Beleza não tem idade

Não hesitei quando soube do propósito do projecto “Beleza não tem idade”, uma iniciativa do Gabinete Técnico e Animação Sócio-Cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e quando me convidaram para o integrar. Sou por uma sociedade inclusiva onde todos temos os mesmos direitos e deveres, independentemente do que nos possa distinguir.

Apesar do que já se conseguiu a nível da mudança de mentalidades, o preconceito sobre os mais velhos continua disseminado na nossa sociedade e é visível em áreas tão diversas como, por exemplo, a do trabalho ou a da saúde. Entendo como falaz a ideia de que existe uma idade-limite para que um(a) trabalhador(a) deixe de ser produtivo. A idade aposta no cartão de cidadão não será o melhor indicador do processo de envelhecimento de cada indivíduo, isso dependerá de muitos outros factores que não, tão só, o da idade cronológica. Os mais velhos apresentam-se hoje com uma autonomia e independência funcional que não há muito julgaríamos impensáveis. Vejo pela minha mãe, senhora dos seus noventa e dois anos, lúcida e sem achaques de maior, que não dispensa o seu passeio diário pelas ruas da “baixinha” coimbrã, o encontro com as amigas, a ida frequente à pastelaria e ao cabeleireiro e mais ainda tudo o que faz sentir-se viva. Quando lhe pergunto,
diariamente, como se sente, é isso mesmo que me responde: “sinto-me viva!”, contrariando veemente o meu desejo de a ter por perto, como mantive no último ano. Não é sem um sorriso que lembro as suas palavras sempre que chegava a casa, depois de mais um dia de trabalho televisivo: “viver aqui é uma seca! Parece que estou num convento!”. O que lhe sobrava em espaço, faltava-lhe em convívio e aconchego com os seus amigos e pertences.

Promova-se o envelhecimento activo, invista-se em políticas que permitam que os mais velhos possam viver de forma saudável e activa. Isto só é possível com uma verdadeira mudança ideológica no modo de encarar o envelhecimento. O combate deve assumir-se em várias frentes, a começar por toda uma pedagogia junto das faixas etárias mais jovens.
Há iniciativas isoladas, quase sempre a nível autárquico, que promovem a troca de experiências entre gerações, mas muitas vezes eivadas de um paternalismo infantil que entendo como ineficaz e prejudicial. Não! Ser velho não é ser doente, incompetente, imprestável. A mudança tem de começar em cada um de nós, na forma de ver, pensar e lidar com o outro, mais velho.

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Cem figuras conhecidas de diversas áreas, como televisão, teatro, cinema, moda…, foram fotografadas, em diversos ambientes, com utentes das Residências e Centros de Dia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com vista à edição de um livro e à concretização de uma exposição que irá estar patente ao publico em vários pontos do país, sensibilizando para esta temática. Estas são apenas algumas dessas cem fotografias.

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A nossa foto:

Sim, nossa. Sinto-a minha e de quantos nela são e têm nome: Maria José Dias, Maria Luizete, Maria de Fátima e João Duarte. Muito rimos naquela tarde, dentro de um “tuk-tuk”, á porta da Igreja de São Roque, depois nos termos ajanotado com maquilhagem e roupa a preceito, enquanto o Carlos Ramos casava a luz com a sua objectiva. E o riso não desmaiou ao longo das centenas de disparos, acabando por sermos modelos também para quantos por ali passavam e, vendo aquele circo montado, logo “sacavam” dos telemóveis para tudo registar. Ouvi-lhes histórias e pasmos como aquele de me dizerem: “que feliz estou por trabalhar consigo!”. E senti-me bem, por ter dado o meu melhor.

Grato sou eu!

Fotos: Carlos Ramos