado organizou. O intuito de agradar à soberana era claro: realçar a imagem do país enquanto potência colonial, e tentar minimizar os estragos, aos olhos da comunidade internacional, pela venda do volfrâmio aos alemães, no decorrer da Segunda Guerra Mundial. Estávamos em 1957, Portugal continuava a ser governado autoritariamente, quando na Europa sopravam ventos de mudança.“Oficialmente o pretexto da deslocação era o de Isabel II retribuir a visita de Estado que Craveiro Lopes efectuara, em 1955, a Londres”
(1).
Naquele dia ninguém trabalhou no concelho de Lisboa e foram aos milhares as pessoas que acorreram ao Terreiro do Paço para ver chegar a rainha. Isabel II havia desembarcado na base do Montijo dois dias antes para, a título privado, encontrar-se com Filipe, seu marido, de regresso de uma visita de quatro meses à Austrália, Nova Zelândia, Malvinas, Gambia e Gilbratar, e seus amigos portugueses, entre os quais os duques de Palmela, de quem era íntima desde o tempo em que estes haviam sido embaixadores no Reino Unido.


Isabel II desembarcaria no Cais das Colunas, trazida no bergantim real que D.Maria I fez construir para o casamento de seu filho D.João, futuro D.João VI, com Carlota Joaquina, também por isso conhecida como galeota D.Maria I. A embarcação, já antes usada em outras visitas como a do rei Eduardo VII, bisavô de Isabel II, movida a quarenta remos, distingue-se pelos trabalhos em talha dourada que exibe, não tendo isso passado despercebido à soberana que terá afirmado: “Coisa tão bela deve estar num museu!”. E com efeito passaria a estar, meia dúzia de anos depois, quando o Museu de Marinha, o segundo mais visitado dos museus portugueses, abriu as suas portas, ali ao Jerónimos.





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A minha mãe sempre falou da magnificência da tribuna onde decorreu a cerimónia de boas vindas, com uma parada de seis mil homens e duas bandas, a da Marinha e a da GNR. Foi ela concebida por Leitão de Barros, nome celebrado do regime, enquanto cineasta, jornalista,
pintor e político. “Tribuna e dossel em madeira entalhada, com cetins dourados, veludos vermelhos e panejamentos D.João V. Raios infravermelhos aqueciam o local, o que levou Salazar a considerá-los, pelo seu custo, um exagero no orçamento” (2).

Concluída a cerimónia iniciar-se-ia o cortejo pelas ruas de Lisboa, até ao topo do Parque Eduardo VII, por entre as aclamações de quantos as enchiam. Para tal foi usado, pela última vez, o Coche da Coroa, sumptuosa carruagem inglesa de oitocentos, puxada por quatro parelhas de cavalos. A seu lado sentava-se Craveiro Lopes. Num segundo coche seguia o Príncipe Filipe e Berta Craveiro Lopes.
“Chegaram a alugar-se janelas por 1.500 escudos para ver a monarca” (3).
O Coche da Coroa pode ser apreciado no novo Museu Nacional dos Coches.





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“Isabel II apenas fez um discurso, no Palácio da Ajuda, onde decorreu o banquete oficial. O jantar servido pelo Hotel Aviz (a unidade hoteleira por excelência do país, onde mais tarde Calouste Gulbenkian viveria) constou de caldo aromatizado, salmão do Minho com molho
verde, galinha à moda do Convento de Alcântara (se bem que a receita original seja feita com perdiz. Diz-se que foi por não haver perdizes já que a época da sua caça tinha terminado), doce de natas com amêndoa do Algarve, frutos e vinho de consumo e Porto” (4)



“Majestosa, a Sala dos Jantares Grandes, a maior do palácio, atraiu as atenções da rainha pelas magnificas pinturas e fresco do tecto, pelos lustres de cristal e pelos vários tocheiros em bronze. Os seus reposteiros são em damasco e rendas suíças, e as paredes revestidas a seda creme. A gigantesca mesa de refeições continha 200 cadeiras lacadas, encomendadas por D.Carlos para a visita oficial, em 1903, de Eduardo VII de Inglaterra” (5). Foi usada a célebre baixela Germain, impressionante conjunto de mesa de grande aparato, em prata, encomendado pelo rei D.José ao ourives francês Francois-Thomas Germain. Devo acrescentar, em jeito de curiosidade, que esta nossa baixela fez parte, há alguns anos, da exposição das mais importantes baixelas reais que ocorreu no Palácio de Versalhes.
Ali na Sala de Banquetes do Palácio da Ajuda, que continua a ser usada para as grandes recepções do Estado, está patente o bom gosto e o apurado sentido estético de Maria Pia de Sabóia, mulher de D.Luis I. Ao tempo do reinado do pai de D.Carlos este foi o palácio da corte e
hoje deve ser visitado também por se tratar do mais impressionante museu de artes decorativas do nosso país.




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(1)(2)(3)(4)(5) trechos do recente livro “Os dias portugueses de Isabel II”, de António Simões Brás, da editora Parsifal, cuja leitura aconselho.




