Do(s) convento(s) para o Cabaré

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Gosto de lugares de silêncio, outrora de recolhimento e oração. E é na contemplação do que deles resta que me encontro e apaziguo. Desta vez foi em São João de Tarouca (acreditou-se que o primeiro mosteiro fundado em Portugal pelos frades da Ordem de Cister, mas há quem afiance que o primeiro mesmo terá sido o de São Cristóvão de Lafões) ou melhor na sua igreja, que o mais são ruínas à espera que façam delas alguma coisa. Tempos houve em que se falou de se instalar ali uma pousada a exemplo do que se fez, e bem, com o convento de Santa Maria do Bouro. Tenho que a transformação de certos monumentos, nomeadamente religiosos, em unidades de turismo selectivo são a melhor forma de se recuperar, preservar e dignificar todo um património que no caso concreto de mosteiros e conventos começou a degradar-se e a ser pilhado após a extinção das ordens religiosas, em 1834, e sequente fechamento após a morte do último monástico habitante. Mas tudo não terá passado de bons propósitos sem o financiamento ou o interesse dos da tutela, que os sustentasse. E ainda que as pedras falem por si, de um passado dedicado ao trabalho da terra, já que os monges eram senhores de largos fundos agrários, ao ensino de artes e ofícios, e à oração, é na Igreja que encontraremos as obras de arte que conferem grandeza e sumptuosidade a todo conjunto, como o cadeiral de sessenta assentos, em pau do Brasil, ornado com o excesso e extravagância do barroco português do século XVIII, a escultura da Virgem com o Menino, policromada, encontrada no antigo refeitório dos monges, que os da terra baptizaram de Senhora da laranja, os azulejos de seiscentos que cobrem arcos e paredes das naves laterais, o colossal túmulo granítico onde jaz D. Pedro Afonso, conde de Barcelos, filho bastardo de D.Dinis… nada que não lhe seja relatado por Rosa Jacinta, um verdadeiro tratado … de sabedoria e simpatia, feita guia por dedicação … e jardineira, logo acrescentou com orgulho, que é ela quem cuida do espaço exterior do mosteiro e de alindar os altares em dias de celebração. Filha da terra, fala com devoção do seu Mosteiro, que o quer mesmo é que venham admirá-lo.

O mesmo entusiasmo encontrei em Daniela Faria, da Inovterra (Associação para o Desenvolvimento Local), ao mostrar-me um extenso projecto de cultivo de ervas aromáticas e medicinais, seguindo o exemplo dos monges de Cister, desenvolvido dentro da cerca do mosteiro, para além de muitas outras ideias que a Associação pretende pôr em prática no intuito de valorizar e divulgar todo este património.

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E em Salzedas, ali a dois passos, no Mosteiro de Santa Maria, também cisterciense e cuja fundação está intimamente ligada a Teresa Afonso, mulher de Egas Moniz. Neste caso, se a Igreja, hoje paroquial, necessita urgentemente de obras de recuperação, tal o seu estado de degradação, em outras dependências do antigo mosteiro, como a área das celas de clausura, podemos encontrar um bem pensado e estruturado museu, onde se exibem algumas das valiosas pinturas que outrora vestiram as paredes do templo, de autoria de nomes maiores da pintura portuguesa, como Grão Vasco e Bento Coelho da Silveira.

Também aqui encontrei o mesmo orgulho de quem da terra e com funções autárquicas (Manuel Laranjo) procura, sem os apoios suficientes, enaltecer e valorizar tão valiosa herança.

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De notar que o terreiro do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas se apresenta harmonioso e com outros motivos de interesse, como a judiaria que em breve será recuperada, o cruzeiro e a “Casa do forno”, se bem que neste último caso, onde ainda existe aquele que foi o velho forno comunitário, o interesse seja gastronómico, porque agora é ali um pequeno restaurante onde a cozinha se serve franca e saborosa, como se fosse a da nossa avó.

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Mais uma curiosidade para selar a prosa: numa casa sobranceira ao terreiro, onde é a varanda de madeira a dominar a sua fachada, estranha-se a existência de portas abaixo das janelas. Mas tudo tem uma explicação: sendo esta região rica em figos, estes espalhavam-se no chão sobre cama de palha e deixavam-se a secar, com as ditas portadas escancaradas.

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