Férias … sem televisão!

Acho que nunca passei um dia sem que a televisão da casa estivesse ligada quanto mais não fosse para ouvir música, por isso gosto particularmente do canal Mezzo, e saber das notícias. Claro que sigo regularmente uma ou outra novela, pouco pela trama mas sim pelas interpretações (que tenho os meus actores dilectos que procuro sempre acompanhar no que vão fazendo) e gosto de alguns documentários, programas de viagens, de história, debates, sobretudo de política, e de conversas com tempo. O mais é perder-me num atoleimado “zapping” sem que me fixe completamente a coisa alguma e nisso consomem-se horas. Mas desta vez, aproveitando as férias, não hesitei e sem custo algum abdiquei completamente do meu papel de telespectador e não se ligou o televisor, um minuto que fosse, em quinze dias!

Cá no monte passa-se o dia fora de portas em tarefas prosaicas como essa de assentar as almofadas nos bancos de pedra e na cama do jardim, as mesmas que noite após noite são retiradas, não vão os cães tecê-las, que isto os dois mais pequenos (“ratoneros bodegueros”) competem em destruição, e apanhar o cócó dos ditos para que os relvados se mantenham limpos, tudo isto manhã menina que é quando ainda corre uma aragem. Verdade seja dita que neste Verão o tempo não tem estado de abafuras (gosto destas alentejanices!) e ainda bem, que até aos trinta suporto, acima disso não contem comigo. Dão-se umas boas pedaladas dentro de água, para alguma coisa há-de servir a “aquabike” que comprei há uns dois anos, nada-se bastante, apanha-se sol, enquanto é hora de o fazer e não mais que sessenta minutos por dia. E lê-se, lê-se muito, deu para três livros recentemente publicados e que me interessavam: o último de Maria Filomena Mónica (“Os ricos”), o de Luís Costa Ribas, correspondente da SIC em Washington (“Uma vida em directo”), o de Michel Serres, um dos maiores filósofos franceses vivos (“Antes é que era bom!) e já vou a meio de um “calhamaço” adiado, o de Frank Dikötter sobre um dos períodos mais negros da história da Humanidade (“A grande fome de Mao”). Almoça-se à sombra do alpendre, muitas saladas ricas de nutrientes e refrescantes, acompanhadas sempre com vinhos desta terra imensa, que os dá de grande qualidade, brancos, rosés e tintos de mastigar. É a terra, o sol e o trabalho do homem que permitem o prodígio. E há tempo para estar com os amigos à roda de uma conversa franca.

Não deixei de ver e de fazer o que me apetecia entre exposições (Palácio Cadaval- Évora), monumentos e casas com história (Igreja matriz de Arronches, Igreja da Ordem Terceira de Monforte, Catedral de Jerez de la Frontera, Palácio del Virrey Laserna, na mesma cidade, e de o Las Dueñas em Sevilha), passeios (na barragem do Maranhão, que na minha é coisa de brincar) e espectáculos (gala de Arte Equestre com as escolas andaluza e portuguesa, e concerto de abertura do Festival Internacional de Musica de Marvão). E mais ainda de olhar e cheirar esta terra que tanto quis e da qual me sinto cada vez mais filho.

Ao cair da tarde o milagre é de endoidar, ouram-se os campos, as flores exalam inebriantes olores e o chilreio quase ensurdecedor anuncia a noite abençoada pelo luar e pelas estrelas. Não tarda tudo se aquieta, menos a coruja (a hora é dela, dos javalis e das raposas) que, todas as noites, sinto a vaguear nos telhados do monte, pelos seus passos nervosos sobre as curtidas telhas, enquanto escrevo o que tenho partilhado consigo neste blogue. Se o sono não me vencer ainda espreito a Netflix, chegou tarde mas a tempo ao meu quotidiano e quase estou viciado em documentários e séries (foi bom saborear, episódio a episódio, a última temporada de “Downton Abbey”, depois de ter visto, de empreitada, todas as anteriores).

Amanhã há que regressar à Televisão, foi a Vida que quis para mim e que me faz feliz, claro que voltarei a ligar o televisor para me manter a par, nem faria sentido de outro modo sendo esse o meu ofício, mas é nestes momentos que me torno ainda mais selectivo. Como espectador e como cidadão. Há coisas e pessoas que sei, decididamente, não querer na minha Vida!

P.S. – Já me esquecia: em Setembro terei mais semana e meia de remanso. E lá voltarei a encontrar-me!


Livros sugeridos:
“Os ricos” – Maria Filomena Mónica, editado por “A esfera dos Livros”
“Uma vida em directo” – Luís Costa Ribas, editado por “Oficina do Livro”
“Antes é que era bom!” – Michel Serres, editado por “Guerra e Paz”
“A grande fome de Mao” – Frank Dikötter, editado pela “D.Quixote”

Sítios da internet sugeridos:
www.lasduenas.es
www.palaciodelvirreylaserna.com
www.marvaomusic.com