Caminhos de Vida

Na semana passada tive o privilégio de ser convidado para, no âmbito da celebração do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, falar no auditório do Hospital da Luz sobre a forma como o tema é tratado pelos “media”, em particular pela televisão, dado que é nesse meio que trabalho há muitos anos.
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Bem gostaria de ter começado por enaltecer a eficácia da mensagem passada pela televisão, se essa fosse um facto, mas infelizmente este é um tema pouco ou nada tratado por qualquer um dos canais generalistas.
Falo por mim e pela minha prática ininterrupta de vinte e quatro anos na condução de programas matinais. Quantas vezes terei abordado a questão dos cuidados paliativos? Nem umas dez, em vinte e quatro anos, e sempre que o faço tem de haver um motivo forte que o justifique, para que a proposta do tema seja aceite, de bom grado, no colectivo de quantos editam e produzem o programa: uma celebração, a publicação de um livro, uma efeméride…

Há como que um preconceito instalado que repele o assunto por inevitavelmente o associarmos à morte, quando é de Vida que estamos a falar. Há caminhos de Vida na Morte, que devem ser percorridos com dignidade e sem sofrimento. Podemos estar a falar de dias, mas também de meses e até de anos em que o paciente e o seu entorno têm o direito a cuidados qualificados e evolutivos que respondam às suas necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais. Por isso quando falamos de unidades de cuidados paliativos não estamos a falar de uma cama numa qualquer chafarica (por exemplo, lares que, enganosamente, os propagandeiam em feéricos néons) mas de unidades pensadas e criadas com critério e grande exigência, servidas por equipas multidisciplinares.

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Não, não se pense que cuidados paliativos é apenas para gente rica, qualquer doente tem de saber que eles existem e que a eles tem direito, independentemente da sua condição social e da sua conta bancária. Mas para tal é indispensável a informação. Uma sociedade informada é uma sociedade livre e por isso capaz de reivindicar e de exigir. A televisão deveria assumir-se como protagonista nessa função e não importa se pública ou privada, se bem que esta última se rega, e compreensivamente, por outra lógica: a das audiências.

O medo de baixar a audiência, subverte bastas vezes os princípios que entendo como basilares para a função de comunicar em televisão: entreter, formar e informar. E é possível num mesmo programa abarcar todos estes propósitos norteadores. Adapte-se a linguagem consoante o público que assiste, seja-se um bom comunicador (a), dos que fazem ficar agarrados ao ecrã, e não haverá beliscadura nas audiências, tenho provas disso.
Na véspera da sessão no Hospital da Luz, convidei, uma vez mais, a Dra Isabel Galriça Neto a estar presente no programa da manhã para falar de cuidados paliativos, a sua bandeira. Fá-lo sempre de modo empenhado e apaixonado, com as palavras certas e certeiras para o auditório deste género de programa, verdadeiros contentores, onde todos os assuntos cabem, por isso autênticas escolas de televisão. No dia seguinte, antes de entrar em estúdio, e consultando especificamente as audiências do programa anterior, no segmento respeitante aos cuidados paliativos, pude constatar que 476.000 pessoas (quase meio milhão) assistiram à conversa de vinte minutos e em momento algum a audiência desceu, antes pelo contrário.

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Há temas que deviam ter prescrição televisiva em doses leves mas repetidas. Os que nos abrem coração e mentalidade, que esse é o poder da televisão. Assim o saibamos usar. É curioso que exista o preconceito em relação à abordagem da morte, face inseparável da nossa existência, através de um caminho de qualidade de vida, sem a inutilidade do sofrimento, que é isso que são os cuidados paliativos e não exista preconceito ou pudor idênticos quando a morte dos outros, cruel e ensanguentada nos é servida, de segunda a sexta, à hora do almoço nas ditas “crónicas criminais” e contra mim falo.

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Continuarei a abordar temas como este no meu ofício de todos os dias, com a regularidade que me for possível, consciente da importância que têm na construção e formação de uma mentalidade plena. Perante a dor, não podem existir cidadãos de primeira ou de segunda. Todos terão de ter acesso a cuidados paliativos, seja nos hospitais privados, seja nos públicos. Já há uma meia dúzia de hospitais públicos com tais unidades mas são ainda, assustadoramente, insuficientes, sabendo que em Portugal setenta mil pessoas deles necessitam, sendo que seis mil são crianças. Medíocre é a classificação que organismos internacionais de saúde atribuem ao nosso país, no que toca à prestação de cuidados paliativos. Um país civilizado e moderno tem uma boa rede de cuidados paliativos. Exiga-se mudança e acção da parte das entidades decisórias e não a desfaçatez e impiedade de julgarem que estes doentes já não contam.

É de Vida que falamos (e não é Viver aprender a Morrer? – como diria Sêneca, filósofo da Roma Antiga). Cuidados paliativos não é atirar o doente para os bastidores da Vida é mantê-lo no proscénio, com os seus, com qualidade, bem-estar e dignidade.

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