Do “croquembouche” à sopa da pedra

Sumário

Uma prova de “fazer perder a tramontana” ou quando os concorrentes deram “com os burricos na água”; um desafio afinado; saída com brinde; responso final.

(É, apeteceu-me desta fazer a coisa ao jeito do liceu quando havia sumário na ardósia a resumir a aula a seguir).

1) Uma prova de “fazer perder a tramontana”
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Comecemos então pela prova que se revelou um autêntico quebra cabeças para todos os concorrentes: o “Croquembouche”. Duas horas e meia para fazer esta peça montada da pastelaria francesa não é pêra doce, nem mesmo para o mais experiente dos pasteleiros.

Há que fazer a massa choux, para com ela se confeccionarem os profiteroles. Há que preparar um creme de pasteleiro, ou outro que seja, para servir de recheio. E mais ainda uma calda em ponto de caramelo, para nela se mergulharem os profiteroles recheados, um a um, para assim se irem montando e fixando em cone. Tudo sobre uma base de “nougat”, também esta a exigir cuidados.

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Bem feito, é digno de ser visto e apreciado antes de estalar na boca (“croque-en-bouche”), por isso em França não há casamento, baptizado ou bufete de primeira comunhão que o não exiba com vaidade.

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Bem tentaram os nossos concorrentes… mas foi aquilo que se viu. Um desastre, em meu entender previsível, pelo tempo que tinham e pela temperatura do estúdio que não ajudou, antes pelo contrário. A Sónia foi a única que esteve prestes a concluir a peça, ainda que um pouco descorada e com profiteroles mal cozidos, não tivesse ela desabado minutos antes da conclusão da prova. Quanto aos outros, houve de tudo um pouco: uma Margarida de humor aguçado e bem que precisou dele na hora de mostrar a sua obra com um caramelo tão puxado que por pouco não ficaram lá os nossos dentes, um Luís que não desistiu, nem ao quarto ponto de açúcar, acabando com os dedos numa lástima (salvou-se a língua sempre espevitada), uma Rita, algo manhosa, procurando aldrabar prova e jurados com uns profiteroles por rechear e um Daniel que, pura e simplesmente, entregou os pontos, desistindo. Aliás, seriam estes dois últimos concorrentes considerados os piores da prova. E, porque o MasterChef está sempre a surpreender, seriam eles os capitães da prova seguinte, não se safando, contudo, do último dos desafios, o que dita a expulsão. É que não há, mesmo, dois programas iguais.

2) Um desafio afinado
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Afinado e por mais de uma razão. A ideia foi de ir a Gondomar, no dia do primeiro de dois concertos da equipa do programa da manhã da Rádio Comercial. Assim, os concorrentes dividiram-se em duas equipas capitaneadas, respectivamente pela Rita e pelo Daniel e tiveram de cozinhar para os animadores do programa (Pedro Ribeiro, Vanda Miranda, Vasco Palmeirim, Nuno Markl e Ricardo Araújo Pereira) e seus convidados (Ana Moura, os Expensive Soul, Miguel Araújo, Mariza Liz…). Isto no magnífico Multiusos da cidade, obra de Siza Vieira.

A proposta era de um menu de “finger food”, ou seja belisquetes ou petisquinhos que se pudessem comer com a mão, para ser servido ao elenco luxento do concerto, antes dele começar.

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Correu muito bem a prova para as duas equipas, pelo que me foi dado observar. Houve tempo para apresentar várias propostas culinárias, bem pensadas e executadas. Sempre que isso acontece, nós os jurados, jubilamos, pela nítida evolução que, a um mês da grande final do MasterChef, é evidente em todos os concorrentes. Todos os artistas disseram do seu agrado e bem vimos como houve quem não quisesse “desamparar o bufete” não fosse o concerto estar para começar e ser chegado o momento de votar. Ganhou a equipa do Daniel, mas a da Rita não ficou atrás em criatividade e bons sabores.

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Não é que me tenham encomendado o sermão, mas apetece-me falar da Hellmann’s (a verdadeira maionese), por gostar sempre de entender o que como, e mais a mais quando ela esteve tão presente na confecção de alguns dos “divertimentos de boca” apresentados na prova.

Talvez não saiba, mas a marca tem a ver com Richard Hellmann, emigrante alemão em Nova York, nos primeiros anos do século XX, com uma loja de guloseimas e produtos artesanais, como a maionese feita pela sua mulher e vendida em frascos de vidro, em duas versões, uma delas marcada com uma fita azul (semelhante ao logótipo actual). Diz-se que o nome Helmann´s passou a ser usado como marca em 1926, sete anos após a compra da receita pela Bestfoods, uma das maiores empresas norte-americanas na área dos alimentos. Certo é que se trata de uma suave, saborosa e macia maionese, ideal para ser usada em sanduíches, saladas, canapés e até em pratos de alguma sustança.

3) Saída com brinde
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Também a sopa da pedra, mote para a prova de eliminação, tem que se lhe diga entre a estória que se conta e a história que se julga verdadeira.

Diz a estória que andava um frade na pedincha, tal era a larica. O que ele queria era fazer um caldinho de pedra, para isso já tinha a dita, faltava só uma panela e uma pouca de água. Logo lhas deram na primeira porta onde terá batido, a de um lavrador. Finório, o frade, como quem não quer a coisa, foi dizendo que, com um pedaço de unto, o caldinho ficaria uma delícia. Feita a sua vontade, a pedinchice continuaria com mais umas pedrinhas, agora de sal, depois com uns olhinhos de couve, a seguir com uma rodelas de chouriço e ainda mais feijão… e assim se foi fazendo uma sopa farta à custa do chico-espertismo do rubicundo frade.

Parece, porém, que a história é outra e tem a ver com um restaurante de Almeirim: “O Toucinho”, já que é ele a reclamar a paternidade da receita, nos idos de sessenta. Antes mesmo de ser restaurante era mercearia e seria ali servida uma sopa reconfortante, feita pela avó Mariana, a ponto de valer por uma refeição. Sopa da pedra, assim a apodaram, por ser pesada e escura como as pedras da calçada.

Recriar a sopa da pedra foi o último desafio proposto neste programa à Rita, à Sónia, ao Daniel e ao Filipe.

A Rita fez a melhor das sopas, sem que nenhuma das outras se lhe aproximasse e por isso mereceu todas as gabações. Já a pior, até no empratamento, foi a do Filipe e por isso desta ele não passou.

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Quando já eram atribuídas as cinquenta colheres de pau, no Terreiro do Paço, naquele que foi o “mega-casting” do primeiro programa e entre quinhentos candidatos, o chef Miguel Rocha Vieira pediu uma outra colher para entregar a um jovem de Almada que lhe pareceu ter potencial para seguir como concorrente. Era uma aposta sua e assim o Filipe foi a quinquagésima primeira colher de pau. E chegou a concorrente, ultrapassando, com êxito, as duas provas de selecção sequentes.

Ao longo de dois meses de programa revelou-se de grande humildade e dedicação. Absorvendo avidamente todos os ensinamentos e conselhos, foi progredindo de forma clara até chegar a este décimo programa MasterChef.

É um exemplo de jovem equilibrado e honesto a que não será alheia a formação dada por sua mãe, a mulher da sua vida, como gosta de dizer. A todos cativou, jurados e concorrentes, e por isso o momento da sua saída de competição teria sido doloroso não fosse do Miguel a última palavra.

O Filipe acabou por ganhar um estágio no restaurante “Costes”, em Budapeste, onde o chef Miguel oficia de forma notável, a ponto de ter conquistado pelo quinto ano consecutivo uma estrela Michelin. De malas aviadas, o jovem que já trabalhou nas obras, dá mais um passo na conquista do seu sonho maior: o de ser chef e de ter um restaurante. Felicidades Filipe.

4) Responso final
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Sabíamos da intenção do Miguel há já algumas semanas. E confesso, que estava “em pulgas” para que tal acontecesse, ainda que isso significasse que a competição para o Filipe tinha terminado. Era uma porta a fechar-se… para se abrir uma janela de oportunidade única. A de um estágio num dos grandes restaurantes europeus, com forte possibilidade de emprego, assim o aproveitamento seja a contento.

Miguel Rocha Vieira revelou com este seu gesto (e independentemente de eu saber que vai arcar com as despesas de deslocação e de estada do Filipe em Budapeste) uma grandeza e generosidade que espero calem quantos levianamente o rotularam de arrogante, só porque, desde o primeiro programa, mostrou um grau de exigência e de respeito, pouco habituais, ao serviço do seu ofício, por o entender como coisa maior. Por isso, também, me orgulho de ter trabalhado com ele ao longo desta inesquecível série MasterChef.

No próximo sábado:

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Os concorrentes, ainda, em prova, vão entrar pela primeira vez numa grande cozinha, a do Hotel Ritz.

E preparar uma refeição de luxo para mim e cinco convidadas muito especiais.

Não perca!

À beira do prato:

Diz-se que “homem pequenino é velhaco ou bailarino”.

Já se sabia que “dava baile” como jurado, mas aqui se prova que Rui Paula sabe também dançar! As imagens foram colhidas, por mim, enquanto esperávamos em Gondomar pelo início das gravações (já se ensaiava em palco para o concerto dessa noite).

www.toucinho.com

www.costes.hu