
Cara de pasmo mesmo, não escondendo a aflição de me ver surpreendido pela Cristina perante uma plateia de convidados, amigos e jornalistas. Decorria a apresentação do seu livro “Sentir”, na sequência das afirmações de Rui Couceiro, representando a editora, quando a autora já falava do desafio da escrita e de quão emocionante havia sido buscar na gaveta das memórias experiências e emoções que hoje sustentam a mulher que é. Só ela o poderia fazer, havia-mo dito uma semana antes quando lhe perguntei sobre quem iria apresentar o livro. Claro que sim, nada nela é óbvio, pensei na hora, imagine-se então o que experimentei ontem no momento em que a ouço dizer que não, que não seria ela a apresentar o livro, mas sim uma pessoa que estava ali naquela sala. “Não, não posso ser eu, ela não me faria uma coisa dessas. Ela sabe que detesto surpresas!” – negando o que a maioria dos presentes já pressentia, ainda procurei ver quem, entre os sentados na primeira fila, poderia avançar. Mas já a Cristina me atirava: “sim Manel, vais ser tu a apresentar o meu livro… junta-te a mim”.
Confesso que o meu coração batia descompassadamente, na altura nem percebi bem quem seriam as outras duas “vítimas”, a juntar-se na apresentação. Claro que tenho fluidez de vocabulário, porque sempre li muito, não me assusta enfrentar uma plateia nos olhos, se bem que prefira a passividade da objectiva de uma câmara, ainda que imagine que do outro lado haja alguém a escutar-me, mas tenho por norma que os melhores improvisos são, pelo menos , esquematizados mentalmente de modo a aproveitar e disciplinar da melhor forma o tempo de que dispomos, captando a atenção de quem é à nossa frente. Falar da Cristina parece fácil sendo difícil de tanto que ela é, por isso naquele momento senti-me náufrago, procurando desesperadamente uma palavra que me salvasse. Tudo quanto disse, e sobretudo o muito que ficou por dizer, resume-se a uma palavra: Amor. Um amor que se construiu quase sem dar por isso, nos pequenos detalhes, nos risos, nos olhares, na cumplicidade e na partilha. E foi na partilha que ela soube ser minha mestra. Vê-la crescer através do trabalho, da dedicação, da criatividade… tem sido arrebatador. Por isso jubilo a cada vitória, a cada conquista. Ontem foi mais um dia e muitos outros virão, que tudo está por fazer, só quem não a conheça é que pode pensar que está esgotada a sua capacidade de concretização e de surpreender. Ontem as palavras foram ditas “à flor da pele”, porque ela assim quis que fosse. E vejo agora que fez todo o sentido. É também deste amor que alimento a minha Vida. No dia em que o não tiver é porque terei morrido!



