De Manel para Manel (II)

1507-1

Há oito meses éramos todos ali naquela mesma sala, da Livraria Buchholz (quedando-­me à direita do Manel), para celebrarmos a sua vida. Oito meses depois, o que mudou? Muito pouco, digo eu, por termos estado ali, de novo a celebrar a sua vida. E lá estava ele, na cadeira aparentemente vazia… nos nossos corações… nas nossas memórias.

O Manel é daqueles (permitam­-me usar a frase de Saint­Exupery) “que passam por nós e não vão sós. Não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”. Muito nos deixou o Manel… Deixou-­nos a sua fina ironia, o seu humor, o seu jeito de provocar. E entendo estas qualidades como “armas” da liberdade. O humor, a ironia… são libertadores, por isso agitam, por isso incomodam. O Manel era um homem livre.

Deixou­-nos a sua Fé. Não falo da Fé (que também tinha, sendo que eu não tenho), tal e qual é entendida e propalada pelas religiões monoteístas que assentam na figura de um Deus, que não comporta qualquer análise empírica, falo sim de outra Fé que poderemos qualificar de confiança. Confiança em si próprio, confiança nos caminhos que escolheu. Confiança que gera confiança, e sem a qual não podemos avançar, progredir. Aquela que permite procurar, encontrar e fazer emergir a alegria, essência da Vida. A mesma confiança com que viveu e conviveu, nos últimos anos, com o cancro, revelando-­nos, através dela, a beleza da superação.

É este Manel que reencontramos agora ao lado do José Alberto Carvalho, senhor da televisão, mui digno e credível jornalista, neste livro que eterniza as conversas que tiveram e nós cumpliciámos através da TVI24 (no programa «28 Minutos e 7 Segundos de Vida»). Conversas que rasgam caminhos… que nos levam a reflectir, a pôr­-nos em causa, a agir. É um livro desassombrado, de lições várias, que nos interpela e inspira. Lê­-lo é ficar suspenso do que se diz a seguir, do que se vai revelar. É experimentar o encantamento, a inquietação. É ousar, é desejar, é sonhar, é (como o próprio diz e sua maravilhosa Helena lembra no prefácio) “pedir tudo, para termos quase tudo”.

Olha Manel, este aqui bem procura não se acorrentar a pequenos nadas e porque vai tentando não se distrair da Vida, é feliz. Obrigado.

fotografia

(fotos gentilmente cedidas por Cristina Nunes dos Santos)