Falei delas há muitos anos, quando apresentava o “Praça da Alegria”, que por ser feito nos estúdios da RTP/Porto dava particular atenção a tudo o que fosse do Norte. Quando percebi que andava perto, quis conhecer a Casa das Bengalas de Gestaçô. Cheguei à aldeia (do concelho de Baião) ao mesmo tempo que uma carrinha, de altifalante no “cocuruto”, anunciava o falecimento de uma local, que esse é costume quando alguém da terra “vai desta para pior” e lá vai tempo em que a noticia era dada de porta em porta. Entrei no café Soeiro, daqueles com locanda pegada, e onde a simpatia se serve gratuita, para saber onde ficava a casa procurada, e não é que ela era mesmo ali à frente do meu nariz e eu sem a ver. Ainda por cima destaca-se das demais, porque alva e de linhas modernas.
Logo apareceu a Fátima, prestável e generosa, abdicando da sua hora do almoço, para abrir a casa que nasceu em 2007, com o intuito de preservar a memória histórica de um ofício tradicional de muitas décadas, e tudo me explicar.
As primeiras oficinas de bengalas terão surgido em Gestaçô nos finais do século XIX, mas foi Alexandre Pinto Ribeiro com oficina montada em 1902 quem terá revolucionado todo processo de fabrico, ao introduzir uma pequena inovação tecnológica: a técnica da dobragem, substituíndo a técnica de recorte até então usada.
Esta será a fase de fabrico que mais curiosidade desperta, eu próprio manifestei interesse em vê-la e tal foi possível porque o Serafim, um dos três bengaleiros que mantém viva a tradição, logo se disponibilizou a mostrá-la no seu atelier, onde não tem mãos a medir, tantas as encomendas, mais a mais agora à portas da Queima, que é quando cartolas e bengalas não podem faltar.
As tiras de madeira que irão dar origem às futuras bengalas, são amolecidas em velhas panelas de ferro de três pernas, em cima do lume esperto. A ideia é mergulhar a extremidade da vara de madeira que se pretende vergar, de forma a torná-la maleável.


Depois da dobragem, ainda a bengala há-de passar por muitos tratos, como o desbaste, decoração e acabamentos antes de se exibir para venda, a um preço irrecusável. Aqui para nós, comprei quatro e quem sabe se um dia não as vou usar… por vaidade.



