Adivinha quem vem jantar!

Ontem à noite éramos seis à mesa e por ter estado um dia que mais parecia de Verão, com a temperatura do ar a roçar os trinta, pensei num jantar ao ar livre, acreditando que a noite se mantivesse agradável, a exemplo do que tem acontecido ao longo de toda a última semana. O Alentejo é assim!


Na mesa grande do alpendre usei desta vez dois serviços da Vista Alegre (o “Blue Ming”, criado por um designer holandês, Marcel Wanders, e o “Gold Exotic”) diferentes mas ligando bem entre si pelos motivos florais e pela cor dominante, o azul. Mantive a mesma cor nos copos de água da Marinha Grande. A crueza da madeira irregular da mesa aligeira a formalidade do serviço de pratos, sem contudo lhe retirar elegância. A transparência do vidro usado no copos de vinho, nas taças das flores silvestres (onde prolongo o amarelo que pontua o prato marcador e aventuro-me no vermelho sangue) e nas luminárias que espalhei pela mesa e alpendre, ajudaria a criar o ambiente que pretendia, sobriamente elegante, adequado para uma refeição entre amigos. Luxuoso mesmo só o imenso dossel de estrelas que nos haveria de cobrir. O Alentejo tem destes prodígios.

Bem me disseram que melhor mesmo era ir para dentro, isto depois de uma publicação no meu Instagram dando conta da lida na cozinha, diziam que o tempo iria piorar porque um tal de Leslie haveria de chegar ao continente com vento forte e muita chuva. E eu a leste, que o Alentejo tem feitiço, a ponto de esquecer de me ligar ao mundo. Realmente ao final da tarde começou a levantar-se vento e pus-me a matutar que deveria levar a sério a recomendação. Toca a levar tudo para a casa de jantar e a começar de novo, alterando dois pormenores ao conceito inicial. Primeiro a mesa, é redonda e merecia ser vestida, por outro lado queria manter a ideia de fazer uma decoração elegante mas não ostensiva. Por isso optei por continuar a brincar misturando padrões, indo agora mais longe ao escolher uma toalha também ela com motivos florais azuis, prolongando ainda o desafio num centro de mesa, o mais tradicional possível, em louça de Alcobaça, uma daquelas velharias que tinha como pirosa no tempo da Maria Cachucha e agora a graça que lhe acho, tanta que a comprei por “tuta e meia” numa loja de Lisboa a abarrotar de quinquilharias.


Servimos uma salada fria de pato com verduras, em molho de vinagreta, uns rolinhos de linguado recheados de espinafres, com feijão verde e para rematar uns folhados de maçã e caramelo com um toque de “creme fraiche”. E ainda fomos num branco que todos apreciamos, o “Terrenus”, um vinho produzido a partir de vinhas velhas da Serra de São Mamede, fresco e muito equilibrado. Sim, que cá no monte só se bebem vinhos da região. E se o Alentejo os tem, de grande qualidade!

A noite prolongar-se-ia à mesa da amizade, entre histórias de cavalos e fidalguia, terminando, a bem dizer, à luz dos candeeiros de petróleo, coisa avoengada dir-me-á, mas ainda bem que os tenho por saber já o que “a casa gasta”: é que em havendo borrasca é certo e sabido que a electricidade vai abaixo. Bem me disseram que o Leslie também vinha para o jantar!