
Era um regalo ver a avó Palmira quando se afadigava na feitura do arroz, doce de açúcar e de muitos cuidados, desde o mexer com pau de laranjeira para que ganhasse travo, até ao rendilhado de canela com que o coroava. Do que gostava mesmo era de rapar o tacho, com o que sobrava do arroz ainda quente, pouco ligando aos males de barriga sequentes. Um dia o arroz, sempre sem gemas que o maculasse como se usa em terras da Beira Litoral, foi substituído por uma massa muito fina que logo me disserem ser chamada de aletria ou, mais bonito ainda, de cabelos de anjo e eu, impenitente lambareiro, logo à elevei à condição de doce predilecto. Até hoje! Em havendo aletria, é certa e sabida qual a minha escolha. Também a faço, volta e meia, e gosto particularmente de a cozinhar em calda de açúcar, por isso a minha receita é sempre gabada, e assim foi quando a levei à mesa da última consoada. Experimente e logo me dirá.
300 gramas de aletria
250 gr. de açúcar
casca de uma laranja
12 gemas de ovos
Canela em pó, para decorar
Num tacho leve o açúcar ao lume com dois decilitros de água e a casca de laranja. Deixe ferver até obter uma calda em ponto de fio (105 graus no pesa-xaropes). Retire a casca de laranja.
Entretanto, coloque aletria numa tigela e deite sobre ela água fervente. Dois minutos é o suficiente para que a aletria amoleça. Escorra-a.
Junte a aletria escorrida à calda de açúcar. Deixe cozinhar um pouquinho mais, breves minutos.
Bata as gemas, numa tigela, apenas para as misturar bem. Passe-as por um passador de rede. Junte-lhes uma concha de calda de açúcar, em fio, mexendo sempre.
Junte as gemas, em fio, no tacho da aletria, sem parar de mexer. Deixe cozinhar em lume brando, mexendo sempre, até que o creme de gemas espesse, mas sem ferver.
Retire do lume e deixe arrefecer um pouco antes de deitar em travessa ou pratos individuais.
Uma vez arrefecida, decore a aletria com canela em pó.
A casca de laranja pode ser substituída por casca de limão.



