
Por muito velha que seja esta taça nunca será uma antiguidade, já que não tem qualquer interesse e valor artísticos. É apenas uma velharia curiosa porque levou gatos, não os bichos felpudos (ou não, que sou dos que têm um felino pelado) de que tanto gostamos, mas sim os grampos de metal que faziam com que uma peça rachada ou mesmo quebrada pudesse continuar ao serviço. E foi assim ao vê-la gateada que me lembrei da figura típica do amolador quando este, de quando em vez, se fazia anunciar na baixa de Coimbra, passando os beiços pela gaita, para logo as senhoras descerem à rua com as suas facas e tesouras rombas para serem afiadas, com uma cafeteira, panela ou tacho a pedirem “pingo”, com os guarda-chuvas reclamando varetas novas… E tudo o amolador consertava, prolongando assim a serventia diária de muitas peças. Que os tempos eram de míngua e nada se podia deitar fora. Assim foi com esta taça, apesar de a encontrar agora perdida num depósito de quinquilharia, enquanto decorre este meu alentejanar. Por serem estes tempos de outro conforto não sobra valia para tais cacos, mas as memórias de infância falaram mais alto, por isso fiquei com ela, por “dez réis de mel coado”, trouxe-a para o monte e dei-lhe novo préstimo. Guarda agora as toalhas de mãos, numa das casas de banho, e, como não poderia deixar de ser, com os gatos à mostra. É o que se diz: sete vidas têm os gatos!




